Viola Davis para a revista Vanity Fair
Fotografia: Vanity Fair

Viola Davis: 55 anos de uma atriz pioneira e perseverante

Viola Davis celebra 55 anos de vida. A artista teve uma infância marcada pela pobreza, mas encontrou esperança na representação. Enquanto atriz, fez história ao ser a primeira mulher negra a vencer um Óscar, um Emmy e um Tony. A estrela continua a ultrapassar as suas próprias conquistas, talentos e ambições.

É impossível dissociar a carreira de Viola Davis das conquistas que alcançou enquanto mulher negra. A atriz e produtora foi a primeira mulher negra a alcançar a Tripla Coroa da Atuação (Óscar, Emmy e Tony). Além disso, foi também a primeira atriz negra a conseguir três nomeações aos Óscares — sempre como atriz secundária — e a primeira a vencer um Emmy para Melhor Atriz numa série dramática.

Acumula já dois prémios Tony, o primeiro de 2001, pela atuação na peça King Hedley II, e o segundo de 2010 pelo papel de Rose Maxon na peça Fences. Foi a mesma personagem que lhe valeu também o Óscar de Melhor Atriz Secundária na adaptação ao cinema de Fences, em 2017.

Quando aceitou este prémio, Viola disse: “Eu tornei-me numa artista — e graças a Deus que o fiz — porque somos a única profissão que celebra o que realmente significa viver a vida.” O filme e a peça que lhe mereceram tantos prémios (Globo de Ouro, BAFTA, SAG) falam também sobre quem é Viola: uma mulher preocupada em contar histórias comuns, mas igualmente extraordinárias.

Viola Davis em Vedações
Viola Davis ao lado de Denzel Washington em ‘Fences’.

Viola Davis dá vida e voz a personagens que importam. Num futuro próximo, vai vestir o papel de Michelle Obama, a antiga primeira-dama dos EUA, e participar num projeto ainda sem título sobre Harriet Tubman. Já interpretou mulheres fortes e audazes em inúmeras histórias, como em Viúvas ou How To Get Away With Murdermostrando sempre o lado vulnerável e humano das personagens complexas que aceita representar.

O caminho percorrido

Foi com Dúvida, também a adaptação cinematográfica de uma peça, que teve a sua primeira nomeação ao Óscar. A atuação precisa e comovente, apesar de curta, espantou tanto quem conhecia como quem passou a conhecer Viola Davis. Contracenou com a grande Meryl Streep, a atriz com quem, injustamente, continua a ser comparada vezes sem conta. Já foi apelidada de “Meryl Streep negra” — algo que a incomoda, e que demonstra, segundo Davis, como as atrizes negras estão abaixo das brancas em Hollywood, por serem as últimas a ser chamadas para os castings e as mais mal pagas.

A segunda nomeação ao Óscar chegou com The Help, onde tentou homenagear a sua mãe e avó, que tinham vivido uma vida semelhante à da personagem Aibileen Clark, uma empática mas injustiçada empregada doméstica descendente de escravos. Este filme colocou Viola Davis na ribalta, mas a atriz confessou este ano que se arrepende de ter participado numa narrativa que não abordou os problemas raciais da melhor maneira.

Não há ninguém que não se entretenha com The Help. Mas há uma parte de mim que sente que eu me traí a mim própria, e ao meu povo, porque eu estava num filme que não estava preparado para [contar toda a verdade]”, contou a atriz à Vanity Fair. O filme foi criticado pelos estereótipos associados aos negros e por ter uma narrativa de “white saviour”, já que uma personagem branca “salva” as personagens negras com a sua solidariedade e compaixão.

How To Get Away With Murder: um novo rumo

How To Get Away With Murder foi um projeto que marcou um ponto de viragem na carreira e também na vida de Viola Davis. Trouxe-lhe um Emmy enquanto Melhor Atriz de uma série dramática, e tornou-a na primeira mulher negra a alcançar este feito.

A atriz confessou à People que antes deste papel não valorizava tanto a sua imagem, nem o talento que tinha. Os defeitos que encontrava em si — a cor escura da pele, a falta de feminilidade, o nariz e lábios grandes —pareciam superar as qualidades. Mas ao deparar-se com uma personagem tão forte como a de Annalise Keating, Viola de repente teve de encontrar em si uma maneira de explorar todas as características daquela mulher.

Viola Davis como Annalise Keating
Viola Davis como Annalise Keating em ‘How To Get Away With Murder’, papel que lhe valeu um Emmy.

Ela é confusa, ela é quase sociopata, ela é sexual, ela é misteriosa, ela é muito inteligente, ela é uma grande personalidade, ela é todos aqueles adjetivos que não estão associados a mim“, disse. “Aquele trabalho deu-me permissão para olhar para a minha feminilidade, e para toda a minha feminilidade.

A atriz disse ainda que Shonda Rhimes, com este papel, redefiniu o que significa ser uma protagonista feminina na televisão, um novo tipo de protagonista que Viola não estava habituada a ver.

Uma infância difícil que não a impediu de brilhar

A vida familiar da atriz influenciou, e continua a influenciar, a sua carreira. O passado complicado que enfrentou permanece presente em cada personagem, em cada discurso, e em cada grande momento da sua vida.

Viola Davis nasceu a 11 de agosto de 1965, na Carolina do Sul. Viveu uma infância difícil, da qual guarda apenas uma fotografia. O lugar que a viu nascer, uma pequena cabana na quinta da sua bisavó, fazia parte de uma antiga plantação de escravos. No entanto, não foi na plantação Singleton que cresceu, pois os seus pais partiram para Rhode Island à procura de uma vida melhor.

Viola Davis com seis anos
Viola Davis com seis anos, a única fotografia que guarda da sua infância.

Filha de uma empregada doméstica e de um treinador de cavalos, Viola é a segunda filha mais nova entre quatro irmãs e um irmão. A sua infância ficou marcada pela pobreza, falta de condições sanitárias, e conflitos familiares causados pelo pai, alcoólico. Frequentemente sem água-corrente, ou comida, vivia numa casa infestada por ratos que devoravam as cabeças das suas bonecas, e mordiam os habitantes da casa durante a noite, caso não se cobrissem com um pano dissuasor.

Na escola, Viola era gozada, e sentia-se invisível, como se não importasse. Foi na representação que encontrou esperança para se fazer notar e para fugir às dificuldades do quotidiano. Ainda hoje, Viola Davis diz que mantém sempre presente a imagem da menina de seis anos que “foi uma sobrevivente“.

Apesar das dificuldades, Davis recorda-se da infância com alegria e diz que a família é uma das coisas mais importantes para si.”A minha mãe é o amor da minha vida. Eu amo os meus pais. Eu acho mesmo que eles fizeram o melhor que conseguiram com aquilo que tinham. Há sempre alegria, não importa o que mais ninguém diz, há sempre momentos de alegria“, disse a atriz à People em 2019.  Quando aceitou o seu primeiro Óscar, relembrou também os pais e as irmãs, e toda a criatividade e felicidade que guarda da infância.

Viola Davis aceita o Óscar de Melhor Atriz Secundária em 2017. (Fotografia: © Jason LaVeris | FilmMagic)

“[Obrigada] ao Dan e à Mary Alice Davis, que foram o centro do meu universo, as pessoas que me ensinaram o bem e o mal, como falhar, como amar e como pegar num prémio, como perder. [A]os meus pais ― estou tão grata a Deus por ter escolhido que vocês me trouxessem a este mundo. Às minhas irmãs, à minha irmã Dolores, nós éramos mulheres brancas ricas nas brincadeiras das festas de chá. Obrigada pela imaginação”, disse.

Viola relembra com especial alegria as peças de teatro que organizava com as irmãs e que foram a sua primeira aproximação ao mundo da representação, aos oito anos. A sua paixão e trabalho árduo pela representação mereceram-lhe uma bolsa na Young People’s School for the Performing Arts. Seguiu-se uma licenciatura em Teatro na Faculdade de Rhode Island, até chegar ao célebre conservatório Julliard.

Hoje, Viola Davis é uma atriz consolidada, uma das mais importantes e talentosas da sua geração. É alguém que luta contra o racismo, alguém que se faz ouvir pelo feminismo, mas, acima de tudo, alguém que continua a ultrapassar-se, no talento e na ambição, aos 55 anos.

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