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Stanley Kubrick e Shelley Duvall: a nódoa esquecida no legado do realizador

Stanley Kubrick, considerado um dos melhores realizadores de cinema de sempre, a mente brilhante por detrás de clássicos incontornáveis como 2001: A Odisseia no Espaço, The Shining, Laranja Mecânica, ou a ácida caricatura que é Dr. Estranhoamornasceu a 26 de julho de 1928, há 92 anos.

O falecido realizador influenciou toda uma nova geração de cineastas, desde Christopher Nolan, Paul Thomas Anderson, David Lynch, entre outros, que o citam, de forma recorrente, como sendo uma fonte de inspiração. Mas há, porém, uma mancha no seu legado que teima em ser lembrada: Shelley Duvall.

“Acho que é por este filme que toda a gente se lembra de mim, certo? E olha, eu não vou entrar em grandes detalhes sobre isso agora, mas fazer parte desse filme foi um inferno,” admitiu Shelley, em entrevista, anos depois de The Shining ter chegado aos cinemas, em 1980.

Shelley não quis, nessa entrevista entrar “em grandes detalhes”, mas The Shining é um dos grandes clássicos de terror, figurando na maior parte das listas especializadas dos “melhores filmes de terror de sempre”. E, quando se fala do filme, pouco se fala do ambiente que Shelley Duvall teve, segundo depoimentos, de enfrentar com Kubrick.

E, se queremos falar de Stanley, penso que se torna imperativo entrarmos “em grandes detalhes” no que toca a esta nódoa que paira sobre a carreira alegadamente imaculada do cineasta. Duvall, ao longo do resto da sua vida, deixou várias pistas daquilo que passou no set do filme. “O que eu quero dizer é que existia um grande elenco, o Jack, Scatman [Crothers], Danny [Lloyd]. Eram todos pessoas hilariantes, mas depois havia o Stanley Kubrick, o realizador desta obra-prima icónica.”, ressalvou a atriz.

“O que eu quero dizer, por agora, é que se ele não tivesse realizado o filme da maneira que o fez, se não tivesse feito tudo com a força e crueldade que fez, penso que o filme não se teria tornado naquilo que efetivamente foi.” 

The Shining, o filme que se tornou um autêntico terror para Shelley

Estávamos no ano de 1980 quando Stanley Kubrick lançou The Shining para o grande ecrã. O filme dispensa apresentações e é considerado um dos melhores filmes de terror psicológico de todos os tempos, ao lado de clássicos como Psycho (1960), Rosemary’s Baby (1968) ou O Exorcista (1973).

The Shining (Stanley Kubrick)

A performance de Jack Nicholson, no papel de Jack Torrance, é memorável e é daquelas que fica para a história. Os gritos de Wendy (Shelley Duvall), o medo espelhado na sua cara, enquanto o marido a tenta matar com um machado, deixam, quase de certeza, marcas na memória do espectador. Mas, a que custo?

Kubrick seria a rampa de lançamento de Duvall

Para Shelley Duvall, a personagem de Wendy mudou a sua vida por completo. A atriz tinha 20 e poucos anos quando foi escolhida por Kubrick para entrar no filme, sendo que iria, idealmente, a partir daí, cimentar o seu nome na indústria cinematográfica.

Shelley Duvall, em 1977, ano em que ganhou o prémio de Melhor Atriz em Cannes.
Jean Jacques Levy, AP

Passados 40 anos do lançamento do filme, a performance de Duvall é vista como marcante mas, no tempo em que o filme estreou pela primeira vez no cinema, foi completamente ignorada pela crítica especializada, não recebendo qualquer tipo de citação nas críticas que foram, na altura publicadas, em relação à sua atuação. Pior que isso, Shelley foi nomeada, em 1980, para o Razzie, o galardão que “premeia” as piores actuações e filmes do ano.

“Depois de todo aquele trabalho, quase ninguém criticou a minha performance no filme, nem quase a mencionaram, foi o que me pareceu. As críticas que foram escritas na altura eram todas sobre o Kubrick, parecia que eu nem tinha aparecido no filme”, lamentou a atriz, em entrevista a Roger Ebert, crítico norte-americano de cinema, em 1980.

Mas, enquanto as reacções dos críticos foram negativas, ou melhor, inexistentes, a experiência de Duvall a fazer o filme foi muito pior. A forma como foi tratada no set de The Shining, às mãos de Stanley Kubrick, é um dado histórico conhecido, mas pouco falado. Não é o único relato do género a aparecer em Hollywood e é, como outros tantos, varrido frequentemente para debaixo do tapete.

A “prisão mental” de Tippi Hedren em The Birds de Hitchcock

Alfred Hitchcock, por exemplo, enquanto trabalhava no seu filme de terror, The Birds, terá tido comportamentos abusivos para com Tippi Hedren, a atriz principal do filme. Hedren, referiu, em certo momento da sua vida, que o realizador a colocou numa “prisão mental” durante as gravações.

O alegado abuso e o isolamento perpetuado pelo realizador britânico inspirou vários livros e nota-se, nas várias entrevistas dadas por Hedren, que a sua vida ficou marcada por estes eventos.

Entrando em detalhes, um dos conhecidos relatos é o facto de o realizador britânico ter surpreendido a atriz ao usar pássaros verdadeiros, ao invés de mecânicos, na famosa cena em que estes atacam a personagem de Tippi Hedren. A cena climática em questão demorou sete dias a ser filmada, e Hedren descreveu o seu processo com tendo sido “a pior semana da sua vida.” 

As consequências físicas e emocionais da cena tiveram um efeito tão intenso em Tippi, que a produção do filme teve de ser encerrada durante uma semana e a atriz foi encaminhada para o hospital. Para além disso, foram relatados depoimentos que descreviam a proibição, imposta por Hitchcock para o resto do elenco, de socializarem com Hedren, à semelhança da medida adoptada por Stanley Kubrick em The Shining para com Shelley Duvall.

Adèle Exarchopoulos sentiu-se “uma prostituta” a gravar A Vida de Adèle

Quem não se recorda, também, da infame história em torno da produção de A Vida de Adèle, em que o realizador Abdellatif Kechiche fez, segundo consta, exigências grotescas às atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux? O filme francês, lançado em 2013, contém várias cenas de cariz sexual, uma delas tendo a duração de sete minutos.

As estrelas de Blue is the Warmest Colour queixaram-se igualmente de maus-tratos nas filmagens.
Paramount

Seydoux, a atriz de 28 anos, revelou, durante o Festival de Telluride, alguns detalhes da “horrível” experiência que teve a trabalhar no filme e descreveu, em específico, o ambiente em torno das filmagens das cenas sexuais:  “Às vezes era embaraçoso, outras vezes iluminador, estares rodeada por três câmaras, numa sala muito pequena. Às vezes podias estar a gravar uma cena durante cinco horas. Eu senti-me uma prostituta.”, contou ao The Daily Beast.

A última frase é reveladora daquilo que Seydoux passou. Para além de o filme conter várias cenas de sexo, a maior delas foi gravada durante 10 dias. Na mesma entrevista, Adèle ofereceu detalhes sobre os bastidores da gravação de uma cena em que as duas personagens principais do filme discutem:

“Tu consegues ver que estávamos mesmo a sofrer. A personagem da Léa estava a bater-me tantas vezes, e o Kechiche continuava a gritar: ‘Bate nela! Bate nela outra vez’!”

Kechiche respondeu à polémica, dizendo que era obsceno as jovens atrizes virem a público queixar-se de que tinham sofrido nas gravações do filme. “Quão indecente é falarem sobre dor quando estão a exercer um dos melhores trabalhos do mundo!”, disse o realizador, numa conferência de imprensa, em Los Angeles. “Como é que, quando és adorada, quando podes pisar as passadeiras vermelhas, quando ganhas prémios, podes vir falar de sofrimento?”

Shelley foi levada “aos limites” por Kubrick

Em primeiro lugar, Duvall bateu o recorde mundial de maior número de takes numa única cena: 127. “De maio a Outubro, estive sempre com problemas de saúde, por causa do stress provocado pelo papel”, confessou Duvall em The Complete Kubrick, livro publicado em 2000.

A inesquécivel interpretação de Jack Nicholson no papel de Jack não mereceu qualquer tipo de reconhecimento por parte da Academia
A inesquécivel interpretação de Jack Nicholson no papel de Jack não mereceu qualquer tipo de reconhecimento por parte da Academia

A cena em questão, que demorou uns extenuantes 127 takes a ser gravada, trata-se do famoso momento em que Jack Nicholson parte uma porta com um taco de basebol, perseguindo a personagem de Duvall pelo hotel afora, para a matar. Esta circunstância dos 127 takes faz parte do método particular de Kubrick nas gravações dos seus filmes. A produção de The Shining, por exemplo, foi muito para além dos limites planeados, forçando Duvall a ter de passar mais de um ano em Inglaterra, longe da sua família.

“Stanley empurrou-me e levou-me aos limites, muito para lá daquilo que eu alguma vez tinha experimentado.”, admitiu Shelley, anos mais tarde. Ainda em entrevista a Roger Ebert, a atriz norte-americana comparou a sua experiência em The Shining com a terapia primal de grito: “Passar dia após dia, num trabalho tão excruciante, era quase insuportável. A personagem do Jack Nicholson tinha de estar maluca e raivosa o tempo inteiro.”, referiu Duvall, falando das exigências impostas pelos papéis do filme.

“Tive que chorar 12 horas por dia, o dia inteiro, nos últimos nove meses, de forma consecutiva, cinco a seis dias por semana. Estive no estúdio um ano e um mês, e a experiência foi parecida à terapia primal do grito, porque depois do dia de trabalho acabar, e de eu ter chorado durante 12 horas, ia para casa algo relaxada. Tinha um grande efeito calmante. Durante o dia, eu estava num estado miserável.”, acrescentou.

Para piorar a situação, a verdade é que o resto da vida da atriz ficou marcada pelo filme de Kubrick, apesar de, inicialmente, esta ter, como já referido, visto The Shining como uma rampa de lançamento para uma carreira promissora. Em teoria, tinha tudo para correr bem, dado que iria poder trabalhar com um grande realizador, uma autêntica lenda do mundo do cinema.

Mas não sabia o que a esperava. E a atriz, acrescentou, anos depois, mais algumas palavras sobre o tema: “Eu perdi alguma da minha inocência com o The Shining, porque foi a primeira vez que senti que tinha de ter um advogado.”

A própria filha de Kubrick, Vivian Kubrick, veio confirmar todas estas alegações, que eram já proferidas pela própria Shelley. Tudo aconteceu no documentário The Making of The Shining, onde Vivian admitiu que o pai maltratou Duvall, de forma deliberada, ignorando e espezinhando as suas ideias e sugestões, silenciando-a, enquanto tratava Jack Nicholson, a co-estrela do filme, de forma normal.

No documentário gravado por Vivian, passado nos bastidores da produção de The Shining, podemos ver uma cena em que Kubrick pede aos outros membros da equipa do filme: “Não simpatizem com a Shelley.” Com isto, o realizador deixou a jovem atriz completamente sozinha e sem amigos, enquanto lidava com o papel mais exigente de toda a sua carreira profissional.

Outro momento do documentário mostra-nos Duvall, deitada no chão, num estado de completa exaustão. Noutro, podemos observar Kubrick a expulsar a actriz por se ter esquecido de uma sugestão dada pelo realizador. Todo este sufoco e opressão foi, como dito atrás, e confirmado por Vivian, deliberado para aumentar a insegurança na personagem de Shelley, Wendy Torrance.

O que se tem ouvido, ao longo dos anos é que, desde o primeiro dia de trabalho, Kubrick usou todas as oportunidades possíveis para castigar Shelley, sem qualquer tipo de justificação para tal, impedindo o resto dos membros do elenco de proporcionar algum conforto em situações mais tensas.

Jack Nicholson também refletiu sobre a relação profissional de Duvall com Kubrick, num documentário chamado Stanley Kubrick: A Vida em Fotografias. O ator de 83 anos chamou a atenção para os padrões duplos com os quais o realizador abordava tanto ele, como a co-estrela do filme, Shelley.

Segundo Nicholson, ele e Kubrick estavam na “mesma página”, sendo o ator tratado com respeito. Por outro lado, Duvall era constantemente criticada e deitada abaixo por Stanley.

Confirmando-se o testemunho de Shelley a Roger Ebert em 1980, tudo isto se torna problemático, pois a linha que separa a realidade da ficção começa, lenta mas progressivamente, a desaparecer. Deixamos de saber se o pânico espelhado em Wendy faz parte do enredo ficcional criado por Stanley Kubrick, ou se provém do terror, genuinamente sentido por Shelley, provocado pelo realizador.

A Wendy de Kubrick vs a Wendy de Stephen King

Stephen King sempre odiou, publicamente, a adaptação que Stanley Kubrick fez do seu próprio livro, The Shining, e também, de forma específica, o tratamento que a personagem de Wendy recebeu no filme. Nas palavras do escritor, a versão de Wendy, vista no grande ecrã, é “uma das personagens mais misóginas alguma vez vistas em filme. Ela está, basicamente, ali apenas para gritar e ser estúpida, e essa não é a mulher que eu escrevi.”

stephen king
Fonte: Mental Floss

Poderá arguir-se que Stephen King tem uma posição subjectiva sobre o assunto, na medida em que sempre odiou a versão de Kubrick do seu livro. Mas, fazendo uma comparação do livro com o filme, é verdade que a história pessoal de Wendy se perde na adaptação. A Wendy de Stephen, é, tal como a personagem criada por Kubrick para o cinema, uma dona de casa.

Mas a de King é marcada pela dor de uma vida inteira, por ter sido criada por uma mãe ressentida e punitiva, para além de ter tido de fazer o luto da sua irmã. A sua relação com Jack, no livro, é construída numa base de amor, mas também de resiliência. Wendy tem uma luta interna entre o afeto que sente por Jack e os efeitos que o álcool tem no marido.

Ao longo do livro, o instinto maternal de Wendy leva-a a proteger Danny, o filho do casal, e a lutar contra Jack. É uma mulher capaz de enfrentar, por si mesma, o seu marido instável. E é interessante perceber que, em 1982, Kubrick explica o tipo de atriz que esteve à procura para o papel da mulher de Jack, e nota-se que o realizador mostrava já sinais de que iria ter comportamentos menos positivos para com a atriz que iria interpretar Wendy.

Na altura, Kubrick explicou: “Tu não podias certamente ter a Jane Fonda a desempenhar o papel: tu precisas de ter alguém que seja tímido e vulnerável. O livro descreve Wendy como sendo sendo uma mulher confiante e atraente, mas estas qualidades levam-te a perguntar porque é que ela continuou a aturar o Jack por tanto tempo. A Shelley pareceu ser, exactamente, o tipo de mulher que casaria com Jack e que iria ficar presa a ele.” 

Analisando as palavras de Stanley, podemos perceber que este carregava, à priori, uma opinião quase negativa em torno de Shelley, vendo-a como uma mulher frágil e pouco independente, ainda antes de começar a trabalhar com ela.

Esta opinião, que o levou a escolher Duvall, levou-o depois a ter comportamentos problemáticos para com a atriz, como foi já descrito atrás. Se Shelley soubesse o que iria ter de enfrentar, talvez não tivesse aceitado o convite. É que, no final, nenhum sucesso de carreira vale mais que a preservação da nossa saúde mental.

Shelley Duvall e uma carreira em ascensão

A atriz norte-americana, no inicio da sua carreira, começou por brilhar em filmes como McCabe & Mrs. Miller (1971), Thieves Like Us (1974) e no também clássico Nashville (1975), todos realizados por Robert Altman. No ano seguinte, em 1976, aparecia em sketches do Saturday Night Live, ao lado de George Harrison e Paul Simon, com quem viveu um curto romance. Em 1977 também contracenou num dos filmes mais conhecidos de Woody Allen, a comédia romântica Annie Hall. 

Criterion Collection

Nesse mesmo ano, em 1977, o seu talento foi finalmente reconhecido. Shelley ganhou o prémio de Melhor Atriz, no Festival de Cannes, pela personagem Millie, do filme Três Mulheres, também realizado por Robert Altman. O filme foi escrito pelo realizador a pensar especificamente a atriz, mas esta foi responsável por muitos dos diálogos e entradas do diário pessoal da sua personagem.

Tudo isto leva-nos a pensar como teria sido a carreira de Duvall se Stanley Kubrick não tivesse cortado tantas falas da personagem da atriz, como referiu Diane Johnson, a co-escritora do argumento. A sua personagem teve uma presença muito reduzida em The Shining, limitando-se quase a gritos e lágrimas. O seu estatuto não sofreu danos com a estreia do filme de terror, mas nunca correspondeu ao potencial de Shelley como atriz.

A atriz contracenou com o ator Robin Williams, em Popeye, no ano de 1980.
Paramount

Foi também no ano de 1980 que saiu o filme Popeye, com Robert Altman também a assumir o cargo de realizador. Na história, Shelley interpreta Olive Oyl, naquele que muitos citam como sendo o papel da vida da atriz. É igualmente aqui que começa a amizade de Duvall com o ator Robin Williams, a outra estrela do filme. O falecido ator vai ser posteriormente lembrado pela atriz britânica, numa infame entrevista dada a Dr. Phil, em 2016.

Shelley ficou a viver em Los Angeles desde 1980. Um terramoto, em 1994, destrói a sua casa, obrigando Duvall a mudar-se para a sua terra natal, no Texas, onde tem vivido até agora, longe dos holofotes da fama, nas últimas duas décadas. O seu último papel como atriz data de 2002, na comédia Manna from Heaven, de Gabrielle Burton.

A entrevista dada a Dr. Phil em 2016

Passaram-se 18 anos desde a última vez que pudemos ver Shelley no grande ecrã, uma atriz que teve tantos papéis na sua carreira, antes de ter entrado no filme de Kubrick. Há uns anos atrás, esta paz foi estranhamente interrompida quando a atriz apareceu num episódio de Dr. Phil, o programa norte-americano em que um famoso psicólogo analisa tanto celebridades como pessoas comuns.

O episódio, na altura, foi acusado de ser uma exploração gratuita, mas a Shelley que nos apareceu foi uma mulher a precisar de ajuda. No programa em questão, disse que acreditava que o ator e seu amigo, Robin Williams, não estava morto, mas a fazer “shapeshifting”, a mudar de forma, em português. Contou também a Dr. Phil que o xerife do condado de Nottingham a andava a assediar, e que tinha um disco a zumbir dentro da sua perna.

Nos momentos finais, Shelley acaba por confessar: “Estou muito doente. Eu preciso de ajuda.” Logo depois de ir para o ar, o programa foi consideravelmente criticado nas redes sociais. Vivian, a filha de Stanley Kubrick, até montou uma campanha de solidariedade, em que se doava dinheiro para ajudar Duvall, mas pouco se sabe se a ação foi bem-sucedida.

O que é feito de Shelley?

Atualmente, estando na era da internet, se pesquisarmos por Shelley no Google, poucas ou nenhumas novidades se encontram sobre a atriz, não tendo website próprio, e nem deu sequer nenhuma entrevista, para além daquela feita em 2016 a Dr. Phil.

Ninguém tem uma memória recente da atriz, tirando aquela triste imagem com que ficámos desta, na entrevista de 2016. Uma mulher a sucumbir a traumas carregados desde há muitos anos atrás, provenientes dos tempos de The Shining. Nos dias de hoje, só nos lembramos da imagem da cara de Wendy Torrance a gritar.

Bert Stern for US Vogue, 1971

Shelley acabou por ser uma atriz engolida pelo papel, deixada completamente de lado, sem que ninguém quisesse saber, realmente, como estava a sua condição física e psicológica. Por respeito à sua história, e não podendo fazer muito mais, não coloquei imagens da atriz em The Shining, nem mesmo as famosas imagens em que esta se mostra aterrorizada no filme, pois penso que é redutor reduzir Shelley unicamente a esse papel.

Importa, sabendo agora da sua história, celebrá-la nos seus melhores momentos, em que Shelley brilha e nos agracia o ecrã, quando era realmente feliz.

Ao conhecer, a primeira vez, os pormenores de toda a história reproduzida neste artigo, pareceu-me ser relevante trazer alguma luz em torno do comportamento de Stanley Kubrick no set do seu filme de terror, para com Shelley. O artigo não tem o intuito de cancelar Kubrick, que já está morto. A cancel culture é, aliás, um tema bastante sensível de se discutir.

A verdade é que os filmes de Kubrick continuarão a ser vistos pelo mundo fora, analisados ao pormenor e adorados por alguns dos amantes do mundo do cinema. Não é isso que está aqui em causa. O que nos cabe a nós é conhecer a história, admitir que aconteceu, e aprender com os erros, para podermos corrigir algumas das nossas condutas. Em especial, no caso concreto, a nova geração de realizadores.

É preciso deixar de acreditar que levar uma atriz a um estado de exaustão física ou mental é o método certo para retirar o máximo de todas as suas capacidades. No contexto, o realizador segue para o seu próximo projeto, e quem fica com os traumas e mazelas para o resto da vida é a atriz, incapaz de prosseguir, no máximo das suas capacidades, para o próximo filme que se avizinha no seu futuro.

Temos de ser mais afetuosos. A sociedade precisa, urgentemente, de ter empatia para com o outro. Olhando para Shelley, esta tinha tudo para singrar na sétima arte. Stanley roubou-lhe essa possibilidade, usando-a como um peão para atingir um fim.

Mas não pode ser assim, não nos tempos de hoje. Temos de aprender, conviver com os erros, ouvir o testemunho dos outros, e tentarmos ser melhores.

Sendo honesto, este artigo podia ter tomado um rumo diferente, mais tradicional. Ter-me-ia dado imenso gozo reunir uma série de factos interessantes sobre os bastidores de 2001: A Odisseia no Espaço, analisar a influência de The Shining na nova era de filmes de terror ou até falar sobre um filme que Stanley Kubrick nunca conseguiu fazer, a biografia sobre Napoleão Bonaparte.

Mas hoje não é dia de celebrar Stanley Kubrick, que tem direito a mil e uma homenagens, o resto do ano inteiro. Relembremos, e celebremos, nem que seja por um único momento, Shelley Duvall.

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