Prémios PLAY
Fotografia: PLAY – Prémios da Música Portuguesa

Opinião. As melhorias notáveis e o longo caminho a percorrer dos PLAY

O Espalha-Factos analisa a segunda edição dos Prémios PLAY. A gala que visa premiar música portuguesa foi apresentada por Filomena Cautela e Inês Lopes Gonçalves.

A segunda gala dos PLAY – Prémios da Música Portuguesa decorreu esta quarta-feira (29), no Coliseu dos Recreios. Ao longo de quase três horas de emissão por parte da RTP1, foram premiados os nomes cujo trabalho desenvolvido na música portuguesa marcou o ano de 2019.

Adiada de março para julho devido à pandemia da COVID-19, eram vários os desafios que a organização encontrava para conseguir apresentar um produto que agradasse ao telespectador. Apresentada por Inês Lopes Gonçalves e Filomena Cautela, a gala marca um passo na direção certa para os PLAY, apesar de ainda existir um amplo espaço para melhorias.

Uma gala com toque de sensibilização

E assim, pouco depois das 21h, dava-se início à gala com a excelente atuação por parte de Lena d’Água, do seu tema Grande Festa. Mas já lá vamos. Antes do início da transmissão, foi emitida uma pequena peça que assinalava os 130 anos do Coliseu dos Recreios. Além de homenagear o local, são também lembrados os trabalhadores do local que, durante a pandemia, ficaram sem a possibilidade de exercer o seu ofício.

Não será a primeira vez durante a noite que ocorre a sensibilização para o estado da comunidade artística durante estes meses de pandemia. Não nos podemos esquecer que por trás de um artista, existem muitas outras caras que são extremamente importantes para que tudo corra bem num espetáculo. Técnicos de iluminação, roadiesstage managers e muitos outros sofreram grande impacto na sua vida com o cancelamento em massa dos espetáculos devido ao coronavírus.

No seu papel como sensibilizadora, a organização esteve muito bem. Além das várias sequências com mensagens de artistas e outros intervenientes da área do espetáculo, o valor acumulado das chamadas efetuadas para as votações do prémio Vodafone Canção do Ano reverteu para o fundo de solidariedade para com a cultura, criado pela AUDIOGEST, GDA – Gestão dos Direitos dos Artistas, Santa Casa da Misericórdia e GEDIPE. O fundo tem o objetivo de apoiar os profissionais da área do espetáculo.

Os PLAY para chamar à atenção dos problemas sociais e culturais em Portugal

Foram várias vezes ao longo da noite que se fez ouvir ‘drinks’, bebidas no nosso português, em resposta às declarações de Graça Fonseca, Ministra da Cultura, efetuadas quando confrontada com o questionamento face à falta de apoios à cultura portuguesa. Foram vários os presentes na gala que sublinharam esta falta de intervenção por parte do Governo e Ministério da Cultura para com a situação da comunidade artística portuguesa no contexto da pandemia.

Citando Pedro Abrunhosa, “queremos uma cultura de dignidade e não de caridade. Uma cultura com menos drinks e mais medidas”, recebidas com uma ovação geral por parte da plateia, plateia essa posicionada de forma a respeitar as medidas de segurança impostas pela Direção Geral da Saúde (DGS). Ainda durante a fase inicial, as apresentadoras referiram as medidas impostas para que tudo corresse como planeado.

Branko
Na aceitação do prémio de Melhor Videoclipe, Branko referiu que “Racismo, existe, sim. Em Portugal”, em reação às várias declarações efetuadas por muitos portugueses em resposta ao assassinato de Bruno Candé. Fotografia: PLAY – Prémios da Música Portuguesa

Mas a falta de apoio à cultura portuguesa não foi o único tipo de intervenção deste género durante a gala. O racismo que vitimou o ator Bruno Candé não foi esquecido. Se Dino d’Santiago começou por relembrar o crime horrendo e prestou solidariedade para com a família do ator, foi Branko que efetuou a declaração que deve de ficar na memória de todos. “Racismo, existe, sim. Em Portugal. E depende de todos nós fazermos o que for preciso para mudar isso. Portanto, é hora de começar.” O cantor Diogo Piçarra também usou uma camisola inscrita com Black Lives Matter durante a sua atuação com Ana Bacalhau e durante a gala.

Nota positiva para as melhorias nas atuações

Na componente das atuações, notou-se uma melhoria significativa em relação ao ano passado. Este ano, devido à pandemia, estas foram gravadas nos dois dias anteriores como parte do cumprimento das orientações emanadas pela DGS.

As transições da gala em si para as atuações foram, na sua generalidade, bem conseguidas. Notou-se o cuidado da produção em tentar que a gala aparentasse ter a máxima fluidez para o telespectador. E falando em produção, as próprias atuações melhoraram nesse aspeto. Olhe-se para o exemplo da atuação de Lena d’Água, que abriu a gala em formato de grande festa. Com a ajuda da sua banda, de vários dançarinos e dos figurinos do videoclipe de Grande Festa, foi o primeiro sinal de que este ano houve um maior cuidado e criatividade para a criação destas atuações.

Apesar da realização nem sempre estar no ponto, a incorporação dos duetos foi uma excelente adição à gala. Trouxe uma maior dinâmica ao espetáculo e abriu portas para a criação de momentos especiais e particularmente criativos, como o caso do dueto surpreendente entre Pedro Abrunhosa e Profjam, que acabou por fechar a gala numa nota positiva. Esta atuação é a prova do quão bem pode funcionar estas junções criativas quando existe respeito e admiração mútua entre os dois artistas.

No entanto, é um pouco estranho que, depois de anunciado o vencedor do prémio Vodafone Canção do Ano, último a ser entregue, que aconteça de seguida uma atuação que não possui qualquer conexão ao prémio. Apesar das circunstâncias não o permitirem, seria bom que começasse a ser pensado de forma séria que o fecho da gala deveria de ser com a atuação do vencedor. É algo que possibilita muito mais a sensação de fecho da transmissão do que o que ocorreu este ano ou o ano passado.

No geral, o nível das atuações aumentou face ao ano passado. Destaca-se ainda, pela positiva, a atuação intimista de Diogo Piçarra e Ana Bacalhau de Erro Mais Bonito, a lindíssima homenagem prestada a José Mário Branco por parte de Camané e Mário Laginha e o cenário todo criado durante a atuação de Papillon com Murta, com a incorporação de dançarinos e banda.

Uma gala que peca pela sua aparente desorganização

Filomena Cautela e Inês Lopes Gonçalves continuam a mostrar a sua excelente química como equipa para este tipo de cerimónias, mas acabem por sofrer devido não só à situação em que vivemos, mas também a um guião algo sofrível.

Se na gala do ano passado um dos grandes pontos fortes foi a interação entre as apresentadoras e os artistas e público presente no Coliseu, este ano tal não se verificou. Notou-se alguma dificuldade em criar um à vontade entre todos os presentes na sala, apesar do esforço notado para que tal acontecesse. O resultado é as interações soarem algo forçadas e em nada natural. Basta olhar para o exemplo de quando Inês Lopes Gonçalves passeou pelo meio dos artistas a distribuir vários olás”, notando-se uma certa estranheza por parte de todos os intervenientes.

No geral, é de louvar a tentativa para tentar que as coisas decorressem normalmente, mas talvez fosse necessária uma outra abordagem. Pegando num exemplo rápido de como poderia-se ter feito algo diferente, a meio do programa é revelado que existe uma chamada Zoom com vários telespectadores. No entanto, além da revelação, nada é feito com a chamada durante a transmissão. Podia ter sido uma oportunidade para criar interações especiais e inovadoras com o público, abrindo caminho para outro tipo de experimentações no futuro para este tipo de eventos.

Lena d'Água
Lena d’Água foi uma das grandes vencedoras da noite, levando para casa dois prémios: Melhor Artista Feminina e Prémio Crítica. Fotografia: PLAY – Prémios da Música Portuguesa

Numa nota ainda mais negativa, a organização da gala continua a precisar de claras melhorias. Em termos de realização, como já referido, houve algumas falhas, especialmente durante as atuações, mas não tantas quantas os problemas que ocorreram com o voz-off. Durante a gala, foram vários os momentos em que estes aconteceram, especialmente em alturas de transição. A sequência de eventos não parecia estar no ponto, tendo até a própria Filomena de brincar um pouco, quando anunciou uma atuação uns segundos antes do que seria suposto acontecer.

São este tipo de situações que têm mesmo de ser evitadas. É preciso um cuidado ainda maior se os PLAY querem continuar a melhorar e a ganhar espaço como produto televisivo. Ainda no contexto da organização da gala, a ordem da entrega dos prémios voltou a deixar algo a desejar. Apesar de algumas ligeiras alterações, a gala, tal como aconteceu em 2019, iniciou-se com a atribuição de alguns dos prémios mais desejados da noite. Isto faz com que haja uma possibilidade maior de o telespectador perder o interesse pelo espetáculo à medida que esta vai avançando. É preciso criar um equilíbrio, mas não é muito complicado concluir que, se o prémio de Melhor Grupo ou Melhor Álbum tem a oportunidade de criar mais furor no público, então é um trunfo que deve de ser deixado mais para o seu fim.

Por outro lado, e numa nota extremamente positiva, os apresentadores dos próprios prémios, constituídos por pessoas do mundo da música portuguesa, foram uma enorme melhoria face ao ano passado. Notou-se o cuidado na preparação e ensaio dos discursos, que não só soaram mais espontâneos e naturais, mas que premiaram pela boa escolha de palavras. Nota, também, para este ano terem filmado os intervenientes em cada prémio aquando do anúncio do vencedor, permitindo capturar a emoção de cada artistas, mesmo que escondida atrás de uma máscara.

A (falta) de gestão de redes dos PLAY

A introdução de Hugo Van der Ding como correspondente das redes sociais devolveu resultados mistos. Apesar de trazer uma energia positiva e, certamente, bem diferente à gala, o seu papel acabou por ficar posto de parte à medida que a noite avançava. Se isto acabou por ser uma indicação da produção, não se sabe. O que ficou um pouco a pairar no ar é que, apesar da sua muito boa disposição, acabou por acrescentar muito pouco à gala em em termos de conteúdo.

Uma busca rápida leva-nos a encontrar que Hugo fez entrevistas aos vencedores dos prémios. Porque é que este conteúdo não foi apresentado durante a gala? Podiam até ser em formato de entrevistas rápidas, que à posteriori, seriam disponibilizadas na íntegra nas redes sociais dos PLAY, mas teriam sido um tipo de conteúdo que acrescentaria muito valor à transmissão.

Outro problema é a falta de disponibilização das atuações no Youtube oficial dos PLAY e nas suas redes sociais. Já no ano passado, aconteceu esta falha, e ao que tudo indica, vai voltar a acontecer este ano. O Festival da Canção, outro dos programas da RTP que partilha algumas similaridades com os PLAY no formato, melhorou muito neste aspeto na edição deste ano, e seria de esperar que os PLAY tivessem retirado lições. A gala pode ser vista na íntegra no canal de Youtube ou na RTP Play. No entanto, e apesar destes problemas durante e depois da gala, a divulgação este ano foi extremamente bem feita, conseguindo que se gerasse furor sobre os prémios nos dias antes da sua transmissão.

Por último, referência ao Coliseu dos Recreios. Nota-se que a sua disposição em pouco ou nada acrescenta às atuações, tornando até mais difícil a tarefa dos realizadores em conseguirem captar tudo o que está a acontecer em cima de palco. Já o ano passado se havia feito notar e este ano, com a incorporação dos figurinos nas atuações, acentuou-se ainda mais este problema. A organização podia começar a olhar para uma alteração, pois é sabido que o próprio Coliseu dos Recreios tem espaço limitado para este tipo de eventos.

Em suma, nota-se que a organização está a tentar que os PLAY melhorem como produto televisivo. Ainda há um longo caminho a percorrer, especialmente no que diz respeito ao cuidado com a estrutura da gala e à gestão de redes dos prémios, mas os ingredientes estão lá. Só precisam de ser bem polidos. A música portuguesa merece.

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