TikTok
Foto: Unsplash

Donald Trump e a novela TikTok. O que está em causa?

A Microsoft posiciona-se agora na linha da frente para comprar a rede social.

Donald Trump confirmou que ia tentar banir o TikTok nos Estados Unidos, o mais depressa possível, num anúncio feito esta sexta-feira (31). A rede social mais popular dos últimos tempos, criada na China, é vista pelo presidente norte-americano como uma ameaça à segurança nacional do país. Porém, parece haver uma solução: a Microsoft pode “salvar” o TikTok.

“No que toca ao assunto em volta do TikTok, vamos bani-lo dos Estados Unidos”, disse Trump na semana passada, falando aos jornalistas, a bordo do avião Air Force One. A NBC News relatava que, apesar dos planos da Microsoft para adquirir a propriedade sobre a rede social, comprando-a à Byte Dance, Trump iria, alegadamente, opor-se à realização deste negócio. No entanto, isto acabou por não se confirmar.

“Eu tenho essa autoridade,” detalhava o Presidente dos Estados Unidos, ainda nessa sexta-feira (31), salientando que tinha poderes para avançar com a decisão.

A empresa por detrás do TikTok manteve a garantia de que nunca providenciou dados pessoais dos usuários às autoridades chinesas, e nem o fará, mesmo que o governo chinês assim o exija. Mas Trump não se deixou convencer. Para que o TikTok continue a operar no mercado norte-americano, Trump permite que seja comprada por uma empresa americana, e o prazo em cima da mesa é até 15 de setembro.

A Microsoft pode salvar o TikTok?

A Reuters noticiava, no sábado (1), que a ByteDance, a dona do TikTok, tinha concordado em vender a divisão americana da aplicação à Microsoft, de forma a prevenir que fosse banida, ficando a Microsoft encarregue de proteger os dados pessoais dos utilizadores americanos. O plano, indo oficialmente para a frente, vai permitir que a empresa norte-americana tome controlo do TikTok dentro do país.

Esta mudança de propriedade sobre o TikTok é crucial para a sobrevivência da aplicação nos Estados Unidos.

A entrada da Microsoft nas negociações para adquirir o TikTok foi reportada pelo The New York Times na mesma semana em que Trump fez as declarações polémicas. Apesar desta intenção, Trump disse estar a preparar medidas para, de forma efectiva, proibir a utilização da aplicação no território norte-americano.

Para além dessa hipótese, existia a possibilidade de Trump querer ordenar que a ByteDance se desfizesse dos ativos que adquiriu nos Estados Unidos, em 2017, posteriormente inseridos no TikTok. Por outras palavras, a ByteDance estaria obrigada, por decreto, a vender as operações do TikTok nos EUA. O presidente reafirmou, porém, a vontade de ordenar o banimento do TikTok até este domingo (2).

Mas, num súbito volte-face, a Microsoft anunciou, nesse mesmo domingo (2), que está preparada para continuar as negociações em torno da compra do TikTok no Estados Unidos”, depois de Satya Nadella, a CEO da Microsoft, ter discutido o assunto com Trump. O presidente acabou por dar luz verde para que as conversações entre a Microsoft e o TikTok possam continuar, após terem sido brevemente congeladas devido às afirmações do presidente.

Microsoft comunicou que as suas intenções em adquirir a aplicação incluem fazer “uma revisão completa da sua política de segurança, e providenciar benefícios económicos para os Estados Unidos”. Além disso, assegura que irá proteger os dados dos utilizadores norte-americanos e garantir que permanecem em servidores no país e não na China.

O texto publicado no blog da empresa acrescenta ainda que a Microsoft espera concluir as negociações com a ByteDance até 15 de setembro. O seu objetivo é comprar o serviço e controlar a operação da TikTok nos mercados dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Se a Microsoft não comprar o TikTok, Trump vai banir a aplicação

Donald Trump deu o aval oficial para a Microsoft prosseguir com a aquisição do Tik Tok, no seu primeiro comentário público em torno do assunto depois de ter ameaçado banir a popular aplicação chinesa, de forma integral, do território norte-americano.

Donald Trump afirma que vai banir a TikTok em conferência de imprensa
(Reprodução/DR)

Foi a partir da Casa Branca que, esta segunda-feira (3), o presidente deu mais detalhes sobre a operação comercial levada a cabo pela Microsoft. Trump avançou que o TikTok vai ser mesmo banido do país, a 15 de setembro, se a Microsoft, ou qualquer outra empresa, desistir de avançar para a compra da aplicação.

Acrescentou ainda que o governo norte-americano devia receber uma parcela monetária da futura transação “porque estamos a possibilitar que o acordo aconteça.” A Variety, ao relatar a novidade, colocou a hipótese de que o anterior posicionamento de Trump, firme em querer banir o TikTok, tenha sido apenas uma forma de pressionar a ByteDance a vender a aplicação a uma empresa americana.

Trump sugeriu ainda que a Microsoft comprasse a totalidade das operações do TikTok, ao invés dos 30% representados pelos mercados dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. “O nome do TikTok está quente, a marca está quente,” disse Trump. “E quem é que vai ficar com o nome? Como é que farás essa divisão se o TikTok for controlado por duas empresas? Na minha opinião pessoal, seria muito mais fácil comprar o TikTok inteiro, ao invés dos 30%.”

Os problemas que a Microsoft terá em mãos após a compra

A questão do nome é apenas um dos tópicos a resolver se a Microsoft comprar apenas uma percentagem do serviço à ByteDance. Ao adquirir apenas os 30%, correspondentes às operações dos países em que quer controlar o TikTok, terá de haver uma separação das infraestruturas de software da aplicação, incluindo os algoritmos de inteligência artificial que alimentam o feed do TikTok.

Esta divisão iria ter de ser articulada com a Douyin, a aplicação chinesa da ByteDance equivalente ao TikTok. Os mecanismos de recomendação de vídeos que nos são apresentados tanto no TikTok como na Douyin partilham parte do mesmo código por detrás do “feed de vídeo viciante”, segundo o Wall Street Journal.

As mais recentes incursões da Microsoft nos mercados voltados para o consumidor têm sido “instáveis na melhor das hipóteses”, referiu um analista da LightShed, em análise ao negócio. A Microsoft adquiriu, nos últimos tempos, a propriedade sobre o Skype, o Mixer — serviço de streaming de jogos que foi cancelado este verão — o Linkedin e até o jogo Minecraft, mas todas estas aquisições “não evoluíram da maneira que poderiam evoluir se fossem propriedades de outra empresa.”

A reação da internet à novela TikTok

Este último fim-de-semana foi um verdadeiro caos para o TikTok, depois de Trump ter anunciado, na sexta-feira, que estava a pensar em banir a rede social nos Estados Unidos.

O anúncio surpresa levou os ditos influencers do TikTok a entrarem em livestreams marcadas por lágrimas e despedidas (um tanto prematuras), agradecendo aos fãs que os acompanhavam nesta rede social, e a pedir que estes os passassem a seguir em outras apps, como o Instagram, o Youtube ou o Triller. As agências que representam alguns dos criadores de TikToks passaram o fim-de-semana a descarregar arquivos de publicações, para a posteridade.

Alguns utilizadores, numa última tentativa de ficarem virais, voltaram a publicar TikToks que tinham sido, nas suas palavras, previamente removidos da aplicação por violarem regras quanto a nudez ou palavrões.

A verdade é que o TikTok, apesar de ter ficado conhecido pelos seus vídeos de dança e sketches de comédia, trouxe duas coisas importantes: por um lado, tornou-se numa poderosa arma da indústria do entretenimento, e a plataforma primária para os funcionários executivos da indústria da música e respectivos agentes caçarem o próximo nome sonante do panorama musical.

Banir o TikTok para silenciar campanhas políticas?

Com a especial aproximação das eleições, a app tem sido um grande centro de informação e organização para os activistas da chamada nova Geração Z. Se a relação dos Estados Unidos com a aplicação tem sido frágil, com vários oficiais da administração Trump a partilhar os seus medos a envolver a sua contínua utilização, a visão partilhada pelos jovens face ao TikTok contrasta bastante com a posição do governo americano.

A nova geração vê na plataforma uma ajuda crucial na difusão de informação e educação em assuntos importantes como as alterações climáticas, o racismo sistémico ou o movimento Black Lives Matter.

A possibilidade de se banir a aplicação levou a que o discurso desta faixa etária se tenha politizado ainda mais, com muitos a acreditarem que o desejo de Trump é uma resposta direta à campanha que os jovens têm feito contra si, em tempos pré-eleitorais.

“O TikTok é para o Black Lives Matter o que o Twitter foi para a Primavera Árabe,” disse Kareem Rahma, uma criadora de TikToks com perto de 400 mil seguidores na aplicação. Os TikToks feitos por Kareem, a partir dos protestos em Minneapolis, na defesa do movimento Black Lives Matter, geraram dezenas de milhões de visualizações.

“Vi uma grande quantidade de jovens na rua a fazerem TikToks dos protestos, ao invés de fazerem livestreams, tweets ou directos no Instagram. As conversas que estes miúdos têm uns com os outros são essenciais.”, explicou Kareem, aludindo à importância que o TikTok tem na educação cultural dos mais jovens.

Os adeptos do TikTok também têm coordenado campanhas para avaliarem negativamente os negócios de Donald Trump no Google e para enviarem spam a inquéritos online originalmente destinados a apoiantes de Trump, enchendo-os com informações inúteis. O grupo também provocou estragos na campanha eleitoral de Trump à presidência norte-americana, ao acederem à loja de comércio electrónico da sua campanha, e colocando no cesto de compra objectos que não tencionam adquirir.

Ellie Zeiler, de 16 anos, que conta com cerca de 6.3 milhões de seguidores no TikTok, confessou que vê na ameaça de Trump em banir o TikTok um motivo para ainda mais jovens votarem contra ele nas eleições. “Acho que havia muita gente que antes não gostava de Trump, e todo este assunto levou a que as pessoas gostassem ainda menos dele”, disse.

“Para muitos miúdos, a politica parece ser um assunto distante,” disse Eitan Bernath, de 18 anos, jovem que conta com 1.2 milhões de seguidores no TikTok. “Esta pode ser a primeira vez que a política chega a casa de muitos miúdos.”

Neste domingo (2), nove criadores do TikTok, que somam no total, 54 milhões de seguidores entre si, incluindo nomes como Brittany Broski, Hope Schwing e Mitchell Crawford, publicaram uma carta aberta, tendo Trump como destinatário, no Medium.

“O TikTok tem proporcionado o tipo de interações que nunca aconteceriam em redes como o Facebook ou no Instagram”, pode ler-se na carta. “A nossa geração cresceu na internet, mas a nossa visão da internet vai requerer muito mais que duas aplicações. Por que não usar esta oportunidade para equilibrar a competição?”, questionaram-se.

A emergência de outras plataformas

Com o potencial fim do TikTok nos Estados Unidos, e a instabilidade em torno de uma súbita venda da aplicação, há cada vez mais utilizadores a virarem-se para plataformas mais pequenas, mas com características semelhantes.

Clash, uma nova aplicação de vídeos curtos, criada por Brendon McNerney, antiga estrela do Vine, ficou disponível na noite de sexta-feira, depois de todas estas novidades, e no sábado já figurava nos lugares cimeiros do ranking das aplicações mais descarregadas.

Byte e Dubsmash, duas outras aplicações de vídeos de pequena duração, também viram a luz do dia, começando agora a recrutar estrelas do TikTok. Na quinta-feira, Triller, uma aplicação com funções semelhantes ao TikTok, contratou Josh Richards, de 18 anos, um dos jovens mais conhecidos desta aplicação, para o cargo de diretor de estratégia do serviço. Para investidores, recrutou tanto Richards, como outras estrelas maiores do TikTok, como Griffin Johnson de 21 anos e Noah Beck, de 19.

O Instagram, aproveitando também as consequências negativas que tudo isto acarreta para a aplicação chinesa, está a oferecer centenas de milhares de euros a criadores de TikToks, de modo a produzirem conteúdo para a sua nova aplicação, Reels, também ela bastante similar ao TikTok, segundo o The Wall Street Journal.

Perez Hilton, antigo cronista de notícias de celebridades, que acumulou perto de 850 mil seguidores no TikTok, diz que espera que esta ameaça em torno da rede social sirva de aviso para os jovens talentos que a utilizam. “Estes influencers do TikTok não podem acumular todos os seus ovos num único cesto,” disse. “Tens de estar em todo o lado, se quiseres ser famoso”, avisou.

O poder do TikTok

Em 2020, o TikTok anunciou que contratou “perto de mil pessoas” em território norte-americano. A aplicação tem ganho uma enorme popularidade, particularmente entre adolescentes e jovens adultos, que criam e partilham vídeos musicais com lip-sync e outros clips de curta duração. Recorde-se que a ByteDance, empresa chinesa criadora e detentora do TikTok, comprou, em 2017, a aplicação Musical.ly, que precedeu esta nova aplicação.

O TikTok tem sido alvo de contínuas investigações por parte dos Estados Unidos.
Hayoung Jeon/EPA

O TikTok é usado por mais de 800 milhões de pessoas em todo o mundo. A rede social, conquistou, em termos estatísticos, grande popularidade nos EUA e em outros países ocidentais, tornando-se mesmo a primeira rede social chinesa a ganhar dimensão significativa  junto dos utilizadores fora do seu país de origem.

Terão sido realizados 315 milhões de downloads nos primeiros três meses deste ano, mais do que qualquer outra aplicação, de acordo com a empresa de análise Sensor Tower, citada pela CNN.

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