Dexys Midnight Runners

Dexys Midnight Runners: A vida de uma banda que é mais que ‘Come on Eileen’

Searching for the Young Soul Rebels, álbum de estreia do grupo, foi lançado há 40 anos

A 11 de julho de 1980, era lançado Searching for the Young Soul Rebels, álbum de estreia dos Dexys Midnight Runners. Para celebrar a data, o Espalha-Factos contempla a carreira dos Dexys, como são conhecidos atualmente, e analisa o percurso de uma banda que é muito mais do que uma one-hit wonder.

“Come on, Eileen, oh I swear (what he means)
At this moment, you mean everything”

Em algum momento, nos últimos 38 anos, a probabilidade de teres ouvido este conjunto de palavras é extremamente alta. Se cresceste durante os anos 80, a probabilidade é ainda mais alta, dado o impacto que a canção da qual foram retiradas teve na cultura musical dos anos 80. Estamos a falar de Come on Eileen’, o maior sucesso dos Dexys Midnight Runners, música que mais é associada a este grupo.

É fácil de concluir o porquê de ‘Come on Eileen’ se ter tornado o fenómeno que se tornou. A junção musical entre soulpop e música tradicional celta criava uma sonoridade que mais nenhuma banda na altura possuía. O refrão podia ser cantarolado por qualquer pessoa numa noite de karaoke ou dançado numa pista de dança duma discoteca. O videoclipe com a banda a dançar em roupas iguais (e memoráveis) num subúrbio do Reino Unido representava quase perfeitamente a situação político-social do país, e recebeu constante rotação na MTV. Mas, acima de tudo, é uma música que soa absurdamente divertida e que deixa qualquer um a sorrir. A tempestade era perfeita, e ‘Come on Eileen’ chegou a número um em vários países e tornou-se um marco da música dos anos 80.

Lê também: Crítica: ‘Surdina’, um filme sobre desconfinar o coração

Mas, quando se fala nesta faixa, muitas vezes esquece-se quem era a banda por detrás do êxito. Quem eram os Dexys Midnight Runners? O que existe além de ‘Come on Eileen’?  Conhecida por ser um one-hit wonder, à custa de ‘Come on Eileen’, a banda foi responsável pela criação de uma das discografias mais celebradas pelos críticos da década de 80. Analisemos a sua história e evolução musical.

Quem são os Dexys Midnight Runners?

A banda Dexys Midnight Runners é formada em 1978, pelo cérebro do cantor, compositor e multi-instrumentalista Kevin Rowland, em conjunto com o seu colega Kevin “Al” Archer. Antes dos Dexys, ambos os Kevin eram veteranos da cena punk de Birmingham, cidade onde surge o grupo. Ambos integraram a banda de punk The Killjoys, que havia terminado devido à forma como Rowland impunha a sua visão na banda, problemas que também se alastrariam durante a carreira musical dos Dexys.

Com a banda a desintegrar-se, Rowland começou a sentir-se alienado pela cena punk e procurou refúgio na música soul. Em particular, num movimento que surgiu no norte do Reino Unido no final da década de 60, conhecido como northern soul. Este era caracterizado por festas onde as pessoas dançavam ao som de discos muito pouco conhecidos do estiloe onde se abraçava um estilo de vestuário semelhante entre os seus intervenientes e consumo habitual de drogas. Uma dessas drogas, a dexedrina, uma espécie de metanfetaminas em comprimido, conferiu a inspiração para o nome da banda: Dexys Midnight Runners.

No final de 1978, a banda era constituída por oito elementos. Além dos intervenientes habituais de uma banda, existia uma secção de sopros que seria o núcleo das canções dos Dexys. Fazendo furor devido aos seus espetáculos ao vivo extremamente bem coordenados e energéticos, além da sonoridade bastante própria, a banda assinou em meados de 1979 um contrato com o manager dos The Clash, Bernard Rhodes. É com Rhodes que a banda vai lançar o seu primeiro single, ‘Dance Stance’. Chegou ao número quarenta no Reino Unido.

No entanto, Rowland não ficou satisfeito com o som da mistura final de Rhodes, e acabou por o despedir. Posteriormente, a banda assinou contrato com a EMI, que colocou Pete Wingfield à sua disposição para produzir o que viria a ser o seu álbum de estreia. Entretanto, os Dexys abriam concertos para a banda The Specials. Algo nestes concertos chamou a atenção de Kevin Rowland. A banda vestia-se toda de fato e gravata em palco, atuando como se fossem um só. Rowland observou e concebeu a ideia de que a sua banda precisava do seu próprio look, um que os distinguisse de todos os outros grupos.

Dexys Midnight Runners
Para o seu primeiro disco, a banda vestiu-se de forma semelhante a estivadores nova-iorquinos, encapsulando perfeitamente o cruzamento entre punk e soul da sua música. Fotografia: David Corio

De certa forma, o vestuário que Kevin incutiu aos membros dos Dexys é só uma pequena peça da mente de um artista que ambicionava alcançar a perfeição constante no seu grupo. Além disto, Rowland exigia que o seu grupo ensaiasse, diariamente, cerca de nove horas, que não fossem consumidas nenhumas substâncias ilícitas durante gravações ou antes de espetáculos e estabeleceu rotinas de exercício físico coletivo para a banda. O controlo e perfecionismo que Rowland exigia sobre todos tornou-se parte do folclore dos Dexys, mas acabaria por ser a razão que levaria à sua queda.

O disco de estreia: Searching for the Young Soul Rebels

Intitulado de Searching for the Young Soul Rebels, o álbum de estreia dos Dexys Midnight Runners foi lançado a 11 de julho de 1980. Ainda de forma a promover o disco, os Dexys lançavam aquele que seria o seu primeiro número um no Reino Unido, ‘Geno’, música de homenagem ao artista de soul Geno Washington.

O primeiro disco dos Dexys chegaria à sexta posição no top de vendas no Reino Unido. Em termos de sonoridade, a banda explorava de forma excelente a sua secção de sopros, construindo uma junção de sons muito pouco peculiar. As influências de soul faziam-se notar de forma evidente, mas existia uma essência punk na forma como os instrumentais se desenvolviam e na lírica da banda, complementada ainda por uma sensibilidade pop usada para criar refrões cativantes. A própria voz de Rowland tornou-se parte da imagem de marca da banda. Energética, excêntrica e emocional, ninguém soava como ele.

Além da música, os Dexys ficaram conhecidos pelos seus guarda roupas. Para este disco, Rowland criou um look semelhante aos estivadores nova-iorquinos para a banda, que incrementava ainda mais a sua imagem. Tanto neste disco, como nos outros da banda, os adornos usados pela banda eram um espelho da imagem que a música neles contida parecia transparecer. Uma reflexão quase cirúrgica de secções específicas da sociedade britânica da altura. O álbum foi bem recebido pela crítica e criou bastante aclamação em torno da banda. Foi certificado com prata no Reino Unido, por vendas superiores a 60 000 cópias.

Mas apesar dos bons números que o álbum fez, dentro da banda a situação começou a escurecer. Rowland nunca demonstrou ter grande apreciação por parte da imprensa, e recusou várias vezes dar entrevistas. Aliado isto a um comportamento controlador para com a banda, juntou-se um cenário em que toda a banda acabou por anunciar a sua saída exceto o trombonista “Big” Jim Paterson.

O grande hit: ‘Come on Eileen’ e sucesso de Too Rye Ay

Pouco tempo depois, Rowland foi convidado por Kevin Archer, o guitarrista antigo da banda, a assistir a um ensaio do seu novo grupo. De seu nome The Blux Ox Babes, o conjunto partilhava aspetos da sonoridade dos Dexys, com a sua junção de elementos de soulpop. Mas este continha mais um elemento que despertou a atenção de Kevin: a inclusão de cordas nos seus arranjos.

Por esta altura, o próprio Rowland chegava ao fim da sua frustração com as negociações de contracto com a EMI e levava os Dexys para as fileiras da Mercury Records. Entretanto, este e Paterson garantiram a recruta de novos membros para as vagas deixadas pelos anteriores e lançam dois singles, ‘Plan B’ e ‘Show Me’.

Dexys 82
Para o segundo disco da banda, o vestimento era algo semelhante a um cruzamento entre o vestimento habitual da cultura cigana com o típico irlandês rural, representando a influência da música tradicional celta no som de Too Rye Aye.

Inicialmente, Rowland colocou a secção de sopros a gravar as cordas, mas rapidamente se apercebeu que isto não seria o suficiente para conceber a imagem musical que tinha para a banda. Como tal, precedeu ao recrutamento de três violinistas, Helen O’Hara (que pertencia à banda de Archer), Steve Brennan e Roger MacDuff, para prestarem contribuições ao disco. A secção de sopros não ficou particularmente satisfeita com a decisão, sentindo que a sua importância para o som da banda havia diminuído, e anunciou a sua saída em coletivo. Após negociações, foram convencidos a pelo menos terminar a gravação do disco antes de se afastarem por completo.

A composição do segundo álbum da banda prosseguiu, tendo o resultado final sido intitulado de Too Rye Aye. Novo álbum significa novo visual para os Dexys. Desta vez, a banda vestia-se num híbrido memorável entre o estilo cigano e irlandês rural. A soul mantinha-se como a principal componente do som da banda, mas a esta vinha-se juntar uma componente pop muito mais refinada que no primeiro disco e elementos de música tradicional celta. Precedendo o disco, foram lançados os singles ‘The Celtic Soul Brothers’, que apenas chegou à posição quarenta e cinco da tabela de vendas, e ‘Come on Eileen, que já abordámos neste artigo. O sucesso deste último ajudou o disco a atingir o segundo lugar no top britânico de vendas e o 14º lugar no top americano, tendo sido certificado com platina no Reino Unido, marca que oficializa terem sido vendidas mais de 300 000 cópias de um disco.

A obra incompreendida de Don’t Stand Me Down

Sem ainda uma secção de sopros definida, a banda começou a trabalhar no final de 1983 no que viria a ser o seu último álbum lançado durante a década de 1980. Don’t Stand Me Down seria lançado em 1985, e viria a ser considerado como a obra prima máxima da banda.

dexys 85
O seu terceiro disco, Don’t Stand Me Down, revela mais uma mudança de vestuário. Desta vez, os membros dos Dexys Midnight Runners adornavam fato e gravata, simbolizando o amadurecimento da banda em termos musicais.

Don’t Stand Me Down foi gravado pelos quatro elementos que sobreviveram à turbulência das gravações de Too Rye Aye, em conjunto com músicos contratados para as sessões. Era suposto ser a afirmação artística derradeira da carreira de Kevin Rowland. E acaba por ser, mesmo que em 1985 não tenha sido recebido de forma positiva. É um álbum arrojado nos seus arranjos, que agarra a sonoridade característica da banda e torce-a com um toque progressivo na composição das músicas. A inclusão de várias passagens de spoken word confere ao disco uma história linear contada pelas palavras e voz de Kevin Rowland, numa performance vocal que pode ser facilmente comparada a Van Morrison.

Mas, no entanto, se o disco hoje é visto como a obra prima máxima artística de Kevin Rowland, tal como o mesmo pretendeu, por críticos e fãs, em 1985 os desacatos começaram a surgir. As tensões entre Rowland e a editora da banda atingiram o pico, e o facto do álbum ter um conceito tão arrojado e perfecionista fez com que esta não tivesse muito interesse em promover este trabalho. Nenhum single foi lançado para promover o disco, que acabou por atingir o seu pico com o 22.º lugar no top de vendas do Reino Unido. Acabou por ser um falhanço de vendas total, e a própria crítica musical da altura não foi particularmente simpática para com o disco.

Rowland considera que Don’t Stand Me Down foi o seu ponto alto em termos de criatividade. “Não podia fazer melhor que isto [Don’t Stand Me Down]. Dei tudo de mim, e a editora mandou tudo por água abaixo.” Os Dexys continuaram em atividade até 1987. Pelo meio, ainda lançaram mais um single, ‘Because of You’, que chegou ao 13º lugar na tabela de vendas do Reino Unido, fruto de ter sido usado como o tema da série de comédia da BBCBrush Strokes.

O regresso dos Dexys

Depois do término dos Dexys, a vida de Kevin Rowland entrou numa espiral descendente, que iniciou no falhanço total de Don’t Stand Me Down. Culminou, mais tarde, numa performance no festival de música de Reading, em 1999, onde o público lhe atirou garrafas, devido à (falta de) qualidade do que estava a acontecer em palco. Pelo meio, declarou falência em 1991 e passou por uma grave crise de depressão e drogas. Os seus dois álbuns a solo foram um fracasso tremendo, e a imagem de um génio perfecionista e controverso andou pelas ruas da amargura durante a década de 1990.

Rowland tentou várias vezes reunir a banda, com a qual havia obtido a sua fama. Em 2003, o seu regresso foi anunciado, mas só nove anos volvidos haveria novo disco. Agora apenas conhecidos por DexysOne Day I’m Going to Soar foi o retorno triunfante que o génio de Kevin Rowland merecia.

É uma continuação da sonoridade explorada em Don’t Stand Me Now, mas que soa ainda mais refinada na sua produção, instrumentação e arranjos. A grande diferença surge na inclusão de uma voz feminina ao lado de Rowland, que contribui para uma dinâmica muito interessante no desenvolver do disco. Este foi bastante bem recebido por fãs e críticos. O mais recente lançamento da banda ocorreu em 2016, com o álbum de covers Let the Record Show: Dexys Do Irish and Country Soul.

Talvez poucas, ou nenhumas, das bandas consideradas one-hit wonders tenham a carreira e aclamação crítica que os Dexys Midnight Runners possuem na sua história. Kevin Rowland pode ser uma das figuras mais controversas da música inglesa, mas ao mesmo tempo, é das mais geniais e importantes. Os Dexys foram uma banda que se reinventou a cada disco que lançou ao mundo, com uma capacidade camaleónica de crescer a cada disco. A sua imagem e música andavam sempre de mãos dadas para conferir a melhor apresentação possível da identidade pretendida. A sua música merece ser celebrada muito além de um dos mais incríveis números da pop de sempre.

Mais Artigos
Cama máscara relações sexuais
Como a pandemia afeta as nossas relações sexuais?