Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga
Fotografia: Divulgação

Realidade vs. ficção: Tudo o que está errado no filme da Eurovisão

Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga, o novo filme da Netflix dedicado ao maior evento de música do planeta chegou finalmente à plataforma. Realizado por David Dobkin e protagonizado por Will Ferrell e Rachel McAdams, o filme conta com as mais diversas incongruências. Vamos conhecê-las?

Em entrevistas de apresentação do filme, David Dobkin admitia que o mesmo não era por si só uma paródia da Eurovisão, já que o concurso em si era uma paródia. Sendo este o ponto de partida para a criação de Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga seria já de esperar o resultado que obtivemos: um filme de puro entretenimento, pouco fiel às regras da Eurovisão e despreocupado em contar a história e legado do concurso que conta já com 64 anos de existência.

Neste artigo vamos conhecer todos os erros, imprecisões e incongruências que fazem parte da narrativa deste filme, sendo que o vamos fazer de forma cronológica de aparecimento na longa-metragem. Além de ter tudo por base o Festival Eurovisão da Canção, a sua representação está tão dissonante da realidade que na verdade Dobkin acabou por fazer um filme sobre um concurso que nem existe.

*Aviso de spoilers. A partir de agora, naveguem à vossa responsabilidade.

1 – Os islandeses não gostam da Eurovisão e gritam com os seus músicos para tocarem outras músicas?

Frame do filme “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”

Provavelmente se um grupo de músicos quisesse tocar algum hit passado do Festival da Eurovisão num qualquer bar islandês não ia levar com apupos porque, na verdade, a Islândia é dos países que mais vê o certame, ano após ano. Em 2019, 171 mil islandeses viram a grande final de Tel Aviv (47% da população) e o share de audiência da emissão da Eurovisão foi de 98.4%. A grande noite contou com a performance dos Hatari, a primeira vez em cinco anos que a Islândia conseguiu a qualificação. Segundo a EBU foi o país com maior share de audiência nesse ano.

2 – Não é possível chegar aos primeiros ensaios sem saber o que fazer em palco.

Frame do filme “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”

Antes de sequer os artistas e delegações de todos os países chegarem ao país e cidade anfitriã, o palco e arena já estão prontos e a fazer ensaios de câmera, luz, som e pirotecnia. Todas as delegações são obrigadas a enviar um esboço da atuação que querem fazer e depois é-lhes enviado um vídeo dos stand-in rehearsals, onde cantores e dançarinos na cidade anfitriã atuam de acordo com o que foi pedido pelos diferentes países. Vejam aqui, por exemplo, o stand-in rehearsal de Fuego (Chipre 2018). Posto isto, é impossível um artista chegar ao palco para o primeiro ensaio e não saber o que vai acontecer.

3 – Não dá para mudar o mix da canção durante a fase de ensaios.

Frame do filme “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”

A EBU fixa todos os anos uma data para a submissão final das canções dos diferentes países, a partir desse momento não poderá haver mudanças. A data costuma ser pelo menos um mês, ou mês e meio antes da primeira noite do concurso, pelo que nunca seria possível mudar o mix de uma canção depois dos primeiros ensaios já terem ocorrido. Até a essa data estipulada pela EBU as músicas selecionadas, quer por seleção interna ou através de concurso, podem ser remisturadas, remixadas e até podem mudar de língua.

4 – Não são permitidas mais que seis pessoas em palco, por isso a Suécia estaria desclassificada.

Frame do filme “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”

Esta é das regras mais básicas e conhecidas do Festival Eurovisão da Canção: não pode haver mais do que seis pessoas em palco, contando com os artistas principais. Posto isto, é ainda mais bizarro ter sido a Suécia a quebrar esta regra de ouro no filme da Eurovisão.

5 – A delegação não fica em casa e os músicos não vão sozinhos para o concurso.

Frame do filme “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”

Esta poderia passar despercebida, mas de facto a delegação que acompanha os Fire Saga ficou nas instalações da RKS em Reiquiavique a ver de longe tudo a acontecer. De facto isto não pode acontecer e os músicos não estão completamente livres de fazerem o que quiserem no concurso: a estação de televisão é sempre soberana nas decisões, já que são eles que respondem depois perante a EBU.

6 – Caso aconteça algum acidente numa performance ou algo que não estivesse previsto, o país é convidado a atuar novamente no fim.

Frame do filme “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”

Mesmo sendo muito pouco provável um acidente das dimensões do que aconteceu com a atuação dos Fire Saga na semifinal do concurso no filme, já que os ensaios servem para testar tudo ao mais ínfimo pormenor, caso acontecesse e os músicos/público estivessem bem e em segurança, o país seria convidado de imediato a atuar novamente no fim das atuações dos restantes países. Por exemplo em 2010 Espanha repetiu a sua performance depois de uma invasão de palco, já em 2018 a Surie do Reino Unido sofreu a mesma circunstância mas foi escolha da artista e da BBC não voltar a atuar, por estarem confiantes com a performance que fizeram.

7 – A sequência de votos naquela semifinal está toda errada. Não há por onde pegar.

Frames do filme “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”

Há tanta coisa errada na sequência de votação do filme. Antes de tudo, nas semifinais não existe a típica transmissão com os porta-voz de cada país a darem os seus pontos de 1 a 12. Nas semifinais são apenas anunciados os 10 finalistas, em ordem aleatória. Posto isto, vamos dissecar ainda mais esta sequência trágica:

  • Não existem duas Letónias na Europa;
  • Não existem dois Países Baixos na Europa;
  • As semifinais não são compostas por 26 países;
  • A Alemanha, Espanha, França, Itália e Reino Unido não participam das semifinais como concorrentes, já que fazem parte dos “Big 5” e estão automaticamente qualificados para a final;
  • Além de se salientar os 8, 10 e 12 pontos (no formato pré 2016), ainda existem as pontuações de 1 a 7, que foram totalmente ignoradas no filme.

8 – Se os concorrentes abandonarem o concurso depois da semifinal e terem qualificado para a final, o país que representam é desclassificado.

Frame do filme “Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga”

Em termos narrativos o regresso de Lars Erickssong à Islândia para se reunir com o seu pai e ter o seu momento de confrontação com o passado e finalmente a aceitação paternal pode fazer sentido, mas na Eurovisão daria motivo para desclassificação automática do país em questão. Os músicos, caso sejam selecionados para a grande final, começam com ensaios muito pouco tempo depois da semifinal, não dando sequer tempo para voltar ao país de origem, além de que teriam sempre de fazer esse pedido através da delegação e da sua equipa junto da estação de televisão.

9 – Não dá para mudar de música em palco.

Imagem promocional – Netflix.

Chega o grande momento dos Fire Saga na final da Eurovisão e a banda decide descartar a canção Double Trouble e apresentar Husavik. No fim da performance vemos o comentador da BBC, Graham Norton a dizer algo como “que canção incrível, mas claro que vão ser desclassificados“. Na realidade não teriam a oportunidade de ser desclassificados, já que seria impossível mudar a canção já em cima do palco. O instrumental de todas as canções na Eurovisão é dado através de faixas pré-gravadas por isso, mesmo que Lars quisesse surpreender Sigrit, os produtores do espetáculo iam sempre colocar a “Double Trouble”, música pelo qual foram qualificados. Caso os Fire Saga quisessem também mudar a canção da semifinal para a final, isto também seria impossível face as regras da Eurovisão.

10 – Na Islândia fala-se… islandês.

Imagem promocional – Netflix.

Estamos já mais que habituados à estandardização do uso do inglês para qualquer filme que seja passado fora do universo anglo-saxónico, principalmente sendo o cinema de Hollywood (norte-americano) o mais influente. Mas a abordagem às questões linguísticas neste filme é algo bizarra: as personagens principais são islandesas mas falam exclusivamente em inglês com sotaque, os figurantes na Islândia falam por vezes em inglês com sotaque e noutras em islandês, a canção Husavik tem elementos islandeses mesmo sendo cantada por uma personagem que nunca fala a língua e o Pierce Brosnan fala em inglês com sotaque italiano… É tudo demasiado confuso.

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