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(Netflix.)

Crítica. ‘Kimmy vs the Reverend’: altruísta e, só depois, feliz

A Netflix Portugal disponibilizou o último momento da história de Kimmy Schmidt: um episódio interativo especial que nos deixa escolher o percurso conturbado até ao seu casamento de princesa.

Desde maio que nos prometem o filme interativo que segue Unbreakable Kimmy Schmidt, a série escrita por Tina Fey e Robert Carlock, e que coloca a mole woman em confronto com o homem que fez com que os media lhe atribuíssem esse nome, o Reverendo. Tivemos finalmente acesso ao especial nesta quarta-feira (5).

ATENÇÃO! Este artigo contém spoilers.

No ar desde 2015, a série Unbreakable Kimmy Schmidt deu-nos quatro temporadas de Ellen Kemper no papel de uma mulher que viveu a sua adolescência presa num bunker com outras três mulheres, todas elas crendo que o mundo teria desaparecido num apocalipse.

O responsável por convencer as mulheres de que a realidade que conheciam deixara de existir foi um homem dado pelo nome de Reverendo, embora o seu outro nome seja bastante mais carismático (Richard Wayne Gary Wayne), que liderou o culto durante 15 anos… Até ao momento em que as mulheres foram encontradas e devolvidas ao mundo real, que, afinal, continuava a existir.

De uma pequena cidade no estado de Indiana para a Big Apple, Kimmy Schmidt decide recomeçar a sua vida caricata, tendo uma adolescência inteira por viver enquanto se tenta estabelecer como uma adulta responsável numa das maiores cidades do mundo. É lá que conhece aqueles que a acompanharão durante todas as quatro temporadas da série: Titus (Tituss Burguess), um ator preguiçoso e egocêntrico, Lilian (Carol Kane), uma hippie inconformada com a gentrificação dos subúrbios da cidade, e Jacqueline (Jane Krakowski), uma recém-divorciada da elite nova-iorquina com um passado completamente oposto a esconder.

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Kimmy e Titus em busca pelo Reverendo. (Netflix)

Unbreakable Kimmy Schmidt conta-nos as aventuras de Kimmy na sua descoberta por tudo o que perdeu nos 15 anos anteriores, vivendo os seus primeiros romances, fazendo os seus primeiros amigos na idade adulta (todos eles bastante peculiares), trabalhando pela primeira vez para se sustentar… e até visitando uma psicóloga (protagonizada pela própria Tina Fey), apesar de ter acabado por ser Kimmy a tentar concertar a mesma. (Uma das muitas provas da bondade e ingenuidade de Kimmy.)

A série terminou em janeiro de 2019, com um final aberto. Confessa-se aqui uma confusão inicial aquando do último episódio; pensei estar a ver o antepenúltimo, ou algo do género. Mas, ao que parece, o episódio final ainda estaria por vir, num formato diferente e mais longo, para concluir efetivamente a história de Kimmy.

O sonho de princesa de Kimmy

Após termos visto Kimmy Schmidt experimentar o mundo do romance logo nos primeiros dias em Nova Iorque, em Kimmy vs The Reverend ficamos a conhecer o seu noivo, Frederick, um príncipe interpretado pelo (também príncipe ficcional) Daniel Radcliffe.

Segundo o relato do pretendente, os dois conheceram-se através do livro infantil que Kimmy foi construindo durante a série, The Legends of Greemulax, projeto que começou com a preguiça inevitável do seu amigo Titus (que, já agora, está à venda na Amazon).

Daniel Radcliffe é Frederick em unbreakable kimmy schmidt
Kimmy e Frederick. (Netflix)

O príncipe britânico que estudou só e apenas com o Kim Jong Un — motivo que causou várias piadas durante o episódio —, que nunca trabalhou e que nunca teve uma namorada (a única mulher com que contactou mais de um hora durante a vida foi a sua ama, curiosamente parecida fisicamente com Lilian) é perfeito para a nossa inocente Kimmy, e configura a cereja no topo do bolo para garantir-lhe, finalmente, um final feliz.

Mas, se assim fosse, o episódio tinha 10 minutos. Não é uma suposição, é o que efetivamente poderia acontecer, bastando-nos optar por tal na decisão do seu destino. Isso seria ignorar a descoberta de um livro no fundo de Jan (a mochila falante), indo contra a nossa própria curiosidade, se Kimmy não fosse um motivo suficientemente forte para mudar a nossa escolha. Esse livro ditaria a descoberta de outras raparigas colocadas em perigo pela personagem interpretada por Jon Hamm.

Jon Hamm em Unbreakable Kimmy Schmidt
A visita de Kimmy ao Reverendo, que está preso há cinco anos desde que as mulheres foram libertadas do bunker. Esta visita motiva toda a aventura vivida por Kimmy no episódio. (Netflix)

Poder escolher o destino de Kimmy e dos amigos

Para o espectador da Netflix, ou para o connoisseur de séries, especialmente em plataformas de streaming, ver anunciado um episódio interativo para um sitcom como Unbreakable Kimmy Schmidt é uma surpresa.

A primeira e última vez que vimos um episódio interativo estrear, o género era totalmente diferente: nomeadamente, o episódio Bandersnatch de Black Mirror. O formato interativo, que nos deixa tomar decisões em relação à vida (ficcional) das personagens de um certo enredo, parece até típico da série que retrata os perigos e as controvérsias da tecnologia.

Mas a série pseudo-biográfica de Kimmy Schmidt não tem nada de assustador e não aparenta decisões tomadas que possam colocar em nossa frente cenários que não sejam previsíveis. Ainda assim, o mundo peculiar da ruiva conseguiu incorporar vários cenários cómicos e manteve-se fiel ao produzido nas temporadas anteriores.

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Certa combinação de escolhas levará a este destino para Kimmy e Titus. (Netflix)

A maré de escolhas importantes neste especial de Unbreakable Kimmy Schmidt pode alterar a duração do episódio, desde cinco a 80 minutos. Mas garantir o final feliz de Kimmy logo nos primeiros 10 minutos não é propriamente entusiasmante e, por isso, fazer as personagens sofrer acaba por ser o que o espectador quer.

A agonia de Titus é logo a primeira, quando nos dão a escolher entre dar-lhe uma sesta ou exercício no ginásio. E culmina com a agonia de Kimmy quando se vê perante um Reverendo desarmado e pode optar entre matá-lo ou poupá-lo. Embora possamos querer ser mauzinhos com Titus, com a última escolha importante de Kimmy a situação não é a mesma.

Independentemente da nossa vontade de dar um tiro nos miolos do Richard Wayne Gary Wayne, Kimmy nunca faria isso. O espectador pode brincar como quiser com as opções, mas a opção que nos deixa de coração tranquilo é aquela em que optamos por que Kimmy siga o seu coração, através desta querida coisa chamada empatia.

Por fim, as decisões confusas da Netflix Portugal

O especial de Kimmy Schmidt foi aguardado pelos fãs desde o momento em que foi anunciado. Inicialmente, todos esperavam ter acesso ao momento interativo, apenas possível na plataforma da Netflix, a partir de maio. Mas isso não foi o que aconteceu na Península Ibérica e no Brasil, por exemplo.

Em Espanha, Portugal e no Brasil, a estreia da série foi adiada por não haver, ainda, a dobragem disponível nas línguas em questão: espanhol europeu, no caso de Espanha, e português do Brasil, no caso dos dois países lusófonos. A decisão de adiar a estreia foi a proteção da saúde dos atores de voz, como explicou a Netflix na altura, tendo em conta a pandemia vivida atualmente.

Esta decisão foi bastante controversa. Apesar de se compreender que no Brasil, especialmente, e talvez também em Espanha, exista um largo público que depende da dobragem (por gosto ou por uma espécie de tradição no país), considera-se um pouco estranho decidir adiar toda a estreia do episódio nos países em questão.

Presume-se que as legendas já estivessem disponíveis nessas línguas, que normalmente, neste tipo de conteúdo, até são a preferência do público. Em Portugal, e até comprovado pelo facto de não existir uma dobragem em português europeu na maioria das séries ou filmes disponibilizados no catálogo da Netflix (sem contar com animação), esta decisão de excluir Portugal da estreia em maio não parece coerente.

Os fãs dos países que não são anglo-saxónicos viram-se, então, com três meses a mais de espera pelo episódio, sujeitando-se aos inevitáveis spoilers nas redes sociais (passadas cerca de duas semanas, já ninguém tem cuidado com isso, como podemos averiguar se passarmos algum tempo no Twitter). Além disso — isto não está cientificamente comprovado —, esta longa espera poderá ter levado muitos fãs a desistir do especial, esquecendo-se eventualmente que ele chegaria, um dia, à plataforma de streaming.

Portanto, uma perda para a Netflix e para Unbreakable Kimmy Schmidt.

 

Ouve o mini episódio do Fita Isoladora dedicado ao filme:

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