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Surdina | Fonte: NOS Divulgação

Crítica: ‘Surdina’, um filme sobre desconfinar o coração

A tragicomédia minhota já está em exibição nos salas de cinema

Surdina, a nova longa-metragem de Rodrigo Areias com argumento de Valter Hugo Mãe, chegou esta quinta-feira (9 de julho) aos cinemas portugueses.

Com banda sonora de Tó Trips (Dead Combo), esta comédia trágica rodada em Guimarães narra a história de Isaque, um velho solitário, que recebe a notícia de que a sua falecida mulher foi avistada na feira da aldeia com um novo namorado. O filme, que estreou esta semana nos cinemas portugueses, conta com participações exímias de António Durães, Ana Burstoff, Mário Moutinho, Emília Silvestre, Adelaide Teixeira e Jorge Mota.

António Durães dá vida a Isaque, o solitário ancião preso numa rotina repetitiva. Dá comida às dezenas de pássaros que tem presos numa gaiola, cozinha e deixa os restos para o seu animal de estimação, sempre escondido. Vai à tasca beber vinho em tigelas com os amigos da aldeia e à mercearia comprar cravos vermelhos, todos os domingos, para deixar na campa da sua falecida esposa, Maria das Dores. Isto é, até descobrir que na verdade ela anda pela aldeia, viva, com um namorado. Isaque torna-se o assunto da aldeia. As coscuvilheiras de plantão metem-se na sua vida a pretexto de se preocuparem com ele; os amigos da tasca usam esta nova descoberta para aproximá-lo de uma solteirona da vila, Dona Micas (Ana Burstoff) que, dizem, gosta dele há imenso tempo.

Isaque isola-se dos amigos e segue a sua vida, recusando a venda dos seus terrenos queimados a um empresário da cidade. Continua a levar os cravos à campa da sua “falecida”,  entra em confronto com quem o provoca sobre o assunto, e continua a alimentar o animal misterioso que vive no seu jardim e que emite sons aterradores entre quatro paredes.

Surdina: um caso de misticismo e realidade

Surdina é um caso especial na cinematografia portuguesa. Conta, autenticamente, a história de uma pequena aldeia e dos seus moradores. Inclusivamente, vários dos participantes do filme não são atores, mas residentes de São Cristóvão do Selho. Em entrevista ao Sapo, Rodrigo Areias declarou que “algumas pessoas são reais, não são atores, como por exemplo a velhota da mercearia, a senhora da padaria ou o homenzinho que está à porta da tasca. São pessoas reais a serem atores, obviamente, a fazerem de si mesmos, e achei por bem convidá-los a fazer parte do filme de forma descomprometida. Mas para mim, Surdina é toda uma realidade muito próxima.” Os atores fazem um belíssimo trabalho, encaixando-se perfeitamente nesta realidade bucólica.

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Na Tasca do Manoel, a beber vinho de tigelas. Fonte: NOS Divulgação

Ao mesmo tempo, o filme está envolto num misticismo etéreo, e é aqui que entra a talentosa mente de Valter Hugo Mãe. O estilo do autor de livros como A DesumanizaçãoA Máquina de Fazer Espanhóis O Filho de Mil Homens é bastante aparente no filme — os diálogos parecem algo saído de uma das suas produções literárias, assim como a criatura no jardim, sendo que as suas obras incorporam, quase sempre, algo do incógnito ou aparentemente incompreensível.

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A banda sonora composta por Tó Trips ajuda a consolidar a aura incorpórea desta produção. Em declarações à Antena 3, o compositor e guitarrista referiu que tentou incorporar a tradição, a velhice e o afastamento que vemos no filme e que foi a primeira vez que se aventurou no piano. Durante a apresentação do filme em sala, o músico atuará em várias sessões em formato cine-concerto, na sexta-feira (10 de julho) no Centro Cultural de Vila Flor, em Guimarães, e no dia 15 de julho no Cinema NOS Amoreiras, em Lisboa.

O argumento, a realização, e a banda sonora fundem-se para criar uma das mais bonitas e ímpares obras do ano. Somam-se as interpretações lapidares, de atores admiráveis, que realmente se confundem com os moradores da idílica aldeia. A única coisa que fica por descobrir é a grande criatura desconhecida – isso fica à interpretação de cada um.

Os próximos parágrafos contêm spoilers

No fim do filme, finalmente vemos a mulher de Isaque, Maria das Dores, uma mulher dura e insensível, que lhe diz que deve matar o bicho e soltar os pássaros. O velho solitário consente. Talvez a criatura seja sinónimo da sua profunda solidão, e o libertar dos pássaros acabe por significar a sua própria libertação.

Acabamos o filme com um Isaque emancipado, doce e feliz, que vai ao encontro de Dona Micas, a tímida e modesta trabalhadora do campo que os amigos empurraram para si. Sentam-se os dois num banco, com o cão de Micas ao pé, a olhar para o horizonte e, finalmente, a desconfinar o coração.

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"Surdina", um filme sobre o desconfinar do coração
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