Da esquerda para a direita . Fonte: Vivi Milano

Crítica. ‘Darkness’ encontra a esperança onde impera a escuridão

O conto apocalíptico narrado no feminino é aposta do MotelX

Mais um ano, mais uma edição do MotelX, dedicada a celebrar o cinema de terror em toda a sua diversidade. Entre ambiciosas propostas análogas a um ano particularmente difícil, o catálogo da 14.ª edição do evento aposta nas narrativas imaginadas no feminino.

A escassa paridade de género no campo da realização não passa despercebida, ainda para mais no horror em grande ecrã. Assim, o MotelX compromete-se a redefinir as diretrizes do género, através da aposta na pluralidade, não só geográfica, mas também de pontos de vista. Darkness (2019) de Emanuela Rossi é um dos primeiros títulos apresentados pelo festival, em exibição no início de setembro. A longa-metragem marca a estreia da cineasta italiana enquanto realizadora e argumentista, esta última em parceria com Claudio Corbocci.

Vale a pena analisar Darkness à luz da sua dedicatória final, dirigida às “raparigas que resistem”. As irmãs Stella (Denise Tantucci), Luce (Gaia Bocci) e Aria (Olimpia Tosatto) fazem da resistência quotidiana o seu estandarte. Ao início, as protagonistas dependem do pai (Valerio Binasco) para sobreviver àquilo que o chefe de família descreve como um universo destruído pela ação nociva do sol. Casa e prisão passam a constituir sinónimos para as filhas, num jogo de poder doentio disfarçado de amor paternal.

A aventura do desconfinamento

Logo à partida, a desconfiança nos motivos supostamente nobres do progenitor torna-se evidente. A estranha mansão habitada pela família é palco de abusos constantes, justificados pela religião e disciplina. Qualquer escape é desencorajado, pois não é proveitoso “pensar no que o mundo era antes”. À semelhança de uma ditadura, a figura autoritária restringe os subjugados, ao demonizar tudo o que seja estranho a quatro paredes opressoras. Todavia, um acontecimento curioso obriga à abertura de horizontes – o ditador desaparece sem deixar rasto. A necessidade começa a falar mais alto e o desconhecido chama.

Darkness
Da esquerda para a direita, Aria (Olimpia Tosatto), Luce (Gaia Bocci) e Stella (Denise Tantucci). (Reprodução/DR)

O desaparecimento do pai marca o verdadeiro nascimento de Stella para o mundo exterior. A agora matriarca da família vê-se obrigada a explorar aquilo que sempre foi incentivada a temer, em nome da sobrevivência. Será que as histórias horríveis alimentadas pelo pai se confirmam? Poderá Stella morrer e levar consigo o futuro da família que lhe resta? Entre a desmistificação e a confirmação dos seus piores medos, a irmã mais velha expõe-se à sociedade, iniciando a aprendizagem de uma vida.

Tal premissa alude a um tema profundamente atual, fator de peso na seleção de Darkness enquanto cabeça de cartaz. Por todo o mundo, as pessoas aprendem a habituar-se ao incerto. A crise pandémica instaurou um novo paradigma, onde as dúvidas suplantam as certezas. Todos os dias adaptamo-nos a normas inéditas, muitas vezes avessas a rotinas tomadas por garantido.

Podemos rever-nos na atitude intrépida de Stella, apesar do caráter dúbio do perigo que a apoquenta. Atualmente, a segurança de cada indivíduo recai na responsabilidade partilhada, perante uma ameaça bem real. À semelhança da protagonista, atravessamos uma fase de reeducação, partindo à descoberta das dinâmicas do desconfinamento. 

Esquecer os fantasmas do passado

O derradeiro rebentar da bolha reflete-se na casa que, a pouco e pouco, parece transformar-se num verdadeiro lar. As irmãs são, por fim, autorizadas a ser crianças. A brincar, livres de dedos acusatórios; a dançar ao som de música disco, sem medo de avanços inapropriados da quem mais devia protegê-las; e a desfrutar em pleno dos utensílios colecionados por Stella durante as suas aventuras diárias.

Embora as janelas continuem cerradas (não vá o diabo tecê-las), a mansão perde a sua aura claustrofóbica, graças ao desvanecimento da verdadeira escuridão. A alegria espalha-se pela casa sob a forma de pequenos gadgets, cachecóis de plumas e roupas em tons garridos. O até então proibido converte-se em estabilidade, à medida que o espetador presencia a comovente aproximação das irmãs, finalmente livres.

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Stella (Denise Tantucci) contacta pela primeira vez com o universo apocalíptico. (Reprodução/DR)

Como não podia deixar de ser, os fantasmas do passado voltam para assombrar a recém-conquistada felicidade. Afinal, o que seria do desenlace sem um último golpe do vilão? O confronto surge para domar quaisquer pontas soltas, talvez de forma demasiado apressada para exercer o efeito épico pretendido.

O desfecho reitera a tendência dominante do filme para ceder à previsibilidade. Pela leitura de breves linhas de sinopse, é possível deduzir os momentos chave do argumento, roubando a antecipação construída por um bom elemento surpresa. A falta do inesperado e algumas interpretações amadoras, dificultam o investimento do espetador na narrativa. Se a interessante cinematografia, enriquecida pela atenção ao detalhe, quase mitiga as pequenas falhas, a sensação de que algo está em falta tolda o potencial de Darkness.

O poder da união feminina

Ainda assim, as imperfeições não tiram mérito à importante mensagem de empoderamento que dá mote ao enredo. As mulheres sempre lidaram com amarras impostas pela sociedade, sob a forma de rótulos como “dona de casa” ou até mesmo “bruxa”.

Na sua estreia, Emanuela Rossi fala para as mulheres que continuam a mudar o mundo, quer seja através de grandes ações ou de valentia diária. Stella, Luce e Aria encarnam o poder da união feminina, capaz de reacender a esperança onde apenas existia escuridão. O apocalíptico e o feminismo encontram-se, assim, em Darkness, a antevisão de mais um ano promissor para o festival de cinema.

Crítica. ‘Darkness’ encontra a esperança onde impera a escuridão
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