Fernando Daniel
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Fernando Daniel: “Sinto ainda um estigma de alguém que vem de um programa de talentos”

Dois anos depois de ter apresentado o seu disco de estreia, Fernando Daniel lança esta sexta-feira, 10 de julho, o seu segundo trabalho discográfico, intitulado Presente, “mais forte em termos de composições, em termos de músicas” e que resulta da sua evolução enquanto artista.

Em entrevista ao Espalha-Factos, o jovem artista revelou que, com este Presente, pretende afirmar o seu nome no panorama musical português, combatendo um estigma que ainda sente de ter saltado para a fama com a vitória, em 2016, no The Voice Portugal.

O que é que significa o título deste novo trabalho, Presente?

Presente poderia ser um presente de prenda como um presente de passado-presente-futuro, mas é um Presente de presença, ou seja, de me afirmar. É essa a mensagem que eu quero passar: que estou presente na música em Portugal. Quero afirmar-me ainda mais como artista, porque sinto que existe ainda um estigma em algumas pessoas de alguém que vem de um programa de talentos ou de alguém que consegue ter um sucesso inicial muito grande.1

Que alterações traz face ao disco de estreia, Salto?

A meu ver, é um disco muito mais forte em termos de composições, em termos de músicas. Embora o público-alvo seja dos 15 aos 35, acho que continua a ser um disco que é facilmente acessível a toda a gente. Tem músicas para todos os gostos: tem uma ou outra música mais triste, uma ou outra música mais motivadora, uma ou outra música mais dançada, podemos dizer assim. Tem uma sonoridade, em algumas músicas, mais pop-rock, mas foi um estilo que eu quis mais abordar, mantendo o pop muito mais presente que o rock, como é óbvio.

Este segundo trabalho chega dois anos depois do teu disco de estreia. Este foi o tempo necessário para conseguires consolidar uma identidade musical?

Eu não diria consolidar, acho que, no fundo, fui ficando mais maduro, fui crescendo também enquanto artista e enquanto pessoa e fui percebendo melhor o que é que eu queria transmitir como artista. Preocupei-me muito mais com a parte da produção, a parte estética das canções. Foram dois anos que serviram para eu crescer, para perceber o que é que eu queria para o segundo disco e acho que, fazendo uma retrospetiva, não mudaria nada neste disco. Acho que está exatamente como eu sonhava ter.

Dos 11 temas que compõem o álbum, três deles — ‘Se Eu’, ‘Melodia da Saudade’ e ‘Tal Como Sou’ — já eram conhecidos do grande público. Este é, assim, um Presente com raízes em tudo o que tens vindo a fazer?

Sim, são três singles que já estavam, desde o ano passado, presentes, têm sido grandes sucessos e ainda bem. Este ano, também como singles deste disco, lancei o ‘Cair’, durante a quarentena, e também o ‘Recomeçar’, há cerca de um mês e que já conta com mais de um milhão de views. São singles que também pertencem a este disco e que mostram a parte comercial do disco, ou seja, a parte que as pessoas estão habituadas a ouvir. Depois, dentro do disco existem músicas que, a meu ver, podem surpreender as pessoas, mas a ideia é mesmo essa: deixar as surpresas no disco.

Em relação a esses dois últimos singles revelados: o primeiro fala de sacrifício, o segundo da necessidade de recomeçar. Foram escolhas feitas tendo em conta o contexto em que vivemos?

Não foram de todo, inclusive o ‘Cair’ era para ser lançado em fevereiro e tivemos de atrasar tudo isto. Acontece que a música, por acaso, calhou falar de algo que estávamos a viver, foi pura coincidência. Decidi ir para a frente com esta canção, porque achei que vinha a calhar no momento certo. O ‘Recomeçar’ vem numa altura em que, também por pura coincidência, a pandemia estava a abrandar e estávamos a recomeçar outra vez as nossas vidas de uma forma mais natural.

Parece que o Presente vem assim na altura certa…

Sim, eu acho que o Presente vem numa altura certa. Vem numa altura em que eu também estou parado, infelizmente, devido à inexistência de concertos, neste caso ao cancelamento de concertos: eram 60 concertos este ano, ainda não fiz nenhum. Quero aproveitar este tempo para mostrar às pessoas este disco que tenho andado a preparar. Acho que não há uma altura certa para lançar seja o que for, acho que a altura certa será ditada pelo impacto que o disco vai ter, ou seja, se o disco correr super bem, é porque foi a altura certa, se correr super mal, é porque a altura não era a melhor ou, se calhar, porque o disco não está assim tão bom como eu achava que estava. Mas eu quero acreditar que vai tudo correr bem, que as pessoas vão gostar e que será a altura certa.

Durante o período de confinamento, mantiveste o contacto com os fãs através das redes sociais. Sentiste essa necessidade de levar música a casa das pessoas numa altura em que a indústria estava fortemente afetada?

Sim, senti essa necessidade, porque essas pessoas sempre estiveram lá para mim, em concertos, são essas pessoas que fazem com que os meus singles virem ouro e platina, os milhões de views no YouTube. Essas pessoas também merecem que exista esta proximidade da minha parte, eu não poderia ignorar isso, não podia fingir que estava tudo bem, porque, apesar de eu também estar a passar por uma situação nessa altura que qualquer artista estava e poderá estar ainda a passar, não podia ser egoísta ao ponto de me esquecer dessas pessoas. Então, tentei, de certa forma, aproximar-me dessas pessoas e tentei entretê-las um bocadinho, porque ser artista é também ser entertainer. Acabo por ter de fazer jus à vida que escolhi.

Já na fase de desconfinamento, foste um dos artistas que participaram no festival solidário Regresso ao Futuro. Como é que foi regressar a palco, presenciando esta nova realidade da cultura?

Foi estranho ver toda a gente de máscara, foi um bocadinho doloroso até, e ver aquele distanciamento todo, mas é melhor isso que estar em casa, sem nenhum tipo de evento que apoie a cultura e as pessoas que vivem da cultura. Por isso, em geral, até foi bom regressar: foi bom ter aquele horário para chegar, ter aquele restaurante, perguntarem-me o que é que eu quero jantar, o que é que eu quero no catering, o que é que não quero. Sentia falta de tudo isso. Foi bom regressar e ter, assim, um bocadinho daquilo que é a vida em tour. Deu para matar algumas saudades do palco e de ouvir as pessoas cantarem as nossas canções, porque isso, para mim, alimenta-me bastante. Eu, se num concerto ouvir as pessoas cantarem as minhas canções, fico super bem.

No alinhamento desse concerto, já desvendaste um pouco deste álbum?

Não, cantei apenas o ‘Cair’ e o ‘Recomeçar’, para além das outras três — ‘Se Eu’, ‘Melodia da Saudade’ e ‘Tal Como Sou’ — que já cantava no ano passado. Mas incluí esses dois novos singles. Correu super bem, as pessoas já as cantavam, teve um impacto muito fixe, ou seja, é sinal de que as coisas estão a ser bem feitas e que estão a correr como nós planeámos.

A par deste novo álbum, estava igualmente prevista uma tour que iria correr Portugal. Essa intenção de percorrer o país em digressão ainda se mantém?

A intenção mantém-se. Agora acontece é que não sabemos se haverá essa possibilidade, devido a todas as normas de segurança que neste momento existem, porque, como eu tinha dito há bocado, eu tinha 60 concertos que neste momento foram adiados e cancelados. Ainda não fiz nenhum. Mas espero que para o ano, em 2021, e em 2022 também, que possa fazer jus a este disco com uma tour especial e melhor que a primeira.

Para tentar também contornar essa possibilidade de não poderes regressar por completo a palcos, anunciaste a apresentação do álbum de uma forma diferente…

Exatamente, a apresentação do álbum vai ser no Hard Club, no Porto, no dia 6 de agosto, com uma capacidade para 200 pessoas. Mas, o que nós queremos mesmo, é as pessoas de casa: as pessoas podem assistir a este concerto, compram um bilhete que tem um custo de dois euros e têm acesso ao concerto [através da plataforma CLIVEON]. Ao comprarem o disco na Fnac vem com um bilhete oferta para este evento.

Essa digressão culminaria com a estreia nos coliseus do Porto [a 24 de outubro] e de Lisboa [a 7 de novembro]. Era algo que ambicionavas?

Sim, é algo que, sem dúvida, eu ambicionava e ainda ambiciono, apesar de existir a possibilidade de serem adiados, devido às normas, porque, pelo que se tem visto, só metade dos espaços é que pode ser preenchida, ou seja, se um sítio tiver uma lotação de 100, só podem estar no máximo 50 pessoas. Acontece que para os coliseus já tenho mais de metade dos bilhetes vendidos, tanto num como noutro, e não posso deixar pessoas de fora e permitir a entrada a outras. Portanto, se tudo se mantiver assim, teremos de adiar os coliseus e os bilhetes são válidos. Agora, acontece que eu gostava muito de poder fazer os coliseus o mais brevemente possível sem essas normas todas, mas em primeiro lugar está a segurança das pessoas e é pelas pessoas que vamos zelar.

Não equacionaram a possibilidade de adicionar uma segunda data nesses dois espetáculos?

Já equacionámos, só que o que acontece é que a data fica muito afastada, ou seja, o normal é fazer-se duas datas seguidas, só que os coliseus também têm outras marcações a seguir e antes, o que está a tornar impossível a realização dessa manobra. Portanto, temos de ver realmente como é que iremos fazer.

Já havia planos para esses concertos? Haveria participações especiais?

Sim, existiriam participações do Agir, do Jimmy P, possivelmente dos Melim, mas também devido ao que se vive no Brasil agora pode não acontecer, porque existe lá uma ameaça ainda maior que a nossa aqui, neste momento, no que toca à Covid-19 e eles podem não conseguir vir. Depois, há toda uma preparação cénica diferente, visualmente também diferente, inclusive estou a tentar ver se consigo ter um ou outro elemento de pirotecnia, é difícil num espaço fechado, mas ainda ambiciono isso e estamos a trabalhar para que isso aconteça.

No site da bol consta a informação de que o concerto em Lisboa será gravado em áudio e vídeo. Essa estreia vai ficar guardada em DVD?

Exatamente, existem várias possibilidades: o concerto pode ir para a Netflix, pode ir apenas para o YouTube, pode ser transmitido na televisão — neste caso penso que é a RTP que vai gravar —, pode ser um DVD, pode pertencer a um documentário. Há muitas possibilidades que depois podemos trabalhar com esse registo, mas, lá está, ainda não sabemos ao certo qual será a nossa manobra, temos de perceber qual é que irá resultar melhor.

O teu primeiro álbum valeu-te o galardão de Disco de Ouro e o reconhecimento de “Melhor Artista Português” nos prémios MTV. Como é que esperas que seja recebido este Presente?

Eu espero que este novo álbum seja recebido da melhor maneira: se for recebido como o Salto, é ótimo, se puder receber novamente um prémio MTV como “Melhor Artista Português”, ótimo. Mas, neste momento, quero mesmo é que o disco seja um sucesso, quero muito que isso aconteça. Neste momento, também estou nomeado para os prémios Play para “Melhor Artista Masculino”, é um prémio que eu também gostava muito de vencer, apesar de estar nomeado juntamente com artistas enormes e fantásticos do nosso país. É um orgulho estar nomeado no meio deles. Gostava muito de vencer esse prémio. Gostava também de ser nomeado outra vez e de ganhar o prémio da MTV. Mas isso tudo só é possível com trabalho e uma coisa que eu posso garantir é que cá estarei para trabalhar e para lutar por esses objetivos.

feedback que tens sentido destes novos singles, também no concerto #RecomeçarEmOvar, já pode ser um prenúncio para o que pode ser a receção?

Eu não me quero muito guiar pela receção desses dois singles porque foram lançados a meio de uma pandemia e numa altura anormal. Mas, se eu me quiser guiar por aí, já será muito positivo. Mas espero que ainda seja mais positivo e que as pessoas gostem ainda mais deste disco do que o primeiro. Como eu estava a dizer no início, acho que é um disco mais forte, espero que tenha mais sucesso.

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