Fotografia: Divulgação / Fox

O início da mudança: 20 anos do primeiro filme X-Men

Há 20 anos, estreava o primeiro filme alusivo ao universo X-Men da Marvel. O Espalha-Factos celebra a efeméride ao fazer um balanço sobre a franquia e a sua importância no cinema.

No derradeiro ano do século XX, a indústria cinematográfica norte-americana era bem diferente do que é hoje. As adaptações de banda desenhada para o grande ecrã eram sinónimo, sobretudo, de fracassos na bilheteira e de filmes de pouca qualidade. Nos anos 1990, filmes como O Corvo, Spawn, Capitão América (a versão de 1990) e The Punisher (com Dolph Ludgren) falharam no objetivo de se tornarem tão bem sucedidos como Batman, de 1989, mas foram adquirindo um estatuto de culto ao longo dos anos.

Blade, de 1998, com Wesley Snipes, foi uma excepção, mas é com X-Men: O Filme, de 2000, que viria a ser dado um importante passo para uma mudança de paradigma no cinema produzido em Hollywood. A longa-metragem, realizada por Bryan Singer e que arrecadou mais 255 milhões de euros em receitas de bilheteira, esteve nos planos da Marvel desde os anos 1980.

O Espalha-Factos recorda esta efeméride ao traçar o percurso, por vezes esquecido, do primeiro filme da saga X-Men e o seu impacto nos filmes de super-heróis ao virar do novo século.

Wolverine interpretado por… Bob Hoskins?!

O mundo dos X-Men apareceu pela primeira vez nas páginas de uma banda desenhada em 1963. Criada por Stan Lee e Jack Kirby, a equipa original de mutantes com super-poderes era composta por Ciclope, Jean Grey, Beast, Angel e Ice Man. A trupe era liderada por Charles Xavier e as aventuras centravam-se no confronto com a fação chamada Irmandade, encabeçada por Magneto.

A fórmula típica dos heróis contra os vilões foi apimentada, em anos posteriores, através de comentários político-sociais, fazendo alusão ao racismo e xenofobia. Em 1975, surgiu então um novo grupo de X-Men, com personagens que se viriam a tornar sinónimo da banda desenhada como Wolverine, Nightcrawler, Storm, Colossus, entre outros.

Nove anos depois, em 1984, a produtora Orion Pictures adquiriu os direitos da banda desenhada à Marvel para adaptar a franquia X-Men num filme. Num plano inicial, tinha os respeitados argumentistas de banda desenhada Roy Thomas e Gerry Conway encarregues na escrita da história da longa metragem. No entanto, a Orion empatou o processo devido a problemas financeiros e o projeto acabou cancelado.

Entre 1989 e 1990, Stan Lee e o aclamado argumentista Chris Claremont tentaram convencer a Carolco Pictures para fazer um novo filme com James Cameron a produzir e Kathryn Bigelow a realizar. Num primeiro rascunho escrito por Bigelow, a realizadora ponderou ter Bob Hoskins no papel de Wolverine e Angela Basset como Storm. A ideia foi pelo cano abaixo, porque a Carolco acabou por falir, o que fez com que os direitos de adaptação regressassem à Marvel.

Os desenhos animados e a indefinição do argumento

As complicações de bastidores eram ofuscadas pelo sucesso dos X-Men no pequeno ecrã. Os desenhos animados, que estrearam em 1992 na Fox Kids (em Portugal transmitidos pela SIC), representaram um ponto importante para a franquia. A popularidade voltou e o público rejuvenesceu. A 20th Century Fox ficou impressionada com o sucesso deste série animada e fez com que Lauren Shuler Donner adquirisse os direitos da saga em 1994, com Andrew Kevin Walker (Seven) responsável pelo argumento.

A história sofreria algumas mudanças ao longo do tempo. O argumento foi reescrito várias vezes por diferentes pessoas, entre elas Josh Whedon. De acordo com um artigo da Entertainment Weekly publicado em 2000, a história original estava recheada de “referências à cultura pop da época“. Na cadeira de realizador, a Fox colocou vários nomes possíveis: Brent Ratner (que viria a dirigir o terceiro filme, X-Men: The Last Stand), Robert RodriguezPaul W. S. Anderson. O estúdio acabou por escolher Bryan Singer, devido à reputação do filme Os Suspeitos do Costume e das suas aspirações de dirigir um projeto ligado à ficção científica e fantasia.

Com um orçamento a rondar os 75 milhões de dólares (cerca de 66 milhões de euros), chega a altura de encontrar o elenco para dar vida aos X-Men. A escrita do argumento ficou então entregue a David Hayter, reconhecido principalmente no mundo dos videojogos, por ser a voz original da personagem Solid Snake na saga Metal Gear Solid.

Um tiro no escuro que acertou em cheio

Num elenco com respeitados atores como Ian McKellen como Magneto, e que viria, no ano seguinte, a ser Gandalf no Senhor dos Anéis, ou ainda Patrick Stewart como Charles Xavier, uma das maiores incógnitas continuava a ser quem iria interpretar o icónico Wolverine.

Bob Hoskins voltou a ser referido e nomes como Keanu Reeves, Mel Gibson, Edward Norton ou Jean Claude Van-Damme foram equacionados. No entanto, a escolha inicial do realizador seria Russell Crowe, mas este recusou o papel. O ator neo-zeolandês recomendou Hugh Jackman, um nome até aí desconhecido em Hollywood.  Antes de X-Men, Jackman, australiano de gema, era um ator de teatro, tendo participado em peças sobretudo musicais e aparições pontuais em séries televisivas locais.

Foi um tiro no escuro, mas resultou. Hugh Jackman tornou-se Wolverine e o resto é História. O ator voltaria a desempenhar o papel por mais oito vezes, sendo Logan, de 2017, a suposta última vez que Hugh Jackman deu vida ao mutante.

X-Men foi um sucesso na bilheteira e representou um ponto de partida das sequelas que viriam a ser lançadas desta franquia, assim como de outros sucessos futuros como a trilogia Spider-Man ou Daredevil.  Nem tudo foi um “mar de rosas” porque houve também filmes que são objetivamente maus como é o caso de Elektra (o spinoff de Daredevil com Jennifer Garner) ou X-Men Origens: Wolverine.

Com o constante crescimento do universo cinemático da Marvel, agora que a Disney comprou a Fox, os fãs do género aguardam com expectativa relativamente à integração da equipa dos X-Men em novos filmes. O primeiro X-Men continua a ser relevante. Num ponto de vista histórico, é impensável excluir este filme, pois representou uma adaptação da banda desenhada que viria a moldar o gosto e as expectativas sobre a equipa de mutantes dos X-Men.

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