Fotografia: Divulgação / History Channel

“Isto é o vosso Woodstock”: 35 anos de Live Aid

O Live Aid aconteceu há 35 anos. O Espalha-Factos recorda este efeméride ao recordar os bastidores que levaram à criação deste evento à escala mundial.

No dia 13 de julho de 1985, quase metade da população mundial assistiu à transmissão de atuações que, em muitos casos, se tornariam históricas. No total, foram 1,9 mil milhões de pessoas em cerca de 150 países a assistir, em direto, ao evento chamado Live Aid.

Mas de onde surgiu esta iniciativa? Qual foi o seu propósito? Quem foi o seu mentor? São estas perguntas que o Espalha-Factos vai responder ao longo deste artigo de retrospectiva e recordar um dos concertos solidários mais marcantes do século XX.

O “fósforo” do Live Aid

No natal de 1984, Bob Geldof e Midge Ure, dois músicos britânicos, decidiram escrever uma canção impulsionados pelo que ficou conhecido como a crise de fome que Etiópia passou no início da década. Editada no dia 3 de dezembro desse ano, “Do They Know It’s Christmas?” reuniu alguns dos artistas ingleses mais conceituados da época como, por exemplo, Sting, Phil Collins, Boy George, ou Bono. Esse super-grupo designou-se como Band Aid.

Parte da receita de vendas dos singles reverteram para apoiar o organizações não-governamentais no contexto etíope. Num documentário produzido pela BBC, Bob Geldof afirmou esperava obter 70 mil libras (cerca de 78 mil euros, em números atuais) em receita de doações, acabou surpreendido por ter juntado 8 milhões de libras (quase 9 milhões de euros) em um ano. Até 1989, a canção ultrapassou a marca dos 11 milhões de discos.

Em janeiro de de 1985, seguindo as pegadas da Band Aid, Harry Belafonte e Ken Kragen inspiram-se para fazer algo semelhante. Surgiu então “We Are The World“,canção do super-grupo USA for Africa. Foi escrita por Michael Jackson e Lionel Richie, e, à semelhança da Band Aid, foi um sucesso tremendo.

Uma maratona em que um só palco não bastava

Os Culture Club atuaram seis noites na antiga arena de Wembley em dezembro de 1984 e, numa dessas noites, os Band Aid atuaram ao vivo no encore. Boy George, o vocalista do grupo, ficou tão inspirado pelo momento que falou com Bob Geldof sobre organizar um concerto de beneficência. Geldof ficou a pensar na ideia e, depois alguns meses a refletir, decidiu avançar.

O músico e mentor do projeto ambicionou que o evento teria de ter dois palcos em simultâneo, com o intuito de dar grandiosidade ao evento: um em Wembley e outro no estádio JFK, em Filadéfia, nos Estados Unidos. Para isso, contou com Harvey Goldsmith, que ficou responsável pelo espetáculo na América do Norte, e com Bill Graham no Reino Unido.

O evento teve público nos respetivos estádios e foram vendidos bilhetes de forma alucinante, tendo esgotado a lotação máxima de cada espaço. Em Wembley, estavam cerca de 72 mil pessoas e, em Filadéfia, perto de 90 mil pessoas. A emissão foi transmitida em 150 nações, incluindo Portugal.

A transmissão começou às 12 horas, hora de Londres, no dia 13 de julho, e acabou em às 4 da madrugada do dia seguinte. O evento começou em Wembley com uma saudação dos príncipes de Gales, Diana e Carlos, seguido depois de uma performance do hino britânico “God Save The Queen“. Pouco depois disso, abriram as linhas telefónicas para que as pessoas pudessem fazer doações para combater a crise de fome na Etiópia.

As atuações marcantes

Depois da obrigatória formalidade face ao acontecimento, coube aos Status Quo subirem ao palco para dar início ao Live Aid. Durante as 16 horas de emissão, foram várias gerações de artistas: Phil Collins, Dire Straits, Joan Baez, Elton John, Paul McCartney, Nik Kershaw, David Bowie entre muitos outros

Houve também espaço para duas reuniões de grupos como foi o caso de Black Sabbath com Ozzy Osbourne e Led Zeppelin com Phil Collins a ocupar o lugar de John Bonham. As atuações foram bastante esquecíveis, mas é inegável constatar o poder de influência de um evento solidário consegue ter.

No entanto, existem três momentos que merecem ser destacados: a performance dos Queen, dos U2 e a atuação a dobrar de Phil Collins em dois continentes diferentes.

No caso dos Queen, a atuação de cerca dos 20 minutos tornou-se num dos momentos apoteóticos do evento e da carreira da banda britânica. A performance é tão impactante na cultura popular do século XX que, no filme Bohemian Rhapsody foi recriado este mini-concerto.

Bono Vox, o vocalista dos U2, colocou o que estava a ser uma excelente atuação do grupo irlandês noutro patamar. Durante a canção “Bad“, Bono avança para as primeiras filas para ajudar os seguranças a retirar três raparigas, tendo o público reagido efusivamente. Este improviso fez com com que a banda não pudesse interpretar ‘Pride (In The Name of Love)‘, o maior êxito deles na altura, mas a atitude de Bono impressionou e, por conseguinte, marcou a carreira.

Phil Collins, começou por tocar em Wembley, por volta das 15 horas locais, e apanhou um voo de um avião Concorde para depois atuar em Filadéfia às 20 horas locais (1 da manha na horário de Londres).

Rescaldo do Live Aid

16 horas depois, a emissão e o evento Live Aid terminou ao som de We Are The World no estádio JFK. No total, foram obtidos 125 mihões de dólares (cerca de 110 milhões de euros) em donativos para ONG e, mais do que isso, foi um passo importante para despertar a consciência pública para ações solidárias.

Em 2010, a BBC publicou uma reportagem alegando que o dinheiro do Live Aid tinha sido desviado para financiar o partido etíope People’s Revolutionary Democratic Front com o objetivo de comprar armas. Na altura, Bob Geldof negou as alegações e, em novembro desse ano, a BBC emitiu um comunicado pedindo desculpas à organização do Live Aid. Michael Grade, ex-presidente da BBC, admite que foi “um erro terrível” e “danificou a percepção pública em relação à ajuda humanitária“.

Polémicas à parte, o Live Aid foi um marco histórico do século XX, porque foi pioneiro na forma de tornar causas solidárias como temas cruciais na sociedade. Mais do que isso, foi também palco para atuações marcantes e que deixaram marca nas carreiras dos respetivos artistas.

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