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Opinião. O que aprendemos com o Big Brother 2020?

"Continuamos a ter muitos toscos, mas eles são úteis!, porque agora temos um termo de comparação. Uma espécie de contrabalanço, que se refletiu nos resultados desta edição."

Caro leitor,

Vamos deixar isto claro: eu sou uma bebé. Quando o Big Brother estreou em setembro de 2000, eu tinha cinco meses. Como podes presumir, a última das primeiras quatro edições acabou quando eu tinha três anos e, portanto, não me consideraria uma espectadora de muito mais do que o Canal Panda.

O meu primeiro contacto com os reality-shows foi em 2004, com imagens dispersas da Quinta das Celebridades, de que apenas me lembro da presença do ex-possível-candidato à Presidência da República (podemos fazer uma pausa para pensar bem nisto) e vencedor do programa, José Castelo Branco. Memórias efetivas no meu cérebro, apenas da Casa dos Segredos (ou Secret Story).

Tudo o que sei, com certeza, coincidente entre o primeiro e o último Big Brother, é o facto de terem sido surpresas para o público português.

A edição de 2000, e por ter sido a primeira, é um dos programas mais vistos da televisão portuguesa, que disparou as audiências da TVI. Da edição de 2020 não podemos dizer o mesmo, mas vamos compreendendo, temos de ser mais empáticos com Nuno Santos, não sabemos o que é produzir um programa deste tamanho durante uma pandemia, ainda por cima não tendo a Teresa Guilherme na apresentação das galas. (Isso é uma história que um dia contarão, promete o agora diretor-geral da TVI.)

Não são as audiências e tampouco a pandemia. O Big Brother 2020 destacou-se, eventualmente, e a razão disso são os concorrentes.

Para uma crescente parcela de espectadores televisivos, reality-shows são um programa para o qual não se olha com seriedade. É aquilo que ligamos ao domingo à noite para nos rirmos das burrices que se vão dizendo, porque, alegadamente, não há nada mais interessante a passar. Ainda esta semana ouvimos uma das finalistas confessar que concorrer ao programa fez com que esta perdesse o preconceito de que todos os que ali concorrem são pessoas vaidosas, com o ego inflamado ou insultado, geralmente conflituosos, ou qualquer outra característica que lhes associamos (o leitor sabe quais são, em termos gerais). Por outro lado, temos concorrentes que só o confirmaram, e que ironicamente se apresentaram como alguém que pretendia quebrá-lo.

Talvez o leitor não tenha acompanhado o programa, ou acompanhou em segredo, reticente, porque estes programas são diarreia cerebral e os outros não podem saber que esteve a assistir religiosamente, tal como todos eles o fizeram, reticentes, porque estes programas são diarreia cerebral e os outros não podem saber que estiveram a assistir religiosamente.

Então aqui vai um resumo: continuamos a ter muitos toscos, mas eles são úteis!, porque agora temos um termo de comparação. Uma espécie de contrabalanço, que se refletiu nos resultados desta edição.

Antes disso, o que comparar com o Big Brother original?

Rapidamente, no que diz respeito aos concorrentes da edição de 2000, há coisas que não mudam. Por exemplo, no BB2020 não falhou a existência do agressor, ainda que menos polémico que Marco Borges, Pedro Soá, que parecia convicto no seu desejo de ser expulso do programa, já que passou dias a conter-se na violência para os outros concorrentes. (Já agora, isto são tudo agressões iminentes.)

Para os admiradores do casal Célia e Telmo, a realidade dos romances está viva com o casal avião (como apelidaram Jéssica e Pedro Alves), embora Célia e Telmo tenham sido muito mais cativantes. Já que estamos a falar de Célia, shoutout para a gaiense Sónia desta edição, que nas primeiras semanas nos ofereceu gargalhadas, mas entretanto se perdeu num misto de atitudes questionáveis.

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Os concorrentes do Big Brother em 2000. Zé Maria, Telmo, Célia, Marco, Marta Cardoso (comentadora no BB2020), Sónia, Mário, Susana, Riquita, Maria João, os dois Ricardo’s, Carla e Paulo.

E, como não pode faltar, a figura de Zé Maria, que marcou o fenómeno dos vencedores humildes. É por figuras como Zé Maria que se calhar acreditámos, quando vimos a apresentação de Rui Alves na estreia do BB2020, que este seria um forte candidato às finais, mas o pastor ficou pelo caminho (e pode culpar os seus amigos lá dentro). Outros consideram que o Zé Maria desta edição é Diogo Cunha, por ser um concorrente diferente dos outros, e que apesar do desagrado dos colegas ganhou o amor do público. Enfim, humildade desconhecemos, mas a verdade é que quatro dos seis finalistas são apelidados de sensatos nas redes sociais, o que provavelmente podemos considerar um sinónimo.

A autolimitação da liberdade de expressão

Em 2020, os concorrentes deixaram de ter temas fúteis na mesa de centro da sala na casa da Ericeira; esses ficaram para as revistas cor-de-rosa, que tiveram o trabalho acrescido cá fora de os encontrar (o lado positivo é que não se aborreceram nesta quarentena, tirando o facto de poucas brigas para noticiar).

Os pontos-chave deste Big Brother 2020 foiram discriminação, feminismo e saúde mental. Um deles motivou uma desistência, um deles condicionou uma expulsão. E em geral, todos geraram discórdia entre os concorrentes e entre o público do programa, motivando alguns destes a afirmar que o jogo jogou-se mais cá fora (como não, se é cá fora que se decide o que fazer de vós?).

Alguns dos concorrentes da casa estiveram convictos que o público estava a jogar por eles, optando até por não querer ser tal e qual são, por medo de serem julgados pelos portugueses. Convém aqui perguntar se a versão deles próprios teria necessariamente de incluir homofobia ou xenofobia, a título de exemplo, visto que estas afirmações foram uma tentativa de defesa de coisas ditas por amigos (ou por eles próprios). Estamos todos convencidos que estas pessoas não vão querer juntar-se à comunidade do Twitter nos próximos anos.

Ainda que nos revolte saber que (ainda) se pensa assim, é exatamente assim que os queremos e que os quisemos porque, se calhar, estes momentos foram os únicos que os pudemos ver “ser eles próprios”, e se assim é, esperamos que o escrutínio público seja capaz de fazer crescer quem tem de crescer e aprender quem ache que deve aprender. Ou talvez não. Cá fora, já não são os portugueses a decidir, mas deixam de ter a proteção de uma produção.

O BB2020 mostrou que o feminismo é cada vez mais importante nas plataformas dos media.

Sem ofensa ao Big Brother (que várias vezes foi a Voz da razão quanto a algumas atitudes na casa mais vigiada do país), temos aqui várias big sisters, que se destacam por serem tão diferentes nas suas causas e, eventualmente, se juntarem na defesa daquilo que têm em comum: o poder feminino.

Vários concorrentes apelidaram Ana Catharina de estranha por ser uma ávida defensora das suas irmãs ali dentro, em detrimento dos homens da edição, e estes falharam em perceber como. Não significa isto que os homens da casa não tivessem as suas próprias causas, certo que existiram; mas até dentro de causas como os bombeiros encontramos, atualmente, divergências entre os géneros.

Slávia Big Brother
As concorrentes Slávia e Ana Catharina. Fotografia: Reprodução / TVI

Slávia foi a concorrente mais injustiçada da edição (sem contar com Fábio, que não chegou sequer a existir enquanto concorrente na Ericeira, e nessa inexistência mas não na injustiça sucede-lhe Renato, que lá passou apenas umas semanas de férias), porque foi expulsa não por ser quem é mas sim por quem foi a nomeações consigo (foi o mesmo que aconteceu com Rui Alves). Uma mulher negra, formada, madura, empreendedora e com muito para dizer sobre os temas que lhe mais tocam. Imagine-se apenas o que esta mulher sofreu na noite em que saiu daquela casa e se apercebeu que o mundo está a arder porque ainda há quem se recuse a reconhecer direitos fundamentais a seres humanos.

Iury é uma Miss e quis destacar esse mundo bonito quando se apresentou ao público português, mesmo que não seja essa a sua ocupação a todo o tempo. Nesta última semana, fez questão de destacar que não estamos a falar de um mundo oco e de vaidade, mas de um espaço de partilha cultural que deve ser tão respeitado quanto outros mundos onde a mulher se insere. Os sonhos de Soraia incluem participar no BB2020 e ser apresentadora de televisão, mas engana-se quem pensa que o ecrã é o que define a rapariga de Seixal, pois no background escondem-se os estudos universitários em Jornalismo ou o trabalho como educadora de ensino especial.

Escolher a carreira em detrimento daquilo que lhes é impingido socialmente é válido.

Sandrina falou sobre a sua família e sobre como aos 12 anos estava noiva, mas recusou o casamento, não seguindo propriamente a tradição da sua etnia, embora tenha defendido constantemente as suas origens no programa. É uma mulher independente que trabalha por conta própria e está a crescer.

Disse-nos a história de vida de Jéssica, por esta revelada num dos desafios do programa, que também teve de crescer rapidamente, já sendo financeiramente independente aos 17 anos. Noélia gere dois supermercados no Algarve, e inclusive quis promover os seus negócios no Big Brother 2020, tendo sido atacada por vários concorrentes por não acharem uma causa legítima (aqui entre nós, se fosse um homem teriam considerado legítimo, como é de esperar).

Detalhe relevante foi a multiculturalidade.

Dentro dos possíveis, é claro. Tivemos três concorrentes portugueses que vivem, a maior parte do seu tempo, no estrangeiro: Soraia e Edmar, em Inglaterra, e Jéssica, na Suíça. E tivemos também duas concorrentes que encontraram lar em Portugal, mas não nasceram em terras lusitanas: ambas da América do Sul, Ana Catharina trouxe a cultura brasileira e Angélica falou-nos, emocionada, várias vezes sobre a vida na Venezuela, onde ainda conseguiu estudar e trabalhar como jornalista. Slávia também viveu sempre entre Portugal e Angola, país para onde voltou para se formar.

Os concorrentes do BB2020, na noite de estreia do BB Zoom.

Falta-nos falar de Sónia e de Teresa: Sónia é vendedora ambulante e teve de aprender a fazer pela vida, já Teresa teve de ultrapassar uma experiência traumática que, seguramente, a mudou. Mas o preferível (sem ofensa) destacar são os momentos mais tristes da televisão portuguesa nas últimas semanas. E estou a falar de um programa da manhã, onde se achou que a pior coisa que alguma vez veríamos seriam os comentários de Suzana Garcia na Crónica Criminal. São, na verdade, os confrontos entre comentadores do programa (ou uma comentadora em específico) e concorrentes expulsas.

Estes momentos no Você na TV! só aconteceram com estas duas concorrentes, não tendo sido nenhum dos outros dez expulsos ali chamados para discutir com a Rainha. Por muito que concordemos com muitas das coisas maldosas que Ana Garcia Martins atira à cara dos que confronta (não teve momento no Goucha, mas Pedro Soá até lhe deu uma t-shirt num dos programas da tarde da TVI; e a família de Sandrina acredita que a comentadora teve culpa de ter ficado em sexto lugar na final), a verdade é que, e como foi referido na altura, estes confrontos de insultos baratos não fazem absolutamente nada pela ideia de sororidade que tanto se tem tentado defender neste programa.

A saúde mental

O pseudo-confronto entre Diogo Cunha e o apresentador do programa foi o ponto mais baixo do Cláudio Ramos na apresentação deste programa – não sabemos se havemos de ficar confusos com as decisões daquela produção, a que ele tem de dar cara, ou se havemos de ficar confusos com as opções pessoais deste senhor, que tentou (deliberada ou obrigatoriamente) ser uma Teresa (Guilherme), mas acabou por se descoser em favoritismos e falta de compreensão.

A produção do Big Brother 2020 fez questão de salientar, nas últimas galas, o apoio psicológico que oferece aos concorrentes dentro da casa, através de consultas programadas ou de emergência. Numa das galas de julho, o apresentador do programa fez questão de salientar isso em relação a Diogo, que durante a semana antecedente a essa gala teve uma crise que, à vista de muitos, não é compreensível. À vista de Cláudio Ramos, não foi de todo compreensível, até porque a falta de compreensão é a única justificação para a forma como o socialite lidou com os dizeres do lisboeta.

O que mais nos aflige neste comportamento do apresentador é óbvio: Como é que a TVI aprova um tratamento destes a um concorrente que recebe acompanhamento psicológico, quando duas semanas antes começou a gala de domingo com uma nota sobre o suicídio de alguém que nos era tão conhecido e lhes era tão próximo?

Precisamos de voltar atrás no programa, pois engana-se quem pensa que este é o único momento azedo da produção a lidar com questões do foro psicológico. E engana-se ainda mais quem pensa que os jogadores do Big Brother têm de estar psicologicamente ótimos a todo o momento, quando, afinal, têm tudo tão facilitado ali dentro em comparação connosco. Num jogo de alta pressão como é este, e especialmente por ser tão difícil produzir uma coisa destas durante uma pandemia, o expectável é exatamente que a pressão os consuma eventualmente.

O exemplo mais óbvio além do mencionado? Nas últimas semanas da sua estadia na casa, Jéssica repetia vezes sem conta que queria desistir na eventualidade do namorado, nomeado, ser expulso. Compreende-se o porquê de a motivação nos parecer tão… fútil. Mas sabemos que essa motivação esconderia, certamente, algo mais profundo (que depois se descobriu ser a incerteza quanto ao bem-estar da família, que a concorrente expôs para toda a praia lusitana ao mergulhar na sua vida). Na gala de 21 de junho, Cláudio Ramos decide brincar com Jéssica e dizer-lhe que Pedro foi expulso, numa tentativa de ver se a concorrente o seguiria; mas, ao ver que a concorrente não estava a brincar, a produção apercebeu-se que não poderia perder dois ou três concorrentes numa noite. Na verdade teria sido Angélica a escolhida pelo público para ir ter com a civilização à Venda do Pinheiro.

Até podemos concordar que os concorrentes devem desistir do programa de vez, e parar de gastar o tempo das pessoas, ou por outro lado, que é injusto que eles falem tão facilmente de desistir quando imensas pessoas perderam a oportunidade de participar para eles ali estarem (Jéssica seria caso único se não tivéssemos passado semanas a ouvir Sónia a dizer o mesmo às paredes). Mas discordamos no momento em que se usa isso durante o estado aflitivo das pessoas para fazer uma brincadeirae todas as brincadeiras de Cláudio acabaram por falhar. Não sei bem como descrever o desespero que foi assistir a estas cenas. Foi, aliás, mais desesperante do que ouvir as tentativas de cantorias românticas do apresentador nas galas, que não chegam sequer a ter piada.

Pese embora muitos tenham sido os que concordaram com o humor desta produção, movidos pelo seu ódio de estimação a alguns dos concorrentes, estes acontecimentos contribuíram para algo importante. Se por um lado nos entristece saber que a saúde mental continua a ser um tema demasiado desvalorizado em Portugal, por outro lado estes acontecimentos contribuíram para um crescente mencionar do mesmo tema na televisão e nas redes sociais. Resta então continuar a mudar mentalidades.

O que concluímos do BB2020 e o que esperamos de uma próxima edição?

Numa rápida exposição, qualquer um dos seis finalistas era um vencedor justo, ainda que duas das finalistas tivessem tido melhores oportunidades se a produção não tivesse atirado, novamente, para dentro de casa o síndrome de Peter Pan ambulante e o bombeiro de Valongo. Sandrina e Ana Catharina poderão ter sido injustiçadas com os últimos lugares, mereceriam ter avançado um. A carismática Sandy Malhoa porque, como ela apelou, foi a alegria da casa, e Ana Catharina, por toda a coerência naquilo que defendeu durante o programa (não sendo por ela, que fosse por todos os animais que tenciona abrigar).

Enfim, e como diria Noélia, os portugueses é que mandam, e a algarvia, que foi a pessoa mais nomeada no programa, ficou no top 3 em conjunto com Diogo e Soraia. Há que confessar: merecidíssimo. Surpreendentemente, até o Cláudio concordou, à maneira dele, e acrescentou: são a prova de que é possível chegar à final de um reality showsem pisar” os outros. A vitória e os 50-000 euros foram entregues a Soraia, que tenciona investir o prémio no seu lar doce lar e, eventualmente, realizar mais um ou outro sonho que tenha guardado.

Ao espectador sensato do BB2020 não interessa realmente quem levou o prémio, desde que os concorrentes com que se identificou tenham conseguido um lugar na final, em detrimento daqueles cuja contribuição foi sempre pela negativa (que, apesar de tudo, também é uma contribuição relevante).

Com o Big Brother – A Revolução a caminho, o público que a TVI ganhou nos últimos meses pondera regressar àquela casa em setembro (e, recorde-se!, setembro é amanhã). Ora para voltar a acompanhar secretamente o programa (os motivos foram expostos), ora para ver o que dali sai: se continuamos a ter concorrentes tão diversos ou se voltamos a um padrão, se continuamos a discutir a sociedade num programa que antes não levávamos a sério (e ainda estamos reticentes em levar) ou se isso se perde com o novo (e mais competitivo, alegadamente) formato.

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