Um retrato de Emily Brontë.
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Emily Brontë: a vida para além de O Monte dos Vendavais

A autora escreveu poesia, tocava piano e também pintava.

Emily Brontë, a autora do clássico O Monte dos Vendavais, nasceu em Inglaterra, no dia 30 de julho de 1818. A escritora ficou também conhecida por ter publicado, em conjunto com as irmãs, Charlotte e Anne, um livro de poesia, Poemas por Currer, Ellis e Acton Bell, os iniciais dos seus pseudónimos. Nesta quinta-feira (30) celebram-se os 202 anos do seu nascimento. 

As tragédias iniciais na vida de Emily

Emily Jane Brontë nasceu em Thornton, Inglaterra e usou, ao longo da vida, o pseudónimo Ellis Bell. Pouco se sabe do seu passado, dado que era uma jovem reservada ao silêncio, não deixando para trás qualquer correspondência de interesse. O único livro publicado, a titulo próprio, adensa ainda mais o mistério sobre os detalhes da vida de Emily.

Filha de Patrick Brontë e Maria Branwell Brontë , era a quinta de seis crianças da família. Perdeu a mãe muito cedo na sua vida, pouco depois da irmã mais nova, Anne, que também se tornou escritora, ter nascido. Dado este evento, a tia materna de Emily, Elizabeth Branwell, tomou a responsabilidade de ser “mãe” e cuidadora da família, vindo em sua assistência.

A família Brontë voltou a ter de enfrentar uma nova tragédia, quando as duas irmãs mais velhas de Emily, Elizabeth e Maria, morreram ambas de tuberculose. Depois deste acontecimento, o pai de Emily tomou a decisão de manter as filhas em casa, ao invés de as mandar novamente para a escola.

A poesia na vida das irmãs Brontë

Talvez tenha sido esta mudança de eventos que ajudou Emily e as suas duas irmãs, Charlotte e Anne, a tornarem-se escritoras, dado que o seu tempo livre era agora, na sua maior parte, passado em casa, a ler e a trocar ideias. Relata-se que Emily, Charlotte, Anne, o irmão e até o pai, tinham todos uma grande capacidade de imaginação e criatividade.

Emily Brontë e as irmãs, com o título das suas principais obras, por baixo.
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Ao longo da vida, Emily escreveu perto de 200 poemas, mas apenas uma pequena parte destes foram publicados enquanto era viva. Quem descobriu alguns destes poemas foi Charlotte, em 1845, e revelou-se, posteriormente, que as três irmãs, Charlotte, Emily e Anne, tinham já muitos poemas escritos.

No ano seguinte, como referido, as três publicaram um livro conjunto de poesia, Poemas por Currer, Ellis e Acton Bell, que continha 21 poemas de Emily. Os pseudónimos escolhidos são masculinos, porque as irmãs pensavam que a obra, sendo escrita por homens, seria mais popular. Esta aventura das irmãs custou-lhes perto de 55 euros, e foram só vendidas duas cópias. A publicação apenas foi alvo de três anónimas criticas, que focaram especialmente as contribuições de Ellis Bell, o pseudónimo de Emily.

O escritor de uma das críticas, publicada a 4 de julho de 1846, notou o seu “bonito espírito singular” e assegurou que esta tinha “coisas para falar que os homens iam gostar de ouvir, demonstrando um evidente poder de asa que poderá atingir outras alturas, não tentadas ainda neste livro.”, escreveu o crítico, referindo-se ao potencial que Emily apresentava na escrita, e especulando o sucesso que esta poderia atingir, mais tarde, durante a carreira.

A morte precoce

A escritora era popularmente vista como uma mulher “estranha”, nunca conseguindo sair do isolamento em que tinha sido colocada. Vários foram os mitos e mistérios criados em torno de Emily, sendo que, para ajudar a isto, pouco se sabe acerca dos últimos anos da vida.

Da pouca coisa que se conhece é que a sua família continuou a ser aterrorizada por eventos trágicos, a envolver doenças. Patrick, o pai, quase ficou cego por causa de um problema com cataratas, e o irmão, Branwell, morreu de tuberculose, em setembro de 1848.

A autora de O Monte dos Vendavais tinha começado a trabalhar num novo livro pouco antes da morte do irmão. A própria Emily ficou doente de tuberculose, depois de ter apanhado uma constipação no funeral de Branwell e recusou ajuda médica em outubro do mesmo ano. Acabou por morrer aos 30 anos, poucos meses depois, a 9 de dezembro.

Anne começou a demonstrar os mesmos sintomas mas, tendo a experiência de Emily na memória, procurou ajuda médica. Charlotte e a sua amiga, Ellen Nussey, levaram Anne para Scarborough, tendo em vista um melhor ambiente, mas Anne acabou por morrer aí em maio de 1849, menos de um mês depois de ter chegado. Branwell e Emilly estão enterrados junto da família, na Igreja de Haworth. O corpo de Anne está sepultado em Scarborough.

O legado

O Monte dos Vendavais, o único livro publicado de Emily, foi várias vezes adaptado para o teatro, cinema e televisão, mantendo o estatuto de clássico da literatura mundial. Os especialistas não sabem precisar quando é que o livro foi escrito, ou quanto tempo é que Emily o demorou a escrever. Existiram também opiniões no sentido de que o autor real do livro tinha sido o irmão, mas a teoria foi, desde cedo, desmontada, e confirmada pela própria Charlotte.

Pouco menos de 100 anos depois da morte de Emily, a sua colecção de perto de 200 poemas viu, finalmente, a luz do dia. O responsável foi C. W. Hatfield, que os publicou numa edição coleccionadora, The Complete Poems of Emily Jane Brontë, em 1941. A escritora é também citada como sendo uma das maiores fontes de inspiração para Emily Dickinson, a famosa poetisa.

Emily tinha jeito para arte

Tal como o irmão Branwell e as irmãs Charlotte e Anne, Emily era uma artista competente. Recebeu algumas lições básicas de John Bradley, um artista local de Keighley, por volta da década de 30 do sec. XIX, mas Emily captou sozinha a maioria das técnicas, aprendendo a desenhar ao copiar imagens de manuais e desenhos populares da época.

A História dos Pássaros Britânicos, o livro de Thomas Bewick, publicado em 1797, é referenciado no inicio de Jane Eyre, o clássico livro publicado por Charlotte Brontë. Na história, Jane está a ler esse mesmo livro sentada ao pé de uma janela. Constata-se que a obra de Thomas Bewick era uma popular fonte de inspiração na casa dos Brontë. Sabe-se que Emily copiou uma série de imagens do livro, incluindo dois desenhos a lápis de pássaros das charnecas.

Emily também era confiante ao ponto de experimentar diferentes formas de expressar a sua veia artística. Fez, por exemplo, 29 ilustrações que incluíam uma série de esboços a tinta e caneta, algumas pinturas, particularmente aguarelas, gravuras e até exercícios de geometria.

Uma das suas mais conhecidas peças é uma aguarela de 1841, da sua ave rapina de estimação, chamada Nero, nome dado, presumivelmente, porque os seus modos selvagens deveriam de evocar os do imperador romano.

O desconhecido e ficcional mundo de Gondal, criado por Emily e Anne

Apesar de Emily ser largamente conhecida pelo seu único livro, O Monte dos Vendavais, a maior parte da sua força criativa foi direccionada para a construção de Gondal, uma ilha imaginária localizada no Oceano Pacífico, liderada exclusivamente por mulheres.

Emily e Anne criaram uma série de poemas, bastante elaborados do ponto de vista narrativo, onde descreveram as dinastias das famílias que viviam em Gondal e as batalhas políticas que existiam. Uma personagem, chamada Augusta Geraldine Almeida (conhecida nos poemas como A.G.A) parece ser a protagonista de Emily, sendo portadora de uma grande beleza, e era cruel em todos os seus assuntos políticos e pessoais.

Tristemente, nenhum registo substancial das épicas fantasias escritas pelas irmãs sobreviveu no tempo, mas salienta-se o facto de os poemas de Emily, publicados em Poems by Currer, Ellis e Acton Bell, serem baseados nos escritos em torno de Gondal.

Aliás, numa das biografias feitas da vida de Emily, refere-se que a jovem retirou, antes da publicação do livro, todas as referências a Gondal dos poemas que iriam para a obra, de modo a que pudessem ser considerados, individualmente, versos poéticos por si só.

Emily também tinha dotes de pianista

Todos sabemos que Emily foi uma grande escritora, mas também foi uma muito elogiada pianista. Ellen Nussey, uma amiga da familia Brontë, era uma visitante regular da sua casa, em Haworth, e disse, a certa altura, que Emily tocava no piano da família com “precisão e brilho.”

A sala de estar da propriedade dos Brontë em Haworth.
©Just Paget / Country Life Picture Library

Os livros musicais de Emily revelam que esta conseguia tocar sinfonias de Beethoven, Mozart, Handel e Haydin, e as suas partituras demonstram como ela anotava as peças, de modo a poder aprender as notas. É então provável que o amor que Emily nutria pela música tenha sido a razão pelo aparecimento da banda de Gimmerton, em O Monte dos Vendavais.

A banda era constituída por um trompete, um trombone, clarinetes, trompas, uma viola da gamba, para além de cantores. A personagem de Nelly conta-nos, numa passagem: “Eles fazem rondas por todas as casas respeitáveis, e recebem contribuições em todos os Natais… e consideramos um deleite de primeira-classe o facto de os podermos ouvir.”

A autora passou algum tempo na Bélgica

Em 1842, Emily Brontë e a irmã Charlotte, viajaram juntas para Bruxelas, de modo a poderem estudar na Pensionnat Héger, um centro educacional para jovens mulheres. As irmãs queriam continuar a sua aprendizagem e melhorar as habilidades em torno da linguagem.

Foram ensinadas por Constantin Héger, o tutor que provocou, presumivelmente, em Charlotte, o aparecimento de alguns sentimentos amorosos. As coisas, porém, não correram bem dado que a irmã, Emily, não gostava dos seus métodos de ensino, como, por exemplo, pedir às irmãs para compor ensaios e respostas a variados tópicos e temas escolhidos por ele mesmo.

Porém, pouco tempo depois de Emily ter falecido, Héger falou sobre esta com carinho, dizendo que ela “devia ter sido um homem, um grande navegador”, e que via o “lado genial” nos seus escritos. Héger preservou algum do trabalho de Emily, que foi traduzido em estudos académicos sobre as irmãs Brontë.

Já se sabe que a primeira publicação das irmãs Brontë não foi um sucesso do ponto de vista comercial e financeiro. Apesar do fiasco, as irmãs estavam determinadas a alcançar uma carreira literária de sucesso, de modo a poderem ter alguma estabilidade económica, depois da morte do pai. Inspiradas pelas boas críticas publicadas em reacção ao livro de poesia, as irmãs apressaram-se a escrever os seus primeiros livros em nome próprio.

O Monte dos Vendavais foi publicado em dezembro de 1847, por Thomas Cautley Newby, e foi inicialmente dividido em dois volumes, ao lado do livro de Anne, Agnes Grey. Mas, a verdade é que os dois livros foram inicialmente rejeitados por várias editoras, antes de Newby aparecer em cena. Para que os livros fossem publicados, as irmãs tiveram que pagar cerca de 55 euros.

O segundo livro que nunca viu a luz do dia

Como antes dito, presume-se que Emily estava, no ano da morte do irmão, a trabalhar num segundo livro. É essa a impressão com que ficamos da leitura de uma carta enviada por Newby a Emily, encontrada muitos anos depois da morte da última.

A carta, datada de 15 de fevereiro de 1848, um ano depois de O Monte dos Vendavais ter sido publicado, é endereçada a Ellis Bell, o pseudónimo de Emily. Nela, Newby refere que tem um grande prazer “em fazer os arranjos para o seu próximo romance”. O editor sugeriu a Emily que não se apressasse na escrita do segundo livro, mostrando-o ao mundo “apenas quando se sinta completamente satisfeita com ele, porque há muita coisa a depender deste próximo trabalho.”

Newby chega ao ponto de dizer a Emily Brontë que, se o segundo livro for ainda melhor que o primeiro, esta tornar-se-ia numa romancista de primeiro nível. Thomas remata a carta, mostrando a sua disponibilidade em aceitar o próximo trabalho de Emily, assegurando que entende que só estará pronto no “próprio tempo” de Emily.

Os planos nunca foram para a frente. Nenhum manuscrito original do segundo livro foi encontrado ao fim destes anos todos, sendo que muitos especulam que Charlotte o tenha destruído, junto de muitos outros materiais de Emily, depois da morte da sua irmã.

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