Foto: Wikicommons (Domínio Público)

Hiroshima e Nagasaki: 75 anos depois do “inferno na Terra”

Morreram cerca de 200 mil pessoas na sequência dos bombardeamentos americanos

Foi há 75 anos, no dia 6 de agosto de 1945, que os Estados Unidos fizeram rebentar a primeira bomba atómica do mundo em Hiroshima, no Japão. A cidade, que tinha 350 mil habitantes, ficou completamente devastada. Milhares faleceram instantaneamente e, uma hora depois da explosão, tinham morrido 80 mil pessoas. 

O cenário de horror e sofrimento não ficaram por ali. Tinham passado apenas três dias quando as tropas americanas decidiram largar outra bomba, desta vez na cidade de Nagasaki. Ao todo, se olharmos para o conjunto dos dois acontecimentos, morreram mais de 200 mil pessoas por causa das bombas até aos dias de hoje.

O facto de as infraestruturas das duas cidades terem quase literalmente desaparecido do mapa faz com que o número exacto de mortos não tenha sido possível confirmar. O que se estima é que tenham morrido entre 70 mil a 135 mil pessoas em Hiroshima e 60 mil a 80 mil pessoas em Nagasaki, tanto devido à exposição às explosões, como pelos efeitos colaterais da radiação a longo prazo.

Se quiseres aprender mais sobre os dois acontecimentos, recorda os 5 documentários que o Espalha-Factos reuniu sobre o tema. Avisamos que alguns dos testemunhos citados neste artigo podem conter linguagem ou informações suscetíveis de ferir a sensibilidade dos leitores.

As histórias dos que ficaram

Os sobreviventes dos ataques continuaram a adoecer meses e anos depois devido à radiação que se propagou após as explosões e que se revelou mortal, tanto a curto como a longo prazo. Sintomas como vómitos, dores de cabeça, náuseas, diarreia e perda de cabelo começaram a aparecer junto dos que estavam vivos. Para grande parte dos afetados, a doença tornou-se fatal num espaço de semanas ou meses. A longo prazo, os casos de cancro e leucemia começaram a aumentar.

“Apesar de ter acontecido de manhã, o céu ficou muito escuro, escuro como o crepúsculo, e eu comecei a ver um conjunto de objectos negros a chegarem-se a mim. Era, na realidade, um grupo de humanos a fugir do centro da cidade para o local onde eu estava. Eles não pareciam seres humanos. (…) Estavam queimados, inchados, a sangrar. Partes do corpo estavam desaparecidas. A pele e a carne desprendidas dos ossos. Alguns deles estavam a segurar os seus próprios olhos sabes, pendurados na órbita do olho.”

O testemunho citado é de Setsuko Thurlow, uma sobrevivente da explosão de Hiroshima. No seu relato, dado ao Arms Control, referiu que está viva “por milagre”.  As suas palavras, tal como a de muitos outros sobreviventes, devem ser lembradas, para que nunca nos esqueçamos que o ser humano é capaz de cometer as piores atrocidades possíveis.

Destruição em Nagasaki. Imagem: Domínio Público.

Setsuko tinha 13 anos na altura. É impossível imaginar o que terá sentido uma rapariga tão jovem que viveu e assistiu a todo aquele massacre ao seu redor. Conta ainda que teve de passar por cima de corpos mortos e feridos para poder fugir. “Ninguém estava a correr nem a gritar por ajuda. Já ninguém tinha esse tipo de força guardado dentro de si”.

A sobrevivente, agora com 84 anos, fez também questão de expor os danos psicológicos que os eventos de Hiroshima lhe provocaram. Estes apareceram, na sua maioria, após ter assistido ao “funeral” da sua irmã e do sobrinho de quatro anos, que tinham voltado à cidade na noite anterior, em visita. Setsuko viu-os, depois da bomba ter explodido, em busca de ajuda médica, e estavam ambos “queimados para lá de conseguirem ser reconhecidos”. Os corpos estavam “duas ou três vezes” mais inchados que o normal, e quando morreram, os soldados limitaram-se a escavar um buraco e a atirar os restos mortais para lá, pegando em gasolina e incendiando-os. “Com uma vara de bambo, viravam o corpos. Ali estava eu, uma rapariga de 13 anos, a ver aquilo, sem qualquer tipo de emoção”. O testemunho é brutal, mas importante. “Essa memória tem-me perseguido durante muitos anos. Que tipo de ser humano sou eu? A minha querida irmã a ser tratada como um animal ou um insecto”, lamenta Thurlow.

E o que dizer das crianças inocentes que perderam a vida à conta de um conflito militar, sem perceberem o que se estava a passar à sua volta? Quantos relatos de crianças de quatro anos mortas em Hiroshima é que existem? É mais uma nódoa que marca a Segunda Guerra Mundial, por muitos visto como o evento mais horrendo de toda a história da humanidade.

Chifusa Wakiwaga, outra sobrevivente, trabalhava numa fábrica na altura da explosão, e contou à Veja que fica quase paralisada sempre que o dia 9 de agosto se aproxima. Nas suas palavras, a explosão de Nagasaki foi muito rápida, e assim que conseguiu abrir os olhos, só via escombros e mortos à sua volta, num cenário “aterrorizante”. Enquanto fugia para casa, pôde ver corpos carbonizados, pessoas feridas a sangrar abundantemente e outras queimadas, junto ao rio, a beber água. “Nunca se apagou da minha memória o momento em que vi uma mãe a segurar firmemente um bebé já sem cabeça. Ela implorava por água como se ainda não tivesse caído em si. Eu vi – não há outra forma de o descrever – o inferno na Terra.”, relatou Chifusa.

A magnitude da tragédia

Setsuko referiu que, após a explosão da bomba em Hiroshima, parecia que estava de noite. Isto deve-se ao facto de se ter formado uma nuvem em formato de cogumelo no céu, carregada de fumo – que comummente associamos com bombas atómicas, hoje em dia. Depois do ataque, a cidade ficou sem luz pois a camada de fumo era tão espessa que impedia a passagem dos raios solares.

Para além da tragédia nuclear, vários foram os incêndios que começaram a consumir as poucas casas – muitas de madeira – que tinham ficado incólumes, e que acabaram por matar alguns daqueles que tinham sobrevivido ao impacto inicial. Estima-se que o calor e a radiação tenham carbonizado tudo e todos os que se encontravam num raio de dois quilómetros da bomba. O fogo consumiu também o pouco oxigénio disponível, aumentando ainda mais o número de mortos, causando asfixia.

Tsutomu Yamaguchi, engenheiro japonês, tem uma história de vida impressionante, ao ter sobrevivido aos dois ataques e tendo estado muito perto das duas bombas. A 6 de agosto ficou com a cara e os antebraços gravemente queimados e com os tímpanos rebentados,mas a explosão em Nagasaki deixou marcas a longo prazo. O sobrevivente contou ao History que a dose dupla de exposição à radiação fez com que o cabelo começasse a cair, e vomitava sem parar. “Estava severamente doente com febre, quase não comia, não conseguia beber. Pensava que ia passar para o outro lado.”

Mas esta é uma história positiva, e que também merece ser contada. Yamaguchi, por exemplo, e ao contrário de muitas outras vitimas de exposição à radiação, começou lentamente a recuperar, tendo vivido uma vida relativamente normal. Arranjou na poesia uma forma de lidar com os traumas que carregava após os eventos trágicos de Hiroshima e Nagasaki, mas só a partir dos anos 2000 é que aceitou falar publicamente da sua experiência, quando lançou um livro de memórias e passou a integrar o movimento anti-armas nucleares. Viajou para Nova Iorque, em 2006, para falar sobre o desarmamento nuclear perante as Nações Unidas, onde disse que “Ao ter sobrevivido a duas explosões nucleares, o meu destino é falar sobre isso”.

Tsutomu não foi o único a sobreviver aos dois ataques. Akira Iwanaga e Kuniyoshi Sato, dois colegas seus, também conseguiram o mesmo milagre. Segundo estatísticas, perto de 165 pessoas terão estado presentes nas duas explosões, mas Yamaguchi foi o único a receber uma distinção oficial do governo japonês, que o apelidou de “pessoa bombardeada duas vezes.”

Para além dos estragos materiais que os sobreviventes tiveram que enfrentar após os bombardeamentos, tendo visto as suas casas e locais de trabalho completamente destruídos, passaram também a ser estigmatizados socialmente. Começaram a ser criadas barreiras no acesso e à manutenção de empregos, por terem ficado com cicatrizes devastadoras, mas também devido à sua saúde precária.

Antes e depois do ataque da bomba atómica em Nagasaki. Imagem: Wikicommons (Domínio Público)

Muitos deles não puderam casar porque, estatisticamente, se mostrou que filhos de sobreviventes apresentavam taxas mais altas de probabilidade de nascerem com deficiências ou de desenvolverem outro tipo de doenças. Na realidade, as consequências da radiação quase não se conseguem prever, sendo que algumas pessoas morreram imediatamente, outras semanas depois, ou só passado um ano.

Surpreendentemente, 75 anos depois, ainda há quem morra devido à exposição à radiação. Os hospitais japoneses da Red Cross Society (RCS) continuam a tratar os efeitos na saúde a longo prazo de centenas de sobreviventes, sendo que quase dois terços das mortes ocorrem devido ao aparecimento de cancro – mais especificamente, 63% dos sobreviventes que eram pacientes da RCS faleceram em consequência de tumores, dos quais 20% faleceram de cancro nos pulmões, 18% no estômago, 14% no fígado, 8% perderam a vida para a leucemia, 7% para cancro nos intestinos e, por último, 6% das pessoas morreram devido a um linfoma maligno.

“Mesmo depois de várias décadas terem passado, continuamos a ver o impacto catastrófico que o uso de armas nucleares teve na saúde das populações destas duas cidades,” descreveu Peter Maurer, presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha, numa entrevista.

Ainda estão vivos perto de 200 mil sobreviventes, e esperam-se que centenas deles continuem a ter de pedir cuidados médicos por doenças relacionadas com a radiação a que foram expostos. Mas para lá dos problemas físicos, há ainda o impacto psicológico dos bombardeamentos que continua a atormentar os sobreviventes. A continuada incidência da leucemia e de outros tipos de cancro, e as preocupações persistentes sobre potenciais danos genéticos que possam aparecer em filhos de pais que sobreviveram às radiações, faz com que todos os aniversários da tragédia de Hiroshima e Nagasaki estejam ainda envoltos em medo, dor e ansiedade.

A luta pelo desarmamento nuclear

Apesar dos horrores vividos em Hiroshima e Nagasaki, a luta pelo desarmamento nuclear tem vindo a cair no esquecimento face ao destaque que outras lutas têm assumido. James Baldwin, autor e uma das figuras mais proeminentes do movimento pelos direitos civis nos EUA nos anos 1960, tentou chamar a atenção para este problema em 1961, num discurso em Washington, DC.

Baldwin referiu que existe uma relação na luta pelos direitos civis e pela paz mundial, pondo-as em pé de igualdade. “É difícil para americanos brancos pensarem na paz quando ela não tem cor” disse, na altura. Para ele, ambos os problemas apresentam a mesma génese porque “o ódio racial e a bomba atómica ameaçam ambos destruir o homem criado por Deus.”

Se é certo que as armas nucleares não foram mais usadas em ataques militares desde 1945, a verdade é que estas continuaram a deixar um rasto de destruição e devastação que perdura. As consequências da manutenção de armas nucleares são conhecidas por todos, mas continuam a existir. Testes nucleares na atmosfera que fazem aumentar os casos de cancro, propagação de resíduos tóxicos e a consequente contaminação ambiental, trabalhadores e residentes expostos à radiação e a produtos químicos perigosos, provenientes da produção de plantas nucleares. Com incrível frequência, as comunidades indígenas, sem qualquer tipo de poder nas mãos, tiveram que ser recolocadas ou viram a sua saúde deteriorar-se devido a armas e plantas nucleares.

Hoje em dia, estima-se que existem cerca de 13 mil armas nucleares no mundo inteiro. Numa fase em que se receia uma nova corrida a este tipo de armamento, há que tentar mudar o progresso da história, sabendo que esta é, muitas das vezes, assustadoramente cíclica. É por isso importante olhar para os testemunhos de quem viveu os horrores provocados pela bomba atómica na primeira pessoa. Não se pode esquecer Tsutomu Yamaguchi, Chifusa Wakiwaga, Setsuko Thurlow, e os tantos outros que perderam a vida em Hiroshima e Nagasaki.

Relembremos o que dizem os Hibakusha (expressão japonesa que se refere às vítimas das bombas atómicas largadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945), a sua luta humanitária, ao longo dos últimos anos, para que as atrocidades do passado não desapareçam da nossa memória. Lembremos as crianças cujo futuro foi interrompido por uma guerra que não compreendiam, as vidas inexplicavelmente perdidas e as gerações profundamente afetadas, física e psicologicamente.

É também importante que a nova geração, que já não assistiu aos ataques atómicos às cidades japonesas, mantenha esta memória viva, que olhe para os horrores causados e que se esforce para garantir que nunca se assista a outra tragédia como a de Hiroshima e Nagasaki, mesmo quando os governos mais poderosos do mundo são incapazes de assumir a liderança na luta por um mundo mais pacífico e sem armas nucleares.

Espera-se que a memória dos que sobreviveram, e daqueles que se perderam, sirva como um sinal de alerta. Mas é importante que se mantenha também a esperança: após os ataques, ambas as cidades conseguiram reconstruir-se e são, agora, um símbolo da resiliência da Humanidade, da capacidade humana de se reerguer e reconstruir um mundo e um futuro que não repita os erros do passado.

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