Eunice Muñoz

Eunice Muñoz: a brilhante carreira de uma das maiores artistas portuguesas

A palavra representação é inegavelmente sinónimo de Eunice Muñoz. A artista, que completou 92 anos no mês passado (30), é uma das mais respeitadas profissionais da sua área. No teatro, cinema e televisão, Eunice deu vida a várias personagens nos mais diversos formatos. Uma carreira vasta e que inspirou muitos dos atores que vemos hoje no grande ecrã.

Os espectáculos em que Eunice entrou são mais que muitos. Ao longo dos anos fez parte de vários projetos. O início da carreira da artista foi no teatro aos 13 anos. Convidada pela também atriz e encenadora Amélia Rey Colaço, Eunice Muñoz interpretou o papel de Isabel na peça VendavalApós a sua estreia em 1941, a atriz continuou a ser recorrentemente requisitada. Ainda no mesmo ano participou em João Ratão e no ano seguinte assumiu o papel de Maria em Frei Luís de Sousa.

Depois de concluir o conservatório em 1945, o ator Vasco Santana (O Pátio das Cantigas) convida Eunice para entrar na peça Chuva de Filhos. No mesmo ano estreia-se no cinema com o filme Camões. O filme concorreu à primeira edição do Festival de Cannes e valeu a Eunice o prémio SNI (Secretariado Nacional da Informação), de Melhor Atriz Cinematográfica do Ano. Ao longo dos próximos anos, a artista continuaria a afirmar-se cada vez mais com o seu talento.

Uma distinguida atividade no teatro e cinema

Em 1949 continua a apostar no grande ecrã em filmes como a A Margadinha dos Canaviais e Ribatejo. Depois de uma pausa longe da representação, Eunice Muñoz volta em 1957 com a peça Noite de Reis, de William Shakespeare. A pausa na carreira deu-lhe as forças necessárias para a agenda cheia que se avizinhava. Entre 1963 e 1988 entrou em mais de dez peças de teatro. Nos anos 60, criou ainda a Companhia Portuguesa de Comediantes em conjunto com Raul Solnado. Teve ainda tempo para, nos anos 80, regressar ao cinema com participações em filmes como Manhã Submersa (1980), Repórter X (1987), Mata Saudades e Tempos Difíceis (1988).

De entre as muitas peças que fez destacam-se aquelas que lhe valeram prémios. Com Joana d’arc (1955) ganhou o prémio da crítica. Já com O Milagre de Ana Sullivan (1963) arrecada o prémio SNI. Com a peça Admirável Mentiroso (1964) e  Quatro Estações (1969) recebe o prémio da Imprensa. As Memórias de Sarah Bernhardt, de 1983, valeu-lhe duas distinções: o prémio Nova Gente e o Prémio Sete de Ouro, este último que lhe é também atribuído em 1984 com O Parque. O seu desempenho em Mãe Coragem e os seus Filhos (1986) valeu-lhe três prémios: o Prémio Nacional do Teatro, o Prémio Garret como Melhor Atriz, e mais um Sete de Ouro, também na categoria de melhor atriz. Já em 1988, foi premiada com  Zerlina, pelo já não existente Jornal Sete. Eunice Muñoz voltaria a encarnar o papel de protagonista em Zerlina em 1993, com João Perry como encenador.

Apesar de o público mais jovem estar mais familiarizado com os seus papéis em televisão, Eunice Muñoz nunca deixou para trás os palcos que a viram crescer. Ainda em 2011 entrou em duas produções teatrais: O Comboio da Madrugada e O Cerco a Lenigrado.

Eunice Muñoz jovem
Uma jovem Eunice Muñoz (Reprodução/DR)

Distinções para além da representação

Para além das distinções na área da representação, Eunice Muñoz foi em 1987 feita Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada. Em 1990, foi distinguida com a Medalha de Mérito pelo Ministério da Cultura. Já em 1991, é feita Grande Oficial da Ordem do Infante D.Henrique e, em 2010, foi elevada a Grande Oficial da Ordem de Santiago. Em 2011 e em 2018 foi novamente elevada a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e da Ordem de Mérito, respectivamente.

Uma artista para todas as gerações

Eunice Muñoz é uma das poucas atrizes de renome da sua época que está ainda entre nós. Se é mais conhecida para uma geração já longínqua de espectadores, não seria de todo estranho que Muñoz não conseguisse chegar até aos mais novos. Porém, o talento de Eunice Muñoz é transversal a qualquer época. O facto de ser de uma geração da velha guarda, que teve como mestres os melhores atores da história da representação portuguesa, faz dela quase que um mito vivo.

A sabedoria que foi colhendo ao longo dos seus 92 anos de vida permite-lhe continuar a renovar a sua energia enquanto atriz. Eunice consegue transmitir a estes novos fãs a dedicação, empatia, experiência e entrega que coloca em cada papel. E o que é genuíno sente-se.

Ao longo dos anos, Eunice tem feito parte do vasto rol de novelas da TVI. A artista fez a sua grande estreia em televisão, em 1993, na RTP com a novela Banqueira do Povo. Mas para muitas pessoas, a atriz tornou-se mais familiar quando, em 1999, entra na novela Todo o Tempo do Mundo. A partir daí, a artista continuou a marcar presença em várias novelas como Olhos de Água (2001), Mistura Fina (2004), Ilha dos Amores (2007), Equador (2009), Destinos Cruzados (2013) e A Impostora (2016). Todas estas novelas foram acompanhadas por diferentes gerações.

Para além disso, Eunice tem conseguido manter-se ativa e relevante num mundo que tantas vezes deixa cair em esquecimento tantos artistas. A cada uma destas gerações, Eunice dá uma atuação de excelência. São várias as faixas etárias que ao longo dos anos têm acompanhado e crescido com a atriz. Agora, aos 92 anos, continua a brilhar no pequeno ecrã, com a segunda temporada de Destinos Cruzados.A idade pesa, mas a sua paixão pela profissão é o seu elixir. Quem conhece tem gosto em acompanhar o seu percurso e quem ainda não a conhece fica rendido ao seu talento. Uma artista que se destaca pela genuinidade.

Uma inspiração para os colegas

Não é segredo que Eunice Muñoz é inspiração e referência para muitos dos seus colegas artistas. Em 2018, aquando dos 90 anos da atriz Herman José partilhou que a artista é “uma mistura explosiva entre talento, capacidade de trabalho, alegria de viver e bondade em estado puro”.

Diogo Infante, com quem a atriz contracenou em Banqueira do Povo, teve vários agradecimentos a tecer à atriz: “Obrigado enquanto espectador e público, por tudo o que pude testemunhar. Obrigado enquanto colega, por tudo o que me ensinou e proporcionou, em generosidade e partilha. E obrigado enquanto pessoa, por ser alguém que está comigo sempre.” O ator reforçou ainda que “preciso aproveitar todos os momentos em que é possível estar com a Eunice. Ela é um monumento nacional, e como todos os monumentos nacionais, tem de ser preservado e estimado”.

Em 2019, quando a atriz compeltou 91 anos, Diogo Infante voltou a prestar homeagem àquela que diz ser a sua atriz favorita: “A generosidade, a intuição, o sentir, o estar, o ser, tudo lições que guardo para a vida. Obrigado, Eunice. Parabéns, Eunice.”

Para Ruy de Carvalho, amigo de longa data da atriz, poder testemunhar os aniversários da amiga é também uma caminhada que “representa mais de 70 anos de amizade.” O apresentador Júlio Isidro também já teceu várias palavras doces a Eunice. Essa coisa do calendário, da biologia e das leis da natureza, rendem-se perante a vida vivida e a que continuará a viver esta enorme atriz, mulher, mãe e cidadã de um país que nem sabe como lhe agradecer o facto de ter nascido aqui”, disse o apresentador em 2018 numa publicação no Facebook. Nessa mesma publicação partilhou ainda: “Ai se eu fosse escritor daqueles dos bons, que frases bonitas e profundas escreveria sobre Eunice. Ai se eu fosse poeta em quantos versos seria ela a minha musa inspiradora. Na arte de representar, Eunice é a verdadeira generosidade, dando tudo de si como se não tivesse custado nada”. 

A atriz Sara Barradas já expressou também a honra de conhecer Eunice Muñoz: “poder privar com ela, falar e, acima de tudo, ouvir as suas histórias, constatando a sua simplicidade, humildade, e interesse genuíno nos outros, é maravilhoso. Aliando isto à sua boa disposição… São memórias que ficam para sempre. Obrigada.

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