Fotografia: Divulgação

Crítica. ‘folklore’ é a maior afirmação artística de Taylor Swift até hoje

2020 está a ser um ano que nos tem trazido muitas surpresas no mundo da música. Mas, com certeza, ninguém estaria preparado para o anúncio efetuado pela cantora norte-americana Taylor Swift, na passada quinta-feira (23), nas suas redes sociais.

Numa publicação, a cantora anunciava de surpresa folklore, título do seu oitavo álbum de estúdio. O disco seria lançado ao mundo no dia seguinte,24 de julho. O Espalha-Factos ouviu e analisou a qualidade do novo trabalho de uma das gigantes da pop mundial.

Um álbum inesperado com uma sonoridade inesperada

folklore é um disco que não constava nos planos da cantora para este ano. “Maior parte das coisas que planeei para este este verão não aconteceram, mas há algo que não estava [planeado] e aconteceu”, referiu Swift na publicação em que anunciava o seu novo trabalho. A cantora planeava passar o verão de 2020 na sua tour de promoção em torno do seu último disco, Lover, lançado em 2019.

Quando observamos a capa do disco, constituída por uma foto bastante etérea da cantora no meio de uma floresta assinada por Beth Garrabrant, e para o título do disco, torna-se óbvio que estamos perante uma (outra) mudança de estilo por parte de Swift. O que folklore acaba por ser é um álbum que nos revela, de forma total, a cantautora que é Taylor Swift.

Talvez tenha sido o facto da criação do álbum ter acontecido sobre segredo, até da própria editora de Swift, que leva a que folklore soe tão cru e real. Tem de prover de um local muito honesto na mente criativa de Swift e sem as expectativas para criar algo à sua volta; a cantora simplesmente libertou-se e criou o álbum que pretendia.

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A capa de folklore transmite perfeitamente a magia que está por detrás da sonoridade folk do disco. Fotografia: Divulgação

Claro que, analisando a carreira da cantora, nota-se que estas influências das grandes cantautoras sempre estiveram presentes, de uma forma ou outra, na música de Swift. Mas nunca com este nível de profundidade. Apesar de estarem um pouco postas de parte em 1989 e Reputation, trabalhos em que a cantora abraçou totalmente o seu lado pop, em Lover já se fazia notar o regresso destas influências, que outrora se fizeram notar de forma mais predominante seus trabalhos de início de carreira, enraizados na música country nos aclamados Speak Now e Red.

Logo na abertura do disco, é-nos apresentado como irá soar folklore durante a sua duração, através da faixa ‘the 1’. Conhecemos uma Taylor diferente, uma que não soa interessada em criar grandes hinos pop. Uma Taylor despida, mais real. O foco não é a criação de grandes refrões que fiquem presos na cabeça do ouvinte, mas sim a voz de Taylor, a instrumentação sublime e delicada e as histórias que a cantora nos apresenta.

Uma sensibilidade pop que não desapareceu

Mas isto não é para dizer que a sensibilidade pop a que nos habituou desapareceu de forma total. Ao longo do disco, são vários os momentos que encontramos que nos retratam para esse lado da artista, mesmo que agora esteja ligeiramente mais contido.

Olhe-se para ‘betty’, uma faixa que nos relembra dos dias em que Swift era uma cantora country, mas com um toque mais folky nos seus arranjos e instrumentação, acabando por soar mais refinada e matura. E não podemos deixar de referir ‘my tears ricochet’ e ‘this is me trying’, dois dos refrões mais bem conseguidos do disco. A primeira é um dos grandes destaques do álbum: começa bastante introspetiva, mas à medida que a faixa avança, começa a crescer através da adição gradual de instrumentação, atingindo o pico quando Swift demonstra todo o seu potencial como vocalista, efetuando um grito hipnotizante e algo distante.

São várias as vezes ao longo do disco que Taylor Swift usa a sua voz para grande efeito. Não que a cantora alguma vez tenha tido medo de a usar, mas aqui soa mais crua e real, e, associada aos instrumentais delicados e extremamente bem trabalhados, há um grande impacto causado no ouvinte. Muito disto vem não só do trabalho que Taylor colocou na criação deste disco, mas da lista algo surpreendente de colaboradores que a artista recrutou.

A lista de colaboradores inesperada mas certeira

Encabeçada por Aaron Dessner, guitarrista dos The National, que é o principal produtor do disco e co-escritor de onze das dezasseis faixas, a lista inclui ainda o já habitual colaborador de Taylor Swift, Jack Antonoff, presente em seis faixas, William Bowery, que parece que ninguém sabe bem quem é – exceto a própria Taylor – e o cantautor americano Bon Iver.

Este último surge na faixa ‘exile’, uma das peças centrais do disco, para a criação de um dueto intimista. Existe uma química muito interessante entre Swift e Iver e a junção das suas vozes acaba por funcionar muito bem. Transmitem emoções de tristeza e uma certa saudade, enquanto assumem o papel de dois ex-amantes que se voltam a encontrar. A história contada por ambos é complementada por um instrumental delicado, assentado no piano tocado por Aaron Dessner, ao qual se vão juntando cada vez mais instrumentos até chegar ao clímax emocional e instrumental da faixa.

Tocando no assunto da história contada em ‘exile’, é necessário referir o que Taylor Swift conseguiu explorar em termos líricos neste disco. De facto, os temas sobre os quais a cantora sempre escreveu estão aqui presentes. Canta-se sobre o amor e desamores, sobre a sua própria vida. No entanto, o seu jogo de palavras está mais enriquecido e emocional, mais relacionável. Até mesmo – e isto acontece várias vezes ao longo da obra – quando a música nos leva por locais e personagens criadas por Swift, servindo estas de veículo para as suas emoções, como se de um sonho se tratasse. Basta olhar para ‘the last great american dinasty’, faixa que, além de um excelente instrumental, possui uma das melhores histórias que Swift já contou num álbum.

A dinâmica criada entre Jack Antonoff e Aaron Dessner

Ao longo do disco, um exercício engraçado de se fazer é tentar distinguir quais são as faixas que contam com produção de Dessner ou Antonoff, respetivamente. E acaba por ser algo simples de conseguir.

Quem conhece o trabalho que Jack Antonoff tem desenvolvido como produtor, saberá o que esperar aqui. Faixas espaçosas, reverb muito bem utilizado, instrumentais que carregam um certo grau de nostalgia e beleza. Por exemplo, na faixa ‘august’ – que em momentos nos faz lembrar Lana Del Rey particularmente no seu último disco, Normal Fucking Rockwell, produzido pelo próprio Antonoff. Ou em ‘mirrorball’, aquela que será uma das faixas mais surpreendentes deste trabalho, com o seu instrumental muito mais próximo do indie folk de uma Phoebe Bridgers ou de uma Julien Baker. Não é algo que esperaríamos de Taylor Swift, mas que acaba por ser cumprido de forma exímia, tudo enquanto canta sobre as várias personalidades que adotou ao longo da sua carreira.

As faixas produzidas por Dessner possuem um toque mais delicado. Não que falte esse toque às de Antonoff, longe disso. Mas nota-se que a sonoridade mais intimista com a qual Dessner tem trabalhado ao longo da sua carreira, tanto como membro dos The National como nos outros projetos em que esteve envolvido, é que leva Swift a chegar a locais na sua música que ainda hão havia chegado. É mérito da cantora ter procurado Dessner para ajudar na produção deste disco; Taylor sabia muito bem o produto final que tinha em mente.

Olhe-se para ‘cardigan’, segunda faixa do disco, onde encontramos um instrumental com algumas influências de eletrónica, em particular de downtempo, ao longo do seu desenvolvimento. Soa como se fosse retirado de Sleep Well Beast, dos The National. Ou em ‘ephipany’, onde somos presenteados com um dos melhores desempenhos vocais da carreira de Swift, cantando por cima de um instrumental etéreo e, de alguma forma, ligeiramente assustador. É um dos grandes momentos do disco, um que captura toda a essência por detrás deste. Cru e belo, como muito do material que nos é aqui presenteado.

folklore é o expoente máximo da carreira artística de Taylor Swift até à data

No entanto, e apesar de todos estes elogios que podemos tecer à cantora pela criação deste disco, existem algumas, pequenas críticas que podem ser efetuadas. À semelhança de Lover, que sofria de um problema semelhante, este disco é demasiado longo. Existem alguns momentos que podiam ter sido deixados de fora porque pouco ou nada acrescentam ao desenvolvimento do trabalho.

À medida que avançamos em folklore, encontramos faixas que soam demasiado homogéneas entre si, como é o caso de ‘illicit affairs’, que soa apenas a “mais uma” faixa de folk e não acrescenta nada de novo à dinâmica do disco. Noutro espectro, apesar deste disco ser uma entrada muito atípica e corajosa na discografia da cantora, a sonoridade que apresenta, maioritariamente folk com toques de chamber pop, downtempo e slowcore, não é a mais original dentro do género, mesmo nos seus melhores momentos.

Em suma, folklore é, sem dúvida, o melhor trabalho que Taylor Swift lançou até à data. Como conjunto de músicas, é um disco arrojado, tanto na sua produção como nos instrumentais e arranjos criados, um que explora todo o potencial de Taylor Swift como vocalista e contadora de histórias.

Para onde seguirá a cantora a partir daqui, talvez nem ela própria o saiba. O que sabemos, no entanto, é que folklore é um muito bom disco, um que corresponde à confirmação da afirmação artística com a seguinte premissa: Taylor Swift é muito mais que a etiqueta de estrela pop que está associada ao seu nome.

  1. Para mim, que sou fã acérrima, há dois pontos importantes a destacar no lançamento deste álbum. Em primeiro lugar, gostei muito do facto de ela se ter colocado na pele de outras personagens, contrariando o tom mais autobiográfico do Lover, e conseguindo assim explorar uma paleta de emoções e temas mais diversos. Este facto associado a uma escrita brilhante, com interpretações múltiplas, permite que cada pessoa tome a música como sua, dotando-a do significado de acordo com a sua experiência pessoal (por exemplo, em My Tears Ricochet, quem conhece bem o percurso da Taylor pode ver naquela letra uma reflexão sobre a saída da antiga editora e a batalha que ela tem enfrentado para ganhar os direitos sobre a sua obra; mas é possível ler a música como uma reflexão de uma outra qualquer relação que teve um fim pouco feliz). Em segundo lugar, confesso que me dá um certo prazer ver que as pessoas estão finalmente a ver o potencial da Taylor Swift – mesmo que seja apenas porque desta vez se associou a nomes de “indie records that’s are much cooler” que o dela. A verdade é que este álbum colocou a preto e branco aquele que o imenso potencial e talento de um artista que não tem medo de experimentar, que tem desafiado a economia musical e que, no reinado dos streamings, consegue manter a indústria discográfica a funcionar. Mas a verdade é que, por trás de todas as cores pop e country (entre outras), o poder de storytelling sempre esteve lá – a narrativa amadureceu, e muito bem, mas este poder de contar uma história já lá estava em Tim Mcgraw, Dear John, Last Kiss ou All Too Well.

  2. Este álbum é sem dúvida original! Eu sou fã da Taylor Swift desde o álbum RED e o que mais me agrada no trabalho musical dela são as histórias que ela conta através das letras das variadas canções. Ora, folklore não foi exceção.

    Ela usou 3 personagens para contar uma história de amor (um triângulo amoroso): a música “Cardigan” é cantada segundo a perspetiva de Betty, que foi traído pelo James (seu amor de adolescência). Já a música “Betty”, é cantada segundo a perspetiva de James (este mostra arrependimento e saudade da Betty). Na música “august”, temos a perspetiva de Inez (a rapariga com a qual James traiu a Betty), onde mostra tristeza pelo facto de o James nunca ter sido dela.

    Acho que este álbum faz qualquer pessoa pensar e relembrar os momentos mais difíceis nas suas vidas. A faixa “exile” passa uma mensagem importantíssima: muitas pessoas, quando começam a namorar, acabam por depender muito dos seus amados e, quando a relação acaba, a pessoa fica perdida. Este álbum é um retrato da realidade e devemos de escutar com muita atenção o que a Taylor pretende transmitir.

    “cardigan” também aborda a questão do amor não correspondido. Prometem tanto e, no fim de contas, quando a pessoa está confortável, acaba por se magoar porque as promessas não foram cumpridas. Só gostava de referir que o videoclip e a letra de “cardigan” estão cheios de referências. No videoclip, vemos que a música é preciosa para Taylor, ela sente conforto e sabe que a música está sempre lá para a apoiar, daí ela ter visto o piano no meio de uma tempestade, enquanto nadava num mar brusco.

    Um álbum sensacional! Ainda bem que não foi mais do mesmo. Adorei!

    “When you are young, they assume you know nothing”.

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