The Umbrella Academy
Imgem: Divulgação Netflix

Crítica. ‘The Umbrella Academy’: depois de um início excelente, uma continuação fenomenal

The Umbrella Academy estreou em fevereiro de 2019 na Netflix, e conquistou uma segunda temporada, que ficou disponível esta sexta-feira, 31 de julho. Cada uma delas tem dez episódios, onde nenhum deles está a mais. E com base na qualidade desta produção, resta apenas esperar que mais utilizadores da plataforma de streaming lhe dêem uma oportunidade, pois não se irão arrepender.

Da página para o ecrã

The Umbrella Academy deriva de uma banda desenhada da autoria do comic book artist Gabriel Bá e de Gerard Way, outrora vocalista dos My Chemical Romance. Tudo começa quando, a 1 de outubro de 1989, 43 mulheres dão à luz em simultâneo – sem estarem sequer grávidas. Sir Reginald Hargreeves (Colm Feore), um bilionário excêntrico, inicia uma missão para comprar estes bebés, mas só consegue reunir sete. O interesse advém do facto de cada um deles ser mutante, tendo o seu próprio poder. O primeiro episódio da série mostra que, depois de crescerem juntos, cada um segue caminhos diferentes. No entanto, com a morte do pai adotivo, regressam a casa para tentarem solucionar o mistério – e, como se não bastasse, o mundo está à beira do apocalipse.

Todos os mutantes que já conhecíamos estão de regresso: Ellen Page (na pele de Vanya Hargreeves), David Castañeda (Diego Hargreeves), Robert Sheehan (Klaus Hargreeves), Tom Hopper (Luther Hargreeves), Aidan Gallagher (Number Five), Emmy Raver-Lampman (Allison Hargreeves) e Justin H. Min (Ben Hargreeves). Além deles, surgem personagens novas, como a de Ritu Arya, no papel de Lila, a de Yusuf Gatewood, que interpreta Raymond, e a de Marin Ireland, que é Sissy. Depois de explorarem as divergências entre os irmãos na primeira temporada, a segunda vem ajudá-los a fortalecer laços, reforçar intimidades e a criar novas memórias. A primeira temporada foi ótima mas, mesmo assim, esta conseguiu ser ainda melhor.

AVISO: Os próximos parágrafos deste artigo contêm spoilers da nova temporada de The Umbrella Academy

Uma viagem atribulada ao passado

O mote para a segunda temporada de The Umbrella Academy é uma viagem ao passado. Depois de sobreviverem ao apocalipse que eles próprios causaram (quando Vanya, num momento de ira, perdeu o controlo dos poderes e fez explodir a Lua – que, de seguida, colidiu com a Terra, acabando com todas as formas de vida), tentaram viajar no tempo para impedir este desfecho. No entanto, Cinco direcionou-os erroneamente para anos distintos, e os irmãos acabaram separados entre 1960 e 1963. A boa notícia é que todos foram parar ao mesmo sítio: Dallas, no Texas. Desconhecendo o paradeiro uns dos outros, seguem em frente com as suas vidas, que têm de recomeçar do zero. Alguns servem-se dos seus poderes para alcançar determinados objetivos, enquanto outros nem os usam.

The Umbrella Academy
Klaus (Robert Sheehan) não passa despercebido. Pelo contrário, torna-se profeta, acumulando devotos. Imgem: Divulgação Netflix

A forma como cada Hargreeves lida com a solidão e com a oportunidade de um novo começo é um dos aspetos mais interessantes desta nova temporada que, aos poucos, nos vai revelando como chegaram ao ponto em que se encontram. Como não podia deixar de ser, Klaus (Robert Sheehan), o mais extravagante, torna-se o líder de um culto, conquistando centenas de seguidores – com a ajuda de Ben (Justin H. Min), o irmão fantasma, claro – e atenção não lhe falta.

Por sua vez, Luther (Tom Hopper) começa a usar a sua super-força em combates com apostas e torna-se segurança de uma discoteca, enquanto vive sozinho numa pensão para solteiros. Allison (Emmy Raver-Lampman) começou a trabalhar num cabeleireiro, encontrou um novo amor e casou-se. Diego (David Castañeda) é colocado num hospício, e Vanya (Ellen Page), depois de ser atropelada, vai trabalhar como ama na casa de quem a atropelou. Mas Cinco (Aidan Gallagher) chega mais tarde, pelo que não tem tempo para criar uma nova vida.

Amor quando menos se espera

As personagens novas são introduzidas nas histórias dos irmãos e vêm de facto acrescentar algo à série. Raymond (Yusuf Gatewood) é o homem por quem Allison se apaixona. Bondoso, lutador e perspicaz, ele contribui para a felicidade de Allison, que, durante um ano, consegue ter uma vida estável, sem usar o seu poder. Sissy (Marin Ireland) é quem atropela Vanya, que perde a memória na sequência do acidente. Para se redimir, Sissy acolhe a mutante, oferecendo-lhe abrigo, na casa que partilha com o marido e o filho, Harlan, com quem Vanya estabelece uma ligação imediata, passando a cuidar dele. E Lila (Ritu Arya) é a companhia de Diego no hospício, a nova personagem que rapidamente se torna aquela cuja história queremos saber mais, sendo também a mais interessante e cativante.

The Umbrella Academy
Lila (Ritu Arya) conquista o coração de Diego (David Castañeda), após se conhecerem num hospício. Imgem: Divulgação Netflix

As novas personagens tornam-se os novos interesses amorosos dos três irmãos em causa. Três histórias de amor completamente diferentes – umas estáveis, outras complicadas -, mas nenhuma está a mais, dando força a estes mutantes, que, de um dia para o outro, viram as suas vidas viradas do avesso. Neles encontram o apoio de que necessitavam e, acima de tudo, quem os ame por aquilo que são – e não pelo que os poderes os tornam. Mas estas relações revelam-se um problema quando, mais cedo ou mais tarde, têm de retornar ao seu “tempo normal” (no caso, 2019).

Problemas do passado… ou do presente?

O ponto forte desta temporada de The Umbrella Academy é, sem dúvida, os temas que abordam. Pelo facto de os acontecimentos se desenrolarem nos anos 1960, numa zona conservadora e segregada dos Estados Unidos, nem a liberdade, nem os pensamentos são os mesmos. A paixão de Vanya e Sissy tem de ser escondida, pois a relações homossexuais são ainda ilegais, e percecionadas como uma doença. Também Klaus sofrerá com isto, sendo inclusivamente agredido. Para além disto, o filho de Sissy aparenta ter uma doença que lhe afeta a mente, a fala e a locomoção – condição esta que, na altura, ainda não tinha sido diagnosticada, e as “clínicas” que existiam para “tratar” este tipo de patologias não eram sequer dignas desse nome.

Em conjunto com o marido, Allison torna-se ativista de direitos civis, participando no planeamento de manifestações contra o racismo e a segregação racial que os proibia de entrar em certos estabelecimentos. Também a brutalidade policial é retratada, numa luta que se mantém pertinente.

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Allison (Emmy Raver-Lampman) e Raymond (Yusuf Gatewood) lutam constantemente pela igualdade de direitos. Imgem: Divulgação Netflix

A trama da segunda temporada gira em torno do assassinato do presidente John F. Kennedy, que ocorreu a 22 de novembro de 1963. Quando se apercebem de que é este evento que desencadeia um novo apocalipse (pois os americanos culparão os russos, iniciando uma guerra nuclear com um desfecho previsível), os irmãos Hargreeves fazem tudo o que está ao seu alcance para impedir a morte do presidente. Diego é quem se dedica mais a esta luta e é por isso que é colocado num hospício, uma vez que ninguém acreditava quando proferia que o presidente seria assassinado. A par disto, são exploradas as tensões entre a União Soviética e os Estados Unidos, com Vanya  a ser, inclusivamente, tomada como uma espiã russa, e retratando o medo instalado na população americanas das mudanças que seriam trazidas pelo comunismo, que é visível em muitos habitantes. É uma narrativa inteligente, interessante e muito bem conseguida.

O regresso de caras conhecidas

Como se não estivesse já fantástica, a segunda temporada consegue melhorar. Depois de, aparentemente, nos termos despedido de algumas personagens na temporada inaugural, elas estão de volta mas, desta vez, mais novas. É o caso, por exemplo, de Dave (Cody Ray Thompson), a paixão de Klaus. Os dois conheceram-se na Guerra do Vietname, onde Dave perdeu a vida. Sem hesitar, Klaus agarra a oportunidade de mudar o destino e vai ao encontro de Dave, na tentativa de dissuadir o jovem de se alistar no exército. Um regresso totalmente inesperado e também emocionante.

Contudo, os melhores regressos foram, sem sombra de dúvida, os de membros da família Hargreeves. Pudemos rever Grace (Jordan Claire Robbins), a mãe adotiva dos irmãos, e ficar a conhecer o seu passado. É-nos mostrada a sua paixão por animais e também a forma como o seu caminho se cruzou com o de Reginald (Colm Feore), que também regressa, dando-nos a chance de o ficar a conhecer muito melhor. Até Pogo, o macaco que deixou saudades, faz algumas aparições nesta temporada – desta vez, como bebé. Exploramos esta dinâmica familiar estipulada desde cedo, e mergulhamos mais fundo na história de vida de cada um. Ainda assim, nenhum deles volta sem um propósito: todos têm um papel a desempenhar na narrativa desta temporada.

Também Hazel (Cameron Britton) aparece por uns segundos, e mais tempo é dedicado à Gestora (Kate Walsh), que permanece uma personagem icónica e malvada que, com os seus planos, consegue sempre obter aquilo que quer, custe o que custar. Cautelosa, manipuladora e sem escrúpulos, também se revela um pouco mais nesta temporada, nomeadamente quando ficamos a saber que “adotou” Lila (Ritu Arya), o novo amor de Diego.

The Umbrella Academy
Kate Walsh volta a deslumbrar. O papel de Gestora assenta-lhe que nem uma luva. Imgem: Divulgação Netflix

Mais uma temporada espetacular

A primeira temporada não deixou nada a desejar. Porém, há séries cuja qualidade vai decrescendo à medida que o número de temporadas aumenta. Felizmente, The Umbrella Academy não é uma delas. Se a primeira temporada estava irrepreensível, a segunda seguiu as suas pisadas, com tudo pensado ao pormenor. Desde o novo enredo, distinto do inicial mas sem lhe ficar atrás, à inserção de novas personagens, que realmente moldam a história e não vêm apenas empatar, com uma banda sonora totalmente adequada, e vestuário característico da época e bem retratado, esta segunda temporada de The Umbrella Academy é entretenimento de qualidade, completamente singular e merecedor de todo o sucesso, e mais, que tem tido.

Para além disto, conseguiram surpreender, trazendo personagens que não contávamos rever, e satisfizeram a nossa curiosidade de sabermos mais sobre cada uma delas – e importa, aqui, mencionar o destaque dado a Ben (Justin H. Min), que acabou por ficar mais esquecido na primeira temporada. Até em matéria de personagens secundárias conseguiram ter êxito. Os vilões são bem construídos, intimidantes e astutos. Não há personagens aborrecidas, vazias, ou superficiais, nem histórias menos interessantes ou mais entediantes. Não há um minuto a mais nos dez episódios desta temporada, e apesar de os preencherem com humor, conseguem tratar temas pesados sem se tornar ridículo ou fora do propósito.

Com o apocalipse no seu encalço, os irmãos Hargreeves estão mais unidos que nunca que, mesmo desejando tempo para si, acabam sempre por se encontrar novamente – quase parecendo obra do destino. Testemunhamos algumas realidades alternativas e também plot-twists deliciosos, e, quando está prestes a terminar, questionamo-nos acerca de qual será o enredo da próxima temporada – pergunta que é respondida nos momentos finais. Por isso, e a ser confirmada, já se prevê uma terceira temporada de The Umbrella Academy igualmente espantosa.

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