Viola Davis para a Vanity Fair, fotografada por Dario Calmese
Viola Davis na primeira capa da Vanity Fair fotografada por artista negro.

Viola Davis e Vanity Fair fazem história com capa de revista

2020 vai ficar marcado na história. Com mais baixos que altos, o presente ano assistiu aos incêndios na Austrália, à saída de Harry da família real britânica e a uma pandemia que continua a assolar o mundo. No fim de maio, mais um capítulo foi escrito: a morte de George Floyd trouxe a vontade pela mudança e levou até às ruas protestos pelos direitos de pessoas negras.

Em julho, a Vanity Fair escolhe Viola Davis como protagonista da sua capa, fotografada pela primeira vez nos 106 anos da revista por um artista negro. Com um futuro imprevisível, o ano do rato, segundo o calendário chinês, vai continuar a fazer história.

Lançada pela primeira vez em janeiro de 1914, a revista norte-americana Vanity Fair acaba de merecer uma página num provável livro sobre o ano de 2020. Desde o seu começo, comprometeu-se a servir um propósito: partilhar e celebrar as festas, as artes, o desporto, o teatro e o humor. Hoje, 106 anos depois, a revista continua a contar histórias sobre aqueles que inspiram e se deixam inspirar, mas agora com mais cor.

Viola Davis para a revista Vanity Fair
Viola Davis fotografada por Dario Calmese (Reprodução/DR)

O primeiro artista negro a fotografar a capa

No ano em que vozes Negras contam mais que nunca, a publicação contratou pela primeira vez um artista negro para fotografar a sua capa. Dario Calmese, que nos últimos anos tem trabalhado no campo da moda, fotografou a célebre e premiada atriz de Hollywood Viola Davis sem saber que as suas fotos fariam história.

O artista, que não se considera fotógrafo, usou as suas redes sociais para a agradecer a Viola e a “todas as mulheres negras que se sentiram invisíveis mesmo estando na linha da frente de todas as lutas. Nós vemos-vos. Vocês são amadas, vocês são poderosas, e são lindas. Isto é para vocês”, afirmou.

Na capa, com a poderosa citação “Toda a minha vida tem sido um protesto”, Davis usa um vestido que mostra as costas, numa alusão à obra “The Scourged Back”, de 1893, onde está retratado Gordon, um homem escravo que fugiu de uma plantação no Mississippi, segundo o The New York Times.

Com esta capa, Calmese junta-se a Tyler Mitchell, o primeiro artista negro a fotografar uma capa da Vogue, fundada em 1802, e a Dana Scruggs, que fotografou para uma capa da Rolling Stones em 2019.

Viola Davis na capa da revista Vanity Fair, vestida por Max MaraPHOTOGRAPHS BY DARIO CALMESE; STYLED BY ELIZABETH STEWART.
Viola Davis na capa da revista Vanity Fair, fotografada por Dario Calmese (DR).

O que Viola Davis tem para dizer

Toda a sua vida tem sido um protesto e vai continuar a ser. O seu nome representa muito mais do que aquilo que é. Viola Davis é lutadora, é mulher, é negra e chegou a uma indústria dominada por brancos para continuar a mudança que nomes como Hattie McDaniel, Halle Berry e Dorothy Dandridge começaram. Foi a primeira mulher negra a ganhar um Emmy (2015) e a única a ter na sua posse um Óscar, Emmy e Tony. É uma das estrelas de Hollywood a redefinir o que é ser Negro tanto no grande como no pequeno ecrã. Inspira e deixa-se e inspirar, afirmando que desde pequena soube que queria ser atriz.

O seu percurso é longo. No currículo junta How to Get Away With Murder, Fences, Doubt e Widows. The Help, onde atua ao lado de Octavia Spencer, merece também um lugar de destaque. Para Viola Davis, o futuro é incerto, mas já com alguns planos. Em breve, estreia-se como Michelle Obama na série First Ladies, produzida pela sua empresa JuVee Productions.

Na entrevista à Vanity Fair com Sonia Saraiya, Davis fala também sobre o passado e das experiências que teve numa indústria que ainda não lhe dá o devido valor. A conversa foi feita via Zoom, na altura em que nas ruas americanas se marchava por igualdade. Quando questionada sobre se algum dia tinha protestado daquela forma, Viola responde de forma assertiva:

Eu sinto que toda a minha vida tem sido um protesto. A minha empresa de produção é o meu protesto. Não usar uma peruca nos Óscares de 2012 foi o meu protesto. É parte da minha voz, tal como eu me apresentar a ti e dizer ‘Olá, o meu nome é Viola Davis’”.

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Essa voz nem sempre teve o mesmo poder. Nasceu numa família pobre, em Central Falls Rhode Island, irmã de seis crianças, com um pai alcoólico e por vezes violento. A fome fez parte do seu dia-a-dia e a sua voz não era ouvida — “Eu não usava a minha voz porque eu não me sentia digna de ter uma voz”.

Viola Davis para a revista Vanity Fair, fotografada por Dario Calmese
Viola Davis para a revista Vanity Fair, fotografada por Dario Calmese (DR).

Tornou-se no que é hoje graças ao apoio incondicional da mãe, Mae Alice, e das três irmãs, Deloris, Diane e Anita. As quatro elogiavam Viola e a sua beleza numa altura em que mais ninguém o fazia. “Olhavam para mim e diziam que era bonita. Quem é que diz a uma rapariga de cor escura que ela é bonita? Ninguém”. “A voz da mulher negra escura está tão enraízada na escravidão e na história. Se nos manifestássemos, isso iria custar-nos a vida”, acrescenta a atriz.

Durante muitos anos foi desvalorizada. Apelidada, por vezes, de “Meryl Streep negra”, Viola não teve a mesma sorte que a amiga. Segundo a Vanity Fair, Davis não teve os mesmo benefícios que Streep nos seus primeiros 20 anos de carreira, mesmo tendo a mesma formação.

A problemática de The Help

Mas tudo mudou com The Help. O filme catapultou a atriz para um novo nível de estrelato. Apesar de lhe ter dado algum do reconhecimento, merecendo-lhe  uma nomeação aos Óscares, em 2018, Davis disse  que se arrependia de ter participado no filme. “Não há ninguém que não se entretenha com The Help. Mas há uma parte de mim que sente que eu me traí a mim própria, e ao meu povo, porque eu estava num filme que não estava preparado para [contar toda a verdade]”, conta a atriz à Vanity Fair.

The Help foi um dos programas mais vistos na Netflix, enquanto aconteciam os protestos do movimento Black Lives Matter. No entanto, muitos criticam o filme pela sua representação estereotipada da população negra e do retrato de “white saviour” que é feito. Isto refere-se a quando uma personagem branca “salva” as personagens negras através das suas boas ações, dando uma aparente solução para os problemas raciais nesse mundo narrativo.

Viola Davis acrescenta que The Help foi “criado sob o filtro e a fossa do racismo sistémico”.

A conversa com a Vanity Fair continua, abordando assuntos que ainda hoje têm importância como a disparidade de salários em Hollywood e os efeitos do movimento #MeToo. Numa entrevista cuja capa vai entrar para a história, Viola Davis mostra-se como é, focando-se naquilo que mais lhe importa.

Podes ler a entrevista original e na íntegra aqui.

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