John Lewis ficou conhecido por discursar nas escadarias do Memorial de Lincoln, em 1963, na luta pelos direitos civis.
Susan Walsh/AP

Morreu John Lewis, o emblemático líder dos movimentos cívicos nos EUA

John Lewis, pioneiro e um dos maiores símbolos dos movimentos cívicos nos Estados Unidos da América, morreu esta sexta-feira (17), depois de ter lutado, durante seis meses, contra um cancro no pâncreas. O ativista tinha 80 anos e representou o estado da Geórgia, no Congresso americano, durante quase 35 anos. A noticia foi avançada por Nancy Pelosi, a voz da Casa dos Representantes, em comunicado.

Pelosi descreve o democrata como um dos maiores heróis da história americana,” e “a consciência do Congresso.” No comunicado pode ler-se ainda: “John Lewis era um titã na luta pelo movimento dos direitos civis, sendo que a sua bondade, crença e bravura transformaram a nossa nação — desde a determinação com que enfrentou a discriminação nos balcões dos restaurantes, nos Freedom Rides, até à coragem que demonstrou em idade tão jovem, a lutar contra a violência e a morte na Ponte Edmund Pettus, acabando na liderança e bússola moral que trouxe para o Congresso, durante mais de 30 anos.”

“É com uma tristeza inconsolável e duradoura que anunciamos a morte de John Lewis”, lamentou a família do eterno ativista, também em comunicado. “Ele era lembrado e respeitado como sendo a consciência do Congresso americano e um ícone da história americana, mas nós conhecemo-lo como um um pai e irmão amoroso. Ele era um forte defensor da luta contínua pela exigência de respeito pela dignidade e valor de todos os seres humanos. Dedicou a sua vida inteira a defender causas não-violentas e foi um defensor declarado da luta pela justiça igualitária na América. Fará muita falta.”, pode ler-se também na nota deixada pelos seus familiares.

Desde os seus discursos públicos iniciais, até aos tweets mais recentes, Lewis demonstrou sempre o seu apoio incondicional na luta pela justiça. “Não se deixem perder num mar de desespero. Tenham esperança, sejam optimistas. A nossa luta não é apenas de um dia, uma semana, um mês ou um ano, é uma luta de uma vida inteira. Nunca, mas nunca, tenham medo de fazer barulho e de entrarem em bons problemas, problemas necessários.”, pode ler-se num tweet viral, publicado na sua conta pública em 2019.

Um marco na luta pelos direitos civis

John Lewis tornou-se, nos anos 60, numa das maiores figuras na luta pelos direitos civis na América, ao repartir a liderança deste movimento com Martin Luther King Jr. e outros nomes sonantes, em protestos pacíficos e marchas que ficarão para sempre na história americana, com o objectivo de conseguir a paz no país.

Nasceu a 21 de fevereiro de 1940, em Montgomery, no estado de Alabama, na quinta dos pais. Estudou em escolas públicas segregadas e contou que as suas maiores inspirações para a luta ativista, que ocupou toda a sua vida, foram os movimentos de boicote aos autocarros de Montgomery, as transmissões radiofónicas de Martin Luther King Jr. e a irritação que sentia pelo facto de as Leis Jim Crow terem sido colocadas em prática no sul norte-americano.

Recorde-se que estas eram leis discriminatórias, que negavam direitos aos negros, provocavam humilhações públicas e perpetuaram a marginalização económica e educacional das minorias. Era esta a ordem social implementada, onde quem a desrespeitasse, era alvo de assédios e assassinatos.

Aos 18 anos, escreveu uma carta a King, que respondeu ao comprar um bilhete de autocarro para Montgomery, de modo a poder conhecer Lewis. “Dr. King, eu sou o John Robert Lewis,” relembrou John num momento da sua vida. “E isso foi o inicio.” Como estudante da universidade de Fink, liderou várias demonstrações em Nashville contra a segregação racial, incluindo vários movimentos em balcões sentados de restaurantes, onde era praticada esta mesma segregação. Este tipo de iniciativas marcou, aliás, a vida inteira de John.

Uma vida pelo movimento

A história pessoal de Lewis tem um paralelo com o movimento dos direitos civis. Foi um dos fundadores dos 13 Freedom Riders (Viajantes da Liberdade), um grupo de ativistas negros e brancos que desafiavam a segregação racial imposta no sul norte-americano, em 1961.

Em causa estava o silêncio do Supremo Tribunal norte-americano, que se recusava a julgar inconstitucional a segregação praticada nos autocarros públicos. Os membros do grupo andavam juntos de autocarro pelo Sul, e eram muitas vezes presos ou espancados pela polícia, incluindo Lewis. Foi também o fundador e líder do Comité Coordenador Não-Violento Estudantil, que organizou as já citadas manifestações em balcões de restaurantes.

Lewis liderou várias demonstrações a denunciar a segregação racial que era praticada em hotéis, restaurantes, parques públicos e piscinas, lutando também contra outras indignidades que as pessoas consideradas de segunda classe continuavam a sofrer. Foi várias vezes alvo de violência, foi cuspido, queimado com cigarros e preso mais de 40 vezes durante os anos 60.

As marchas que inspiraram a mudança

Still do filme Selma sobre Martin Luther King Jr
Still do filme ‘Selma’ (Reprodução/DR)

Um dos seus momentos mais icónicos da sua vida aconteceu quando participou na Marcha de Washington em março de 1963, exercendo o papel de orador, nos degraus do Memorial de Lincoln. Também vale a pena recordar a posterior marcha de 7 de março de 1965, conhecida como “Domingo Sangrento”, no seu estado-natal, Alabama, que serviu até de enredo a Selma, o filme de 2014 realizado por Ava duVernay. Foi nesta última marcha que, aos 23 anos, foi derrubado e agredido pela polícia, na ponte Edmund Pettus, e a difusão das imagens desta brutalidade policial fez com que o país começasse a encarar a opressão racial nos estados do Sul.

O mote desta última marcha, uma mais famosas da história norte-americana, tinha como base de apoio cerca de 600 pessoas, que reivindicavam os seus direitos de voto, que lhes continuavam a ser negados. Quando lhes foi ordenado que dispersassem da ponte, as pessoas mantiveram-se silenciosas nas suas posições. A polícia respondeu, fortemente armada, com o uso de gás lacrimogéneo e tacos, o que resultou numa fractura do crânio de John.

Uma luta que não foi em vão

Este grito de revolta popular, na ponte Edmund Pettus, que podia ter acabado em tragédia para John Lewis, acabou por não ser em vão. Acredita-se que foi esse o dia que serviu de mote à Lei dos Direitos de Voto de 1965, assinada e aprovada pelo presidente da altura, Lyndon B. Johnson. “Deixei um pouco de sangue meu nessa ponte”, recordou Lewis, anos mais tarde. “Pensei que ia morrer. Pensei que tinha visto a morte.” A Lei permitiu, finalmente, que a população negra pudesse votar.

“Às vezes, quando olho para trás e penso naquilo, pergunto-me como é que o conseguimos fazer. Como é que fomos bem-sucedidos? Não tínhamos nenhum website. Não tínhamos telemóveis.”, contou Lewis, quando chamado a recordar o movimento dos direitos civis levado a cabo por si e por outras figuras incontornáveis. “Mas senti que, quando estávamos sentados naqueles balcões de restaurantes, a ir aos movimentos dos Freedom Ride, ou a marchar desde Selma até Montgomery, havia ali um poder e uma força. Deus estava ali connosco.” 

Do ativismo ao assento no Congresso e ao reconhecimento por Obama

John Lewis e Barack Obama
Lewis é homenageado por Obama (Fotografia: Obama White House/Flickr).

 

Apesar do ataque e todo o passado de violência junto das forças policiais norte-americanas, John Lewis nunca perdeu o espírito ativista, levando os protestos para o mundo da política. Foi eleito para o conselho da cidade de Atlanta em 1981 e, seis anos mais tarde, passou a fazer parte do Congresso dos Estados Unidos da América.

A partir de Washington, focou-se a lutar contra a pobreza, ajudando as gerações mais jovens a melhorar a educação e o sistema de saúde.  Co-escreveu inúmeras novelas gráficas acerca do movimento dos direitos civis, o que lhe valeu um National Book Award. Viveu para ver eleito um presidente afro-americano, Barack Obama, um momento que Lewis confessou não ter esperado, mesmo depois da sua longa luta pela igualdade racial.

Na altura, descreveu a sua experiência pessoal quando esteve presente na inauguração, em 2009, do mandato de Obama, como tendo sido uma experiência fora do normal”. “Quando estávamos a organizar campanhas de registo de eleitores, a criar o Freedom Rides, a sentarmo-nos nos balcões dos restaurantes, a irmos a Washington pela primeira vez, sermos presos, irmos para a prisão, sermos espancados, eu nunca pensei — nunca sonhei — com a possibilidade de um afro-americano ser, algum dia, eleito presidente dos Estados Unidos, disse na altura.

Em 2011, depois de mais de 50 anos passados na linha da frente pelos movimentos cívicos, Lewis recebeu a maior honra civil do país, a Medalha Presidencial da Liberdade, colocada no seu pescoço pelo primeiro presidente afro-americano. Aquando da inauguração do mandato de Donald Trump, em 2017, Lewis disse que não o considerava um “presidente legítimo”, um comentário inédito, dado que foi proferido por um membro do Congresso, contra um Presidente que se preparava para assumir a liderança do país. “Acho que os russos ajudaram a que este homem fosse eleito. E ajudaram na destruição da candidatura de Hillary Clinton”, referiu Lewis, justificando a sua desconfiança para com Trump.
“Eu disse aos estudantes ‘Quando vêm algo que não está certo, que não é justo, têm a obrigação moral de fazer alguma coisa, de dizer algo'”, contou Lewis, na primavera de 2018, quando estava colocada a hipótese de existir um impeachement a Donald Trump, pelo congresso “E o Dr. King inspirou-nos a fazer isso mesmo.”, rematou.

Um exemplo da força do perdão

John era igualmente um acérrimo defensor do perdão. Uma vez recordou um incidente que passou quando era jovem, ao ter sido espancado de forma violenta por membros do Ku Klux Klan, depois de ter tentado entrado numa “sala de espera exclusiva para brancos.”

“Vários anos depois, em fevereiro de 2009, um dos homens que me bateu nesse dia, veio ao meu escritório de Capitol Hill — ele tinha mais de 70 anos, e veio acompanhado do seu filho que estava nos 40 e disse: ‘Mr. Lewis, eu sou uma das pessoas que lhe bateu a si, e ao seu companheiro, quando se sentaram naquela sala de espera’. Depois confessou-me, ‘Eu quero pedir desculpa. Vai aceitar o meu pedido de desculpa?'”, contou Lewis, recordando o momento.

Depois de ter aceite este pedido de desculpas e de ter abraçado tanto o pai como o filho, os três choraram juntos. “Este é o poder usado em nome da paz, em forma de amor”, relembrou. “Nunca, mas nunca, poderemos odiar. O caminho do amor é um caminho melhor.”

Um novo legado para uma nova geração

John Boyega em manifestação pelo movimento Black Lives Matter
Reprodução/D.R

Mais de 50 anos depois, após o assassinato de George Floyd em março, às mãos de um grupo de polícias em Minneapolis, Lewis agradeceu as demonstrações globais contra a morte de pessoas negras levadas a a cabo pelas forças policiais norte-americanas, e mais profundamente, as denúncias do racismo sistémico nas várias classes da sociedade. John olhou para estes novos movimentos como uma continuação do seu trabalho de vida, apesar da doença o ter retirado da linha da frente dos protestos. Mas, apesar do cancro, voltou a Washington em junho.

“Foi muito emocionante, muito emocionante mesmo, ver milhares de pessoas de todos os cantos da América e de todo o mundo a irem para as ruas — para falarem, denunciarem, arranjando aquilo a que eu chamo de “bom sarilho”, disse Lewis à CBC This Morning, em junho. “Isto parece muito diferente”, disse Lewis em relação ao movimento Black Lives Matter, o cerne das demonstrações anti-racistas, na atualidade. “É muito mais massivo e inclusivo”, acrescentou, comparando com os movimentos cívicos dos anos 60. “A partir daqui não há volta atrás.”
No mês passado, em conversa pública com Obama, que serviu para discutirem os protestos raciais iniciados em todo o país, John Lewis voltou a refletir em torno das emoções que sentiu durante o seu próprio movimento dos anos 60.
“Eu acredito que tudo aquilo tenha sido por graça de Deus, e hoje sinto-me ainda mais sortudo, mais abençoado por ver as mudanças que estão ocorrer, que permitiram a um jovem, um jovem amigo como Barack Obama, tornar-se presidente dos Estados Unidos da América, e isso faz com que toda a dor que senti durante a minha vida valesse a pena.”
Aproveitou também para elogiar a geração mais jovem que se juntou para caminhar em comunhão, em protestos pelas ruas norte-americanas. “Eles vão ajudar a salvar a alma da América, a salvar o nosso país, e até a salvar o planeta.”

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