Cursed
Fotografia: Netflix Media Center/Divulgação

Crítica. ‘Cursed’ entretém mas fica longe de convencer

A série está disponível na plataforma de streaming da Netflix desde dia 17.

Quando Guerra dos Tronos terminou, há pouco mais de um ano, num final muito pouco consensual, o mundo inteiro começou a interrogar-se qual seria a nova série que se conseguiria aproximar ao fenómeno cultural mais popular dos últimos anos, tanto em termos de orçamento, como de escala. Para (tentar) ser bem-sucedida nesta tarefa, a Netflix estreou, na última sexta-feira (17), a série Cursed, com Katherine Langford no papel principal.

O Espalha-Factos viu a temporada inteira e analisa agora se esta nova aposta do gigante do streaming consegue fazer esquecer as aventuras de Jon Snow e Daenerys Targaryen.

Cursed apresenta uma lenda moderna

Cursed é uma reinvenção da conhecida lenda do Rei Artur, com traços modernos na sua narrativa, e apresenta-nos Nimue, interpretada por Katherine Langford, uma jovem rapariga que, para além de ter nascido com grandes poderes, é descendente de uma poderosa linhagem, estando destinada a tornar-se na mítica Lady of the Lake.

Nimue, para concretizar o seu destino, terá de embarcar numa perigosa viagem para entregar uma espada mágica, dada pela sua mãe depois de um sangrento assalto à vila onde cresceu, ao mágico Merlin (Gustaf Skarsgård), com a ajuda do mercenário Artur (Devon Terrell). Enquanto cumpre esta tarefa, Nimue vai desvendar segredos sobre a sua verdadeira essência, e o que é que pode fazer, na realidade, com os seus poderes. Pelo meio, desenvolve ainda um romance com Artur, o seu companheiro de viagem.

A personagem de Langford é uma jovem feiticeira “Fey”, que é tão poderosa que até os seus vizinhos têm medo dela, como se pode ver nas cenas iniciais do primeiro episódio. O ataque sangrento à comunidade que a viu nascer foi levado a cabo por um grupo de padres fanáticos, os The Red Paladins, que pretende acabar com todas as comunidades e criaturas mágicas, e Nimue terá de salvar o seu povo do genocídio.

Esta inversão narrativa da lenda de Artur é visível no facto de, ao longo da série, Nimue expressar sempre o desejo de se afastar da magia negra que carrega dentro de si desde a sua infância. A série consegue, de forma bem sucedida, transmitir ao espectador que Nimue quer fazer o correto pelas pessoas que a viram nascer, e escapar a um destino terrível. É uma mudança significativa, que contrasta com outras versões da personagem, como em Era Uma Vez, em que Nimue abraça o seu lado negro.

Katherine Langford carrega a série às costas

Apesar da sua história confusa, de efeitos visuais questionáveis, mesmo existindo um vasto orçamento por detrás da produção, e uma mitologia demasiado densa para os propósitos pretendidos, o grande ponto positivo da série é mesmo Katherine Langford no papel principal. A jovem atriz estreou-se no pequeno ecrã como Hannah Baker, nas duas primeiras temporadas da infame série 13 Reasons Why.

A personagem interpretada por Katherine Langford acaba por se envolver num romance com Artur.
Divulgação / Netflix

Se a série, onde Katherine interpreta o papel de uma jovem que acaba por se suicidar, pode ser criticada por abordar narrativas de uma forma problemática, o mesmo não se pode dizer do desempenho de Langford. A atriz foi tanto a melhor parte de 13 Reasons Why como de Cursed, conseguindo ser um ponto luminoso em ambas as histórias.

Katherine Langford consegue fundir, ao mesmo tempo e, de forma equilibrada, traços de coragem e de inocência, na sua personagem. A atriz acompanha o desenvolvimento do argumento, muitas das vezes compensando momentos em que a série se torna lenta e aborrecida ou em cenas que se arrastam em demasia.

Existem também escolhas no elenco que são de saudar, por quebrarem com tradições preexistentes. É o caso, por exemplo, de Terell, um ator negro, mais conhecido por ter dado vida a Barack Obama no filme Barry, no papel de Artur. A mítica personagem de ficção é tradicionalmente interpretada por atores brancos, e Devon cumpre com as expectativas criadas com esta alteração, ao emprestar graciosidade e simpatia a Artur.

Uma série cansativa

Adaptada por Tom Wheeler a partir do seu próprio livro, escrito com o artista de banda desenhada, entretanto tornado realizador, Frank Miller, nota-se que Cursed pretende ocupar o lugar deixado vago por Guerra dos Tronos. Para o efeito, apresenta-nos as típicas cenas de batalhas mortais, momentos de feitiçaria e uma missão heróica, mas todos estes elementos são apresentados de forma cansativa ao espectador.

ROBERT VIGLASKY/Netflix

Depois existe um floreado presente em todos os episódios, uma animação semelhante a banda-desenhada, usada para interligar as cenas, mas que pouco acrescenta para tornar Cursed mais envolvente. É, aliás, um sintoma de que a série não tem história para encher os dez episódios. Esta arrasta-se a meio dos seus capítulos, há personagens que desaparecem a maior parte do tempo, reaparecendo apenas nos episódios finais, de súbito, para tomarem importantes decisões, sem terem sido devidamente desenvolvidas.

Este é um equivoco que percorre a maior parte das séries da Netflix. Quase todas elas, com uma estrutura entre dez a treze episódios, não conseguem justificar esta quantidade de episódios, fazendo com que quem esteja lá em casa, agarrado ao pequeno ecrã, tenha alguma dificuldade em prosseguir com o binge-watching. Cada episódio de Cursed, quase a rondar uma hora, sofre deste mesmo problema. É uma série cansativa, que demora a apresentar os seus temas e conflitos.

Cursed não apaga Guerra dos Tronos da memória

O problema não está no elenco, que faz um bom trabalho com o argumento que tem em mãos. A série não cativa porque as histórias das personagens desenrolam-se demasiado lentamente, e o espectador perde o fio à meada. O objectivo principal do argumento nunca nos é apresentado de forma simplificada, ao longo dos dez episódios. Por exemplo, só ao terceiro episódio é que se explica, explicitamente, os perigos que Nimue e os seus amigos enfrentam e só aqui é que começa a existir algum tipo de foco na narrativa.

A Netflix bem tenta arranjar a sua série de fantasia de culto, mas teima em não ser bem-sucedida nesta busca incessante. A primeira tentativa ocorreu com a estreia de The Witcher, lançada no final do ano passado, com Henry Cavill no papel principal, mas esta deixou os críticos muito divididos na sua reacção.

Nota-se que o universo estabelecido no argumento de Cursed é rico em detalhes, e o final abre portas para uma segunda temporada com grande espaço a melhorias, mas Cursed ainda não é Guerra dos Tronos. É verdade que a série da HBO colocou a fasquia talvez demasiado elevada para as suas sucessoras, mas há aqui margem de progressão. Resta saber se alguma vez vai chegar lá perto, caso a Netflix decida renovar a série por mais temporadas.

Porém, a série é recomendada para quem adora fantasia e tudo o que o género carrega dentro de si: existem lutas de espadas à chuva, lobos, romances proibidos, padres loucos, freiras com objectivos obscuros, uma aventura épica e cenários bem elaborados. A história enquadra-se bem dentro do género, pecando apenas por ter pouca substância. A abordagem inicial de Cursed merece aplausos, mas o resultado final é, no máximo, medíocre.

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