“Aproveitem a vida”. Há 10 anos, partia António Feio

Popularizado na 'Conversa da Treta', completou uma vasta carreira como ator e encenador

Assinalam-se hoje dez anos desde que partiu António Jorge Peres Feio, vítima de um câncro no pâncreas, que lhe havia sido diagnosticado há ano e meio. Com uma veia artística a pulsar desde tenra ideia, cedo se tornou um ídolo para a juventude, acabando, mais tarde, por contribuir para uma maior democratização do teatro.

Nasceu a 6 de dezembro de 1954, em Lourenço Marques, Moçambique. Aos sete anos de idade, veio para Lisboa com a família. Influenciado pela mãe, que nesse momento estava em cena no Teatro Experimental de Cascais, começa a explorar a veia artística. A estreia acontece, aos 11 anos. “Eu às vezes ia aos ensaios e surgiu um convite para fazer um espetáculo infantil, no Carnaval, e foi uma primeira experiência que eu tive. Como parece que a coisa correu bem, dias a seguir ia fazer ‘O Mar’ de Miguel Torga”, revelou no formato de entrevistas da RTPHá Conversa, conduzido por Maria João Gama.

Tornou-se um ídolo da juventude muito novo – “Nessa altura não havia propriamente atores jovens”. Entre os 11 e os 14 anos, participou em diversas campanhas publicitárias. Por essa altura, entrou, como um dos protagonistas, no folhetim da RTP, Gente Nova: “Era uma história que andava à volta de uma família e eu fazia de um dos filhos, um miúdo”.

Com 14 anos, regressa a Moçambique. “Pensei que, se calhar, pudesse continuar um bocado a minha atividade que tinha começado cá, só que lá havia muita pouca coisa. Havia um ou dois grupos de teatro”, confessa na entrevista. O regresso a Portugal dá-se num novo cruzamento com a companhia de Carlos Avillez.

“Mais tarde, outra vez com o Carlos Avillez e com o Teatro Experimental de Cascais, participei numa digressão que eles fizeram em Moçambique, que eu andei com eles na digressão toda e depois tive o convite do Carlos Avillez de voltar para o Experimental de Cascais e regressar a Lisboa”. Exatamente no dia 25 de abril de 1974, o ator tentava regressar a Portugal.

Quando António Feio saiu do Teatro Experimental de Cascais, tentou fundar uma companhia com o colega Fernando Gomes. “Ainda fizemos um espetáculo, mas era um espetáculo que fazíamos em pequenas coletividades, os bilhetes eram muito baratinhos, aquilo não dava para sobreviver e, ao fim de alguns meses, tivemos de abandonar a ideia e procurar trabalho noutras companhias com outra dimensão”.

“Fiz muita rádio, folhetins radiofónicos na Emissora Nacional, fiz cinema também, fazia muitas peças de teatro também. Havia uma grande tradição na RTP que eram as noites de teatro”, resumia no programa da estação pública.

Os tempos áureos da Conversa da Treta

Conversa da Treta
A peça converteu-se também em programa na SIC

A amizade com José Pedro Gomes cresceu em tenra idade – “já é quase desde os meus 15 anos”“Ele fazia um espectáculo de café-concerto [no Teatro da Comuna] e eu achava-o um ator muito giro. Depois encenei uma peça na Casa da Comédia chamada ‘Pequeno rebanho não desesperes’. O Zé Pedro foi ver e não gostou nada e daí partiu a nossa amizade”, contava o ator em Aproveitem a Vida, o livro lançado postumamente, resultado de uma entrevista concedida, quinze dias antes de morrer, à editora Maria João Costa.

A estreia como dupla humorística acontece no Clubíssimo, em 1988, na estação pública. A partir daí, cruzaram-se em diversos projetos. “O embrião de ‘A Conversa da Treta’ foi criado a partir de horas de conversa entre ambos; nenhum deles encontrava grande interesse no que andava a fazer e queriam criar um conceito que reaproximasse o público do teatro e que permitisse digressões por todo o país”, conta o Observador.

Em 1997, a peça que popularizou a dupla estreava no Auditório Carlos Paredes, em Lisboa. O sucesso foi imediato e levou-os a fazer digressão pelo país. “Percebemos que havia pessoas que nunca tinham ido ao teatro antes da ‘Treta’ e que outras não iam há 20 anos”, revelou a produtora Sandra Faria ao Observador. “Ele e o Zé Pedro estiveram na vanguarda da reconciliação dos portugueses com o teatro”, acrescentava a filha, Bárbara Feio. Dado o êxito do projeto, a peça acaba por ser adaptada à televisão, à rádio e ao cinema.

“O sucesso foi instantâneo; derivava não só da identificação do público com aqueles dois personagens populares e da aguçada sátira social, como também da grande cumplicidade entre António e Zé Pedro, que resultava em improvisos delirantes”.

“Estou cá para dar cabo do bicho”

António Feio

No dia 23 de abril de 2009, António Feio revelava, assim, em direto na SIC, que lhe tinha sido diagnosticado, um mês antes, cancro no pâncreas. “O humor tem ajudado e essa é a minha grande arma. Se pudesse, matava o bicho a rir”, afirmava, em outubro do mesmo, numa entrevista com Judite de Sousa na RTP1.

Depois de uma semana de internamento no Hospital da Luz, António Feio partia às 23 horas e 25 minutos do dia 29 de julho de 2010, com 55 anos. Deixava, para além de quatro filhos – Sara, Bárbara, Kiki e e Filipe -, um enorme legado, “que, para além do teatro, passa por televisão, pelo cinema, pelas dobragens, pelas traduções, pela rádio e pela encenação”, fazia questão de enumerar Maria João Gama no Há Conversa.

A positividade com que sempre encarou a sua vida, mesmo na última fase, ficou plasmada no livro Aproveitem a Vida. “A mensagem principal que quero deixar às pessoas é que se há um problema é preciso resolvê-lo da melhor maneira, há que não ficar quieto, há que tentar de tudo primeiro, nunca desistir”, recomendava. A obra, que chegou ao mercado no início de setembro desse ano, liderou o top de livros mais vendidos.

Capa do livro ‘Aproveitem a Vida’

Vários colegas e amigos de António Feio juntaram-se para lhe prestar homenagem, seis anos após a sua morte, no espetáculo Quem Feio Ama, que aconteceu a 26 de janeiro de 2016, no Centro Cultural de Belém. As receitas obtidas reverteram a favor da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos.

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