Violência de género feminicídio
Fotografia: Kat Jayne no Pexels

Opinião. O feminicídio existe e temos de o chamar pelo nome

Já passa da hora de os media portugueses reconhecerem nas notícias que o feminicídio existe. Ou seja, há mulheres assassinadas devido ao seu género. É um passo importante para conhecer melhor a dimensão do problema na sociedade portuguesa e trazer visibilidade ao assunto.

Os casos mais recentes no país demonstram que os assassinatos ainda não são divulgados em função de um ponto de vista género – no máximo em contexto de violência doméstica. É essencial deixar claro que as mortes dessas mulheres, assim como a de Beatriz Lebre, não são homicídios comuns. São crimes que têm como raiz o machismo e a misoginia, a ideia errónea de que os homens podem decidir sobre a vida das mulheres.

Quando os media colocam a questão de maneira simplista, ou ainda pior, quando culpam a vítima pelo que aconteceu, estão a minimizar um problema que precisa ser debatido com urgência no país. Só em 2019 foram pelo menos 41 feminicídios em Portugal, mesmo que não sejam divulgados como tal. Em 2020 ocorreram já, no mínimo, 10 feminicídios, de acordo com dados da Polícia Judiciária.

O último ocorreu nesta sexta-feira (31), com uma mulher de 58 anos. Ela estava a chegar ao trabalho, pela manhã, quando o ex-marido a matou com dois tiros. Um filho de 20 anos ficou sem a mãe por conta do machismo do pai. Todos esses contextos devem ser discutidos e debatidos. Não pode haver preconceito, não pode haver falta de apuração de fontes, não pode haver menosprezo pela vida das mulheres que são assassinadas. O que os media devem fazer.

Atualmente existem manuais de jornalismo em língua portuguesa atualizados com orientações sobre como divulgar a violência de género, bem como sobre tratar desta pauta com frequência, não só quando ocorre um feminicídio.

As orientações básicas são:

– Não ter medo da palavra feminicídio: é preciso superar o debate ideológico travado por essa palavra. É um termo técnico que indica que não se trata de um homicídio comum. Utilizar “feminicídio” traz visibilidade ao problema e ajuda a encontrar as possíveis soluções;

– Cuidado com as palavras, elas são poderosas. Frases como “ela deixa filhos”, denotam uma escolha. Mas as vítimas não tiveram escolha. Faz mais sentido explanar a realidade, informando que os filhos ficaram órfãos por conta da atitude misógina;

– Nunca buscar na vítima um comportamento que tenha levado o homem a cometer o crime. É o que fazem, por exemplo, com o ciúme. Não pode haver uma naturalização de matar por ciúmes;

– Não romantizar agressores nem a relação dos envolvidos;

– Divulgar dados de como as vítimas podem buscar ajuda, como telefones e linhas de apoio;

– Abordagem não apenas pelo viés policial, mas sim, entender o fenómeno da violência pelo olhar sociológico, psicológico, etc;

– Construir uma narrativa de reflexão e construção sobre o tema.

Como escreve Silvia Federeci: “É necessário entender de onde vêm a violência, quais são suas raízes e quais são os processos sociais, políticos e econômicos que a sustentam, para entender que mudança social é necessária”. O jornalismo tem a capacidade de orientar a vida da sociedade, e de, neste caso, reorganizar a realidade. Com técnica, responsabilidade, dever ético e doses de empatia, lá chegaremos.

Contactos úteis:

Linha de Apoio à Vítima – 116 006 (número gratuito, dias úteis das 9h às 21h)

Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica – 800 202 148 (número gratuito, anónimo e confidencial – 24 horas por dia) / SMS com ‘SOS’ para o número 3060

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