filmes 2020
Imagens: Bacurau - Divulgação / Das 5 Blood - Divulgação Netflix / Emma. - Divulgação Focus Features

Os melhores filmes de 2020 até agora

O Espalha-Factos traz-te uma lista dos melhores filmes que saíram na primeira metade de 2020

Este tem sido um ano, no mínimo, complicado para o mundo do cinema. Parece que já passou uma vida inteira desde que o monstruoso Parasitas foi aclamado com a vitória do Óscar de Melhor Filme, em fevereiro. De forma abrupta, um mês depois da noite mais famosa da sétima arte, as salas de cinema do mundo inteiro tiveram que encerrar as suas portas devido ao aparecimento da Covid-19. Mas será que, com tudo o que tem acontecido no mundo do cinema, chegaram a estrear bons filmes em 2020?

Nos Estados Unidos da América, por exemplo, os cinemas continuam fechados até à data, dado os números elevados de infeções de Covid-19 em alguns estados e, em outros, o medo de uma segunda vaga. As produções cinematográficas sofreram um interregno, os festivais foram cancelados, adiados ou reformulados para um conceito digital. A maior parte dos filmes mais esperados deste ano foram adiados para a segunda metade de 2020, ou até para o ano seguinte. A cerimónia dos Óscares de 2021, que era para se realizar em fevereiro do ano seguinte, passou para abril, com novas regras. Para o espectador mais desatento, o ano corrente pode parecer que está a ser uma desilusão no que toca à oferta cinematográfica, mas não é bem assim.

No meio do clima de tensão e incerteza, inúmeros filmes excelentes têm saído para o grande público através do chamado cinema “virtual”, o mundo das plataformas digitais e de streaming, e até em cinemas drive-in. Desde dramas a documentários, romances e comédias, o que tem sido lançado não fica nada atrás em comparação com as histórias que saíram nos últimos anos. O Espalha-Factos reuniu-te uma lista dos melhores filmes que saíram, até à data, em 2020, para poderes apreciar o melhor que se tem feito numa indústria que precisa do nosso apoio para sobreviver.

Never Rarely Sometimes Always

Autumn, interpretada por Sidney Flanigan, é uma rapariga de 17 anos que decide interromper a gravidez. Mas, sendo menor, não o pode fazer no estado norte-americano em que vive, a Pensilvânia, dado que a lei não o permite. Então, às escondidas da mãe, compra um bilhete de autocarro para Nova Iorque, onde poderá abortar de forma legal. A acompanhar Autumn nesta sufocante e solitária viagem está a sua prima, Skylar (Talia Ryder).

O filme, realizado por Eliza Hittman, retrata os problemas que o mundo real coloca à frente de jovens raparigas parecidas a Autumn e Skylar com precisão. É uma jornada marcada por visitas médicas inquietantes, ansiedade, e o medo sentido às mãos de homens abusadores sexuais, que se sentem demasiado confortáveis no mundo em que vivem. O filme fala alto e bem quando coloca a câmara ao nível dos olhos silenciosos de Autumn, o profundo retrato de uma geração de mulheres sufocadas pelo escrutínio e opressão de que é alvo. É ainda mais tocante por parecer tão normal. Never Rarely Sometimes Always ganhou vários prémios no Festival de Sundance e no Festival de Cinema de Berlim, e é um dos melhores filmes do ano, mas é também um dos mais difíceis de ver. Fica aqui altamente recomendado.

First Cow

First Cow é um filme especial e mais um sucesso da produtora A24. O realizador Kelly Reichardt já tinha dado várias provas do seu brilhantismo no seu passado, com histórias pequenas em dimensão mas especiais no seu conteúdo, como Wendy e Lucy, Certain Women, Night Moves e O Atalho, mas chega agora ao ponto alto da sua carreira. Adaptado do livro de Jonathan Raymond, The Hard Life, o filme gira em torno da história de um chef nómada, Cookie (John Magaro) que, depois de ter chegado a um forte localizado a noroeste do Pacífico, trava amizade com o solitário King Lu (Orion Lee), que está em fuga.

A dupla passa a cozinhar e a vender bolos, feitos com leite roubado de uma vaca leiteira, propriedade do próspero Chief Factor (Toby Jones). A tentativa de Cookie e de King Lu de superarem a sua frágil posição socioeconómica através deste esquema criminoso leva-os a correr riscos que podem acabar numa catástrofe. Apesar deste suspense em torno do futuro das duas personagens principais, o filme é emotivo, sensível, e torna-se sereno com o seu uso da paisagem natural e rural, através da água a correr e os pássaros a cantar, enchendo o ecrã de contemplação. É uma visão emocional de uma amizade masculina que tenta lutar contra a perigosa máquina capitalista.

O filme realizado por Kitty Green é um dos primeiros a enquadrar-se, com sucesso, no movimento #MeToo, e é um retrato do dia-a-dia mundano de Jane, em que o abuso sistémico e as injustiças no seu local de trabalho são já normais, provocados pela diferença de género. Apesar de quem assistir A Assistente nunca ouvir nele uma referência a Harvey Weinstein – o produtor de cinema cujos abusos deram origem ao movimento #MeToo depois de este ter sido denunciado e condenado por ter abusado e assediado sexualmente mais de oitenta mulheres – a verdade é que a sua presença está marcadamente na história do filme.

Julia Garner interpreta Jane quesó pelo facto de estar no fim da cadeia de uma empresa produtora de filmes, se vê obrigada a vergar perante maus tratos contínuos. O filme é um retrato bastante competente do assédio sexual e das várias formas que este pode tomar na vida de uma mulher, tornando-se silenciosamente devastador e perpetuando a toxicidade masculina e o machismo nas estruturas profissionais de poder – fenómeno que parece não ter fim, mesmo com Weinstein na prisão.

Emma. 

O romance de Jane Austen já foi adaptado inúmeras vezes para o grande ecrã, mas a mais recente adaptação, levada a cargo por Autumn de Wilde, é vibrante e cheia de cores pastel que enchem cada frame de forma meticulosa, dando uma nova dinâmica à história e tornando-a mais moderna. Ancorado pela deliciosa interpretação de Anya Taylor-Joy, no papel da egocêntrica Emma Woodhouse, o argumento é bastante fiel ao livro, não esquecendo o seu tom satírico, que muitas vezes é deixado de lado quando os livros de Austen são reproduzidos em longas-metragens.

O filme aborda as tentativas de Emma para arranjar um par romântico para a sua amiga, Harriet Smith (Mia Goth), enquanto ela própria percebe que começam a florescer em si sentimentos pelo cunhado da sua irmã, George Knightley (Johnny Flynn). À cabeça de um elenco portentoso (que inclui ainda o eterno Bill Nighy) está Taylor-Joy, que balanceia na perfeição uma dose harmoniosa de arrogância inocente mas também de ambição, qualidades que vão sendo cada vez mais atenuadas quando Emma percebe que, por mais manipulações que tente pôr em prática, estas não escondem o que o seu coração realmente sente. Um filme divertido e visualmente bonito harmonioso, a fazer lembrar os filmes de Wes Anderson.

Bacurau

Na cidade fictícia de Bacurau, no nordeste do Brasil, os seus habitantes ficam perplexos quando descobrem que as suas habitações desapareceram de todos os mapas e sistemas de GPS, não tendo igualmente rede nos telemóveis. Mais estranho ainda são os drones que passam a sobrevoar o céu da cidade, sem qualquer tipo de explicação aparente. Bacurau é realizado por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e é um filme que mistura vários géneros com sucesso, desde fantasia, ficção científica, western e horror.

A história é ambiciosa, colocando os seus moradores numa luta pela sobrevivência tanto contra habitantes de São Paulo, como contra um grupo de turistas ocidentais assassinos, que viajaram para a América do Sul para promover a chacina total. Sendo uma representação da dinâmica geopolitica atual, debruça-se sobre a forma como uma população pode ser explorada até à exaustão. Bacurau conquistou o Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2019.

Da 5 Bloods

Da 5 Bloods narra a história de quatro veteranos afro-americanos da Guerra do Vietname, que retornam a este país que os juntou, até ao fim das suas vidas, para reclamarem um tesouro que enterraram décadas atrás, e para resgatarem os restos mortais do corpo do líder do seu esquadrão, Norman (Chadwick Boseman), que morreu durante a guerra.

O grupo é constituído por Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock, Jr.), a quem se junta o filho de PaulDavid (Jonathan Majors), e juntos embarcam  em viagem para o Vietname, um local que carrega ainda as marcas de uma guerra sangrenta e mortífera. Com Da 5 Bloods, Spike Lee vem novamente, de forma soberba, focar os olhares da América nas injustiças que durante anos, e até aos dias de hoje são perpetuadas contra os afro-americanos, tornando o filme em uma acutilante correção histórica, como já é tradição. É um dos melhores filmes do ano, um dos sérios candidatos aos Óscares e podes ler a crítica feita pelo Espalha-Factos aqui.

O Homem Invisível 

Na altura em que saiu, e apesar de ter na sua génese a componente do terror (psicológico), este filme parecia estar alinhado, de forma arrepiante, com a realidade que cercou o seu lançamento. Na ressaca da condenação de Harvey Weinstein por dois crimes sexuais, incluindo violação em terceiro grau, Elizabeth Moss interpreta, com o talento habitual, uma mulher que está a tentar escapar às mãos do seu abusivo marido, que arranjou forma de se tornar invisível.

Ao longo de duas horas conseguimos sentir o terror existencial que Moss transmite quando dá vida a uma sobrevivente de abusos que é desacreditada, e somos testemunhas da forma como os predadores podem manipular as suas vitimas, tentando inverter os papéis de acusadora e acusado. É uma história que nos é demasiado familiar, tão antiga quanto a existência do mundo, que combate a misoginia que existe em torno das mulheres que ganham coragem para acusar os seus companheiros abusadores.

Bad Education

O filme narra um conjunto de intrigas que acontecem num dos locais mais inesperados que uma pessoa se pode lembrar: uma escola pública em Long Island. Hugh Jackman, que interpreta o papel principal de Frank Tassone, o superintendente do estabelecimento, tem recebido as melhores críticas da carreira à conta da sua prestação no filme, que é baseado na história verídica da maior fraude escolar que já aconteceu nos EUA.

O filme conta com uma das melhores interpretações de Dennehy em toda a sua carreira, sendo que a sua personagem tem ainda de cuidar de outro amigo e veterano, Roger (Jerry Adler), que está a perder a ligação à realidade lentamente, com o fantasma da morte a pairar sobre si. Há uma tristeza irreparável que se entranha pelo argumento, acrescentando profundidade a uma história que pode parecer simples à primeira vista, mas que traz uma lição de vida.

Realizado por Josephine Decker, Shirley é um drama psicológico fervoroso de época, em que uma jovem mulher chamada Rose (Odessa Young) se muda com o seu marido, Fred (Logan Lerman), para Vermont, onde este arranjou emprego como professor enquanto acaba a sua dissertação. O seu supervisor é o professor Stanley Edgar Hyman (Michael Stuhlbarg), casado com a brilhante escritora de livros de terror, Shirley Jackson (Elizabeth Moss), e o contacto com o jovem casal desencadeia uma série de revelações e seduções.

Moss, interpretando a mulher por detrás de obras como A Maldição de Hill House e o conto A Lotaria, é quem carrega o filme com uma performance coberta de fúria, abrindo as portas à mente febril da sua personagem, numa das melhores interpretações do ano. Shirley é cativante e até às vezes desorientador, assumindo um tom misterioso, onde o espectador deixa de conseguir distinguir com clareza o que é verdade ou mera ilusão.

Fourteen 

O filme independente de Dan Sallit é um clássico instantâneo no que toca a histórias sobre amizades complicadas. Tallie Medel e Norma Kuhling interpretam duas amigas de longa data, a primeira sendo a mais responsável e consistente das duas e a outra mais errática, dura, mas brilhante. Kuhling dá vida a Jo, a amiga dependente de Mara (Medel) cuja saúde mental começa lentamente a deteriorar-se, tendo consequências tanto na sua amizade como no resto das suas relações mais íntimas.

Fourteen mostra o desenrolar desta ligação através de cenas e eventos desfragmentados, deixando à audiência o papel de ligar os pontos. É uma meditação comovente sobre o valor da amizade, sobre as separações e o que é que devemos a outra pessoa numa relação, seja amorosa ou de amizade. Medel e Kuhling transformam este par estranho de amigas em algo real e palpável, através das suas magnéticas interpretações.

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