Ennio morricone
Luca Bruno | Associate e Press

Ennio Morricone: Recorda as bandas sonoras mais icónicas do compositor

Esta segunda-feira (6) amanheceu com a notícia do falecimento do lendário compositor italiano Ennio Morricone. Cerca de 500 bandas sonoras de cinema e televisão e uma centena de composições clássicas assinalam os seus 60 anos de carreira, cujo início é marcado pela banda sonora da comédia italiana de 1961, The Fascist, de Luciano Salce.

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Na sua alma mater, a Academia Nazionale di Santa Cecilia, Morricone estudou trompete, composição e direção. O compositor nunca aprendeu a falar inglês, raramente saía de Roma. Em 2007, fez uma das suas escassas visitas aos Estados Unidos da América para receber o Óscar Honorário pela sua obra (um lifetime achievement) e para uma digressão de um mês, pontuada por um festival dos seus filmes. “Ouvia a música na sua mente, escrevendo tudo em folhas pautadas para cada parte da orquestra, compondo não no seu piano, mas em frente a uma secretária”, reporta o obituário do The New York Times.

Ennio Morricone
Imagem: Meeting Rimini/Flickr

spaghetti western é o género mais recorrente entre as suas composições, mas da lista também constam dramas, épicos religiosos, terror, filmes políticos e comédias. De entre os inúmeros filmes e séries (a faixa ‘The Man With The Harmónica’, da célebre série The Sopranos foi composta pelo italiano) que receberam o “toque de Morricone”, o Espalha-Factos escolheu sete bandas sonoras que fazem parte do espólio de Ennio Morricone.

1. Sacco & Vanzetti

Estreado em 1971, este docudrama, realizado por Giuliano Montaldo, narra a história de dois italianos anarquistas condenados à morte pelo assassinato de um guarda e um tesoureiro num roubo de uma fábrica de sapatos, em Massachusetts.

A banda sonora reforça a energia ítalo-americana do filme, com composição e condução de Ennio Morricone e letra da cantora folk Joan Baez que, na faixa principal do filme, ‘The Ballad of Sacco and Vanzetti Part 1′, utiliza versos do soneto inscrito no pedestal da Estátua da Liberdade.

A música de Sacco & Vanzetti é considerada uma das composições mais clássicas do maestro, com arranjos de cordas adicionados posteriormente e partes compostas em guitarra clássica.

2. Era uma vez na América 

A parceria entre Sergio Leone, realizador de Era uma vez na América, e Ennio Morricone vem desde Um Punhado de Dólares, o western que deu a Clint Eastwood o seu primeiro papel enquanto protagonista, em 1964. Desde então, o realizador e compositor vieram a colaborar em diversos filmes, incluindo este drama criminal épico, com atuações de Robert De Niro e James Woods. A banda sonora foi concluída antes do filme e, por isso, Leone tocava as músicas no set de gravações enquanto elas ainda decorriam.

O aspeto mais notável desta banda sonora é a flauta de pã, tocada por George Zamfir, incorporada para equivocar sentimentos como a nostalgia e o terror. A vocalista Edda Dell’Orso, que já tinha colaborado com o compositor em Era uma vez no Oeste, é a voz principal desta banda sonora.

3. Cinema Paradiso

Em 1988, Giuseppe  Tornatore celebrava a infância e o medium do cinema em Cinema Paradiso, que rapidamente se tornou num clássico do cinema italiano. As peripécias de Salvatore e Alfredo ficaram imortalizadas ao som de Ennio Morricone e do seu filho Andrea Morricone, que foram as primeiras escolhas de Tornatore.

Para dar vida a esta “semi-autobiografia” do realizador, Morricone apostou num conjunto mais restrito, com instrumentos de sopro, piano, celesta, cordas, e saxofones e instauraram o mood de nostalgia, com o Tema Principal, de vivacidade com o Tema do Toto e de amor perdido, com o Tema do Amor, que surge sempre que o amor de Elena e Salvatore pinta o grande ecrã.

O trabalho da dupla pai-filho mereceu um BAFTA em 1991.

4. Queimada!

O filme de Gilo Pontecorvo sobre a criação de uma república tropical nas Caraíbas — a fictícia Queimada, uma terra possuída por portugueses nas Pequenas Antilhas — tem como protagonista Marlon Brandon no papel de um general britânico sob disfarce, manipulador da revolta de escravos que passam a assumir os interesses do comércio de açúcar. Este filme de guerra retrata várias personagens da história americana como William Walker e o agente de inteligência Edward Lansdale, que serviu os EUA nas Filipinas e na Indochina.

É uma das bandas sonoras mais distintas de Morricone, mais tensa do que a maioria das suas composições, com órgãos ameaçadores e coros fantasmagóricos, tão incomum quanto o filme em questão.

 5. Os Oito Odiados

Realizado por um dos mais conceituados realizadores do século XXI, Quentin Tarantino, Os Oito Odiados é o primeiro filme do realizador com banda sonora original. Ennio Morricone compôs 50 minutos de material com várias referências a bandas sonoras de terror como a de A Coisa, o filme de 1982 de John Carpenter.

Há muito que Tarantino ansiava pela participação de Morricone num dos seus projetos: Morricone recusou o convite para compor a banda sonora Pulp Fiction, em 1994, e em 2008 voltou a recusar a participação em Bastardos Inglórios pela velocidade galopante com que Tarantino desenvolvia os processos de produção da película.

Foi o primeiro western para qual compôs desde Buddy Goes West e por ele recebeu o prémio de Melhor Banda Sonora Original, nos Óscares em 2016.

6. Os Intocáveis 

Em 1987, Brian de Palma realizava Os Intocáveis, com atuações de Kevin Costner, Robert De Niro, Sean Connery e Andy García. Um elenco de luxo só poderia contar com uma banda sonora à altura, e foi Morricone o escolhido para esta missão.

O filme segue a tentativa de Eliot Ness (Costner) de levar Al Capone (De Niro) a enfrentar a justiça, juntamente com os Intocáveis. As composições de Morricone configuram o tom e o próprio cenário, e todas as cenas beneficiam da emoção invocado pelas harmonias emanadas dos instrumentos, mostrando um compositor multifacetado, que não se cinge a um género.

7. O bom, o mau e o vilão

Considerado o grande sucesso de Sergio Leone de 1966, este spaghetti western conta com uma das melodias mais famosas da História do Cinema. Replicada em variados filmes, o ‘Tema Principal do O Bom, O Mau e o Vilão’ tornou-se num dos marcos da carreira de Morricone.

O processo de composição da banda sonora foi, também ele, revolucionário — Leone e Morricone trabalharam juntos antes sequer das gravações começarem, para que a composição fosse um motor de inspiração para o filme e não o contrário. O realizador utilizava as músicas a meio das gravações, coordenando o movimento das câmaras com o tom das músicas.

Para esta banda sonora, Morricone contou, novamente, com Edda Dell’Orso, que deu voz à canção ‘The Ecstasy of Gold’, uma das mais famosas da sua carreira, imortalizada pela cultura popular.

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