Zé Pedro
Fotografia: Divulgação/NOS Audiovisuais

Crítica. ‘Zé Pedro Rock’n’Roll’: A homenagem à lenda do rock português

Diogo Varela Silva realiza uma das mais bonitas homenagens a Zé Pedro, uma das mais brilhantes estrelas nacionais

Zé Pedro Rock ‘n’ Roll é o documentário de Diogo Varela Silva sobre uma das maiores estrelas do rock nacional. Depois de uma estreia com sala cheia na edição passada do DocLisboa, o filme já está disponível nos cinemas portugueses desde 30 de julho.

Realizado pelo amigo de infância de Zé Pedro, esta longa-metragem documental abre-nos a porta da vida do roqueiro, conhecido não pelos modos brutos que volta e meia associamos a este género musical, mas pela simpatia e enorme coração que lhes eram característicos.

Um facto inegável para a grande maioria dos portugueses que se interessa por música feita por cá é que Zé Pedro é uma das figuras mais emblemáticas do panorama musical português. Um dos fundadores dos Xutos e Pontapés, ele podia não escrever canções, nem cantar, nem ser o melhor guitarrista de sempre, mas todo o apoio e divulgação que deu a pequenas bandas de rock nacional fizeram dele o grande patrono do género. Foi crítico, radialista e até teve um clube, em Lisboa, que servia de sala de concertos, o Johnny Guitar, primeiro palco de muitas bandas que se tornou a meca do rock’n’roll em Lisboa (mas que fechou em 1996 – talvez pela quantidade de borlas que oferecia).

Os Xutos não são só ‘A Minha Casinha’

Sem grandes artífices cinematográficos e recorrendo sobretudo a imagens de arquivo, Diogo Varela e Silva mostra que não é preciso uma fotografia perfeita para se fazer uma homenagem sentida e com sentido. O retrato que se pinta de Zé Pedro tem algumas manchas e imperfeições, mas o resultado final é um filme emocionante, de fazer chegar a lágrima ao olho mesmo a quem não acompanhou a carreira do guitarrista. As entrevistas aos familiares e amigos próximos só mostram o quão importante ele foi, não só para a história do rock português, mas também para cada um a quem o seu jeito descomplicado e humorado tocou e, no fim, é isso que realmente importa.

“Sentes-te cota?

Apaixonou-se pelo punk cedo, quando partiu rumo à Europa para ir aos festivais de música e voltou com o cabelo espetado e um alfinete na boca. Kalu, baterista dos Xutos e Pontapés, refere no documentário que o maior lema de Zé Pedro era “ninguém pode ficar indiferente: atirem-me com coisas ou batam palmas. Alguma coisa tem de acontecer“. Escreveu no Diário de Lisboa, no suplemento A Mosca, sobre música, chumbou algumas vezes “por galdeirice” e era presença assídua nas manifestações: “O 25 de abril para malta da minha geração foi um bocado uma festa, nós não estávamos habituados a ter uma causa a defender“.

Zé Pedro
Fotografia: Divulgação/NOS Audiovisuais

Era mais Rolling Stones que The Beatles, pela atitude rebelde, mas o primeiro concerto que viu ao vivo foi de Miles Davis, aos 14 anos, e foi este artista que fez com que Zé Pedro mergulhasse no mundo da música. Apesar deste fascínio com os seus ídolos mais antigos, Zé Pedro estava sempre a par das novidades da pop-rock. Em 2002, foi convidado no programa da RTP magazine Por Outro Lado. Ana Sousa Dias perguntava-lhe se sentia “cota”: ele até se podia sentir, com todas as novidades que tinha à sua volta, todos os desenvolvimentos tecnológicos que se foram dando ao longo dos seus 40 anos de carreira. Foi o seu envolvimento e a sua paixão pela música e pelas pessoas à sua volta que mantiveram a sua alma jovem – foi isso que o tornou numa das mais queridas figuras da música portuguesa, relembrada três anos após a sua morte como uma das pessoas que mais fez pelos seus e que se mantém no imaginário dos portugueses.

Há uma semana, os Xutos e Pontapés receberam o Prémio Carreira nos Prémios PLAY – de meninos falidos, que tocavam concertos para pagar o jantar, a uma das bandas mais importantes da história portuguesa, que abriu para os Rolling Stones no Rock In Rio. O seu último concerto foi no Coliseu dos Recreios. Fui uma das sortudas que lá estiveram, e pareceu mesmo uma cerimónia simbólica, uma despedida. Zé Pedro Rock ‘n’ Roll veio reforçar a saudade com uma das homenagens mais singelas que se pode fazer: recordar.

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