Beanie Feldstein e Kaitlyn Dever em Booksmart
Imagem: Reprodução/D.R

Representação LGBTQ no cinema em subida desigual

Existe ainda um longo caminho a percorrer para um retrato fiel da comunidade no grande ecrã.

Os grandes estúdios de Hollywood conseguiram ter maior representação LGBTQ nos seus filmes, mas a diversidade racial e a representação trans são quase inexistentes, mostra estudo da GLAAD. Audiências LGBTQ são das mais poderosas para a indústria, e há metas e recomendações para que haja melhorias no setor até 2024.

Os 118 filmes provenientes dos grandes estúdios de Hollywood, no ano passado, conseguiram aumentar os níveis de representatividade da comunidade LGBTQ para valores recorde, demonstrou um estudo publicado pela GLAAD (Aliança Gay e Lésbica contra a Difamação), nesta quarta-feira (14). Apesar deste desenvolvimento no que toca à inclusão de personagens lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e queer, a GLAAD diz que a indústria tem ainda um longo caminho a percorrer para alcançar um retrato fiel da comunidade em causa.

Destes 118 filmes lançados em 2019, 22 (representando 18,6%) incluíram personagens que eram lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, e/ou queer. Este número significa um aumento face ao apresentado pelo mesmo estudo, no ano passado, referente a 2018, que se ficou pelos 20 filmes num universo de 110 (18,2%), que tiveram de alguma forma, qualquer tipo de representatividade da comunidade LGBTQI+. O número deste ano é o mais alto de sempre desde que o estudo da GLAAD começou a ser feito, há oito anos atrás.

Rocketman
Imagem: Divulgação

Ao mesmo tempo, apenas nove de todos os filmes inclusivos tiveram uma personagem LGBTQ com mais de dez minutos de tempo de ecrã. Mais de metade destas personagens (28 em 50), tiveram menos de três minutos de tempo de ecrã total, e 21 dessas 50 apareceram menos de um minuto.

Diversidade racial e representação trans em decréscimo

No que toca à diversidade racial de personagens LGBTQ, os valores diminuíram pelo terceiro ano consecutivo. No ano passado, apenas 34% das personagens LGBTQ eram de cor (17 em 50), sendo esta uma queda face aos 42% alcançados em 2018, e uma diminuição em 23% comparado aos valores apresentados em 2017, que se fixaram nos 57%. Para combater esta progressiva diminuição, a GLAAD pede para que, nos próximos dois anos e meio, metade das personagens LGBTQ dos filmes dos grandes estúdios, sejam pessoas de cor.

A representação transgénero foi inexistente no ano passado, dado que não houve nenhuma personagem trans nos filmes que serviram de base ao estudo da GLAAD, pelo terceiro ano consecutivo. O teor negativo, marcado pela queda dos números, também se aplica à inclusão de personagens lésbicas ou bissexuais. Em relação às primeiras, tiveram uma descida abrupta, apenas estando presentes em 36% (8) dos filmes inclusivos. As últimas desceram também, para os 14% neste caso, estando presentes em apenas 3 filmes. Por outro lado, homens homossexuais integraram cerca de 68% (15) das narrativas inclusivas, que significou um aumento em relação aos 55% do ano passado.

Grandes estúdios com notas baixas na representatividade

O estudo, chamado Índice de Responsabilidade dos Estúdios, procedeu também a uma classificação do comportamento das grandes produtoras cinematográficas, desde a Lionsgate à Paramount Pictures, passando pela Universal Pictures até à United Artists Releasing e todos elas receberam uma nota baixa no que toca à representação da comunidade LGBTQ, tanto em termos qualitativos como quantitativos. Os seus avanços, no ano passado, foram apelidados de “insuficientes” pela GLAAD. Os estúdios da Walt Disney receberam um “pobre” de nota, enquanto a STX Films recebeu mesmo nota negativa, dado que não teve nenhum filme do seu catálogo, lançado em 2019, que contivesse qualquer tipo de representação LGBTQ.

Para fomentar os estudos de interseccionalidade em filmes e televisão, a GLAAD analisou pela primeira vez a representação de personagens LGBTQ com deficiência. Existiu apenas uma personagem, neste campo, que integrou uma narrativa lançada pelos grandes estúdios. Trata-se de Poe (Moises Arias), em Five Feet Apart, da Lionsgate. Do lado do cinema indie, existiram duas personagens LGBTQ com deficiências, ambas presentes em filmes lançados pela Sony Pictures Classics.

O cinema pode educar

“O cinema tem o poder de educar, esclarecer e entreter os espectadores de todo o mundo, e hoje, num clima cultural e politicamente dividido, temos de priorizar a necessidade de contarmos histórias LGBTQ, e as histórias de pessoas marginalizadas”, disse Sarah Kate Ellis, a presidente e CEO da GLAAD, à Deadline.

“Apesar de vermos um recorde na percentagem de filmes que contam histórias que incluem a comunidade LGBTQ, a indústria tem ainda um longo caminho a percorrer no que toca a uma representação fiel e verdadeira da comunidade LGBTQ. Se os grandes estúdios de cinema querem manter-se relevantes aos olhos das audiências da atualidade, e competir numa indústria que enfatiza cada vez mais a diversidade e inclusão, então têm de urgentemente reverter a cada vez maior diminuição de representação de mulheres LGBTQ e de pessoas de cor, tal como a completa inexistência de personagens tran.”, concluiu.

O Índice de Responsabilidade dos Estúdios de 2018 tinha deixado uma espécie de trabalho de casa para os grandes estúdios. A GLAAD chamou a atenção para o cumprimento de certas metas, como a necessidade de as produtoras alcançarem a marca dos 20% de filmes anuais lançados até 2020 que incluíssem personagens LGBTQ, sendo que esse valor terá de crescer para os 50% até 2024. Este ano, dos oito estúdios incluídos no estudo, quatro deles ultrapassaram a barreira dos 20%. A Paramount Pictures marcou 33% (uma subida de 13% em relação aos valores apresentados no ano passado), a United Artists Releasing chegou aos 29%, a Lionsgate aos 25% e os estúdios Walt Disney ficaram-se pelos 21%.

O poder das audiências LGBTQ

O estudo deste ano, de modo a incrementar e melhorar as formas de representar personagens LGBTQ, inclui uma série de recomendações aos estúdios, para não cometerem erros críticos. Entre elas, salienta-se a necessidade de aumentar o tempo de ecrã de personagens queer, uma maior prioridade para a interseccionalidade com pessoas de cor e personagens com deficiências, a inclusão de retratos autênticos de pessoas bissexuais e, por último, mais personagens trans.

“Contar histórias LGBTQ com significado, não é apenas a melhor coisa a fazer, mas também um negócio inteligente”, disse Megan Townsend, a diretora da secção de Pesquisa e Análise de Entretenimento, da GLAADtambém à Deadline.

“As pessoas LGBTQ são uma audiência significativa, que apoiam a inclusão LGBTQ em filmes com o seu dinheiro e atenção digital. A Nielsen concluiu que a audiência LGBTQ tem maior tendência a ver filmes de grandes estúdios mais do que uma vez, em comparação com audiências heterossexuais, e continuam a ser grandes consumidores, que contribuem com um maior número de compras de cópias digitais, serviços de subscrição e a divulgar o seu interesse em torno do produto na internet”, referiu ainda.

Megan concluiu que os grandes estúdios deviam “reconhecer o poder das audiências LGBTQ e o seu desejo por histórias que sejam um reflexo das nossas vidas”, ao produzir filmes e grandes franchises que sejam um retrato autêntico e minucioso de personagens LGBTQ.

Em relação a esta temática, podes recordar a edição do podcast do Espalha-Factos, o Fita Isoladora, em que se discutiu este tema no contexto nacional.

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