LGBTI+
Fotografia: Margaux Bellott/Unsplash

Dia Internacional do Orgulho LGBTQ+. O que ainda falta alcançar para a igualdade?

O Espalha-Factos falou com quem vive de perto estas mudanças na sociedade, bem como a falta delas

No dia 28 de junho de 1969, as pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn revoltaram-se contra os constantes ataques feitos pela polícia a grupos de homossexuais. A partir daí, a data começou a marcar o Dia Internacional do Orgulho LGBTQ+ e vários direitos se foram conquistando.

Mais de 50 anos depois, a comunidade LGBTQ+ já é livre de sair à rua em marcha sem medos nem restrições. Em Portugal, a mudança começou um pouco mais tarde, em 1982, com a descriminalização da homossexualidade. Desde aí, várias mudanças se foram dando. Em 2010, Portugal tornou-se o oitavo país a nível mundial a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mais tarde, em 2015, tornou-se o 24.º país do mundo a legalizar a adoção plena a casais do mesmo sexo.

 

 

No entanto, há ainda um longo caminho pela frente e muitos direitos a revindicar para alcançar a igualdade. Neste Dia do Orgulho LGBTQ+, o Espalha-Factos falou com pessoas que reivindicam a necessidade de serem tratadas como iguais. Tentámos perceber o que já mudou, o que ainda é urgente mudar e qual o caminho a tomar para lá chegar.

Gonçalo, de 20 anos, desde cedo sentiu que havia algo que o distinguia “dos restantes meninos da escola”. “De certa forma sempre soube que era homossexual e cresci com essa sensação”, declarou. Para além disso, por ser bailarino, também viveu sempre de perto com o preconceito e o bullying. “As pessoas diziam que eu era uma menina por andar na dança e então a questão de pensar em assumir-me nunca poderia acontecer porque o medo de ser julgado era maior que a coragem”, explica o jovem.

Marcha de Orgulho LGBTQ+
Fotografia: Mercedes Mehling/Unsplash

Por outro lado, Pedro Serrasqueiro, também com 20 anos, admitiu que nunca se questionou muito sobre a sua sexualidade enquanto criança. “O meu “percurso” iniciou quando me envolvi fisicamente com um rapaz, e na realidade foi a minha primeira experiência sexual”, relata. Apesar de o estudante ter ocultado a sua orientação por algum tempo, não foi por auto-censura. “Eu nunca me censurei nem me “massacrei” por ser gay e uma das razões penso que seja por eu no fundo já saber a minha orientação sexual”, explica.

Para além disso, quando Pedro se assumiu, no décimo ano, durante uma aula, guardou, ao contrário de Gonçalo, uma boa memória. “Tive o prazer de receber o carinho e o apoio de todos os meus amigos, o que acabou por ser extremamente benéfico para essa aceitação e para a minha autoestima e pôs-me bastante mais à vontade”, acrescenta.

1969-2020: As mudanças alcançadas

Para Mário Rui Vieira, jornalista da Blitz/Expresso, a luta pela aceitação da comunidade LGBTQ+ “é um processo de constantes avanços e recuos, de dois passos à frente seguidos de um passo atrás”. Apesar de admitir que o “mundo ‘ocidentalizado'” se começa a mostrar mais aberto a aceitar esta comunidade, Mário sublinha que este também é, no entanto, um problema. “Nenhum ser humano tem de ser ‘aceite’ ou ‘tolerado'”, constata, acrescentando que “uma pessoa LGBTQ+ não necessita de tolerância, necessita de ver os seus direitos respeitados tanto quanto qualquer outra pessoa não LGBTQ+”.

Marcha pelo Orgulho LGBTQ+
Fotografia: Tanushree Rao/Unsplash

Gonçalo admite sentir-se feliz por viver “numa ‘época’ em que ser homossexual já começa a ser aceite e respeitado” e em que já muita coisa mudou. “Já conquistámos muita coisa. Poder casar, poder adotar, poder frequentar estabelecimentos tão simples como cafés, restaurantes, lojas sem ser criticados ou expulsos”, afirma o bailarino.

Também Pedro Serrasqueiro sublinha que, “embora ainda seja uma luta constante”, os avanços feitos nas últimas épocas em termos de aceitação da comunidade LGBTQ+ têm sido “enormes”“Demonstrações de afetos em público são cada vez mais normalizadas. Nas escolas, os alunos começam a ser expostos a todas estas realidades que na verdade pertencem à mesma realidade”, explica. Para além disso, o estudante defende que “todos estes pequenos atos, gestos e legislações auxiliam imenso a que haja uma maior consciencialização da população, principalmente da mais nova, o que torna mais propícia uma maior aceitação e, talvez um dia, a banalização do próprio assunto”.

O caminho que ainda falta percorrer

De acordo com Mário Rui Vieira, “há ainda muito para fazer”, com muitos países que ainda não vêem as pessoas da comunidade LGBTQ+ como cidadãos iguais. “É só ver a informação que nos vai chegando do Brasil e dos Estados Unidos para perceber que ainda falta muito para estar tudo bem”, referiu.

Cartaz que lê "LGBTQ+ Lives Matter"
Fotografia: Delia Giandeini/Unsplash

Para além disso, o jornalista destaca que falta a apreensão por parte das pessoas a nível mundial que uma pessoa LGBTQ+ ” não é uma pessoa de segunda categoria”, pelo que deve haver igualdade no tratamento e nos direitos, mais básicos, como no local de trabalho, na escola, num tribunal ou num hospital. “Alguém, pelo facto de ser L, G, B, T, Q, A ou I não sangra de forma diferente, sente a dor e o amor da mesma forma, e a sua identidade de género ou orientação sexual não a torna unidimensional”, finaliza.

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Tal como Mário Rui Vieira, Gonçalo vê a conquista dos direitos da comunidade LGBTQ+ como uma “luta diária”, na qual se vê obrigado a participar, não só por si, mas pela “comunidade atual e futura”“Como membro da comunidade LGBTQ+ tenho o dever de lutar contra isso e defender-me, não por mim porque não me afeta pessoalmente, mas por outros que sofrem muito com isso. A violência contra a nossa comunidade ainda existe de forma assustadora”, sublinha.

Da mesma forma, Pedro Serrasqueiro insiste que é preciso “continuar a progredir, porque, ainda que já se tenha alcançado muito e que já se contem muitas vitórias, a homossexualidade ainda não é vista a 100% como o processo biológico natural que é”A mudança de legislação em vários países para que a homossexualidade não seja uma sentença de morte, a mudança de mentalidades, a simplificação dos processos de adoção e, no fundo, a “normalização da homossexualidade e de todas as sexualidades” são outros pontos que precisam de melhorar, segundo o estudante.

LGBTQ+
Fotografia: Nick Shandra/Unsplah

A realidade portuguesa

Os resultados do estudo Over the Rainbow? The Road to LGBTI Inclusion” foram disponibilizados no dia 24 de junho e demonstram a percentagem de leis adotadas a favor dos direitos da comunidade LGBTQ+ nos vários países, entre 1999 e 2019. Em Portugal, o número de leis inclusivas aumentou de 23% para 76%, durante esse tempo. No entanto, ainda há falhas a corrigir.

Mário Rui Vieira destacou uma educação mais virada para o respeito pelo outro como o mais importante a alterar em Portugal. “É algo que começa na escola e que vemos disseminado em espaços públicos, sejam eles reais ou virtuais”, refletiu. A isto, o jornalista aliou a necessidade de clarificar a questão da doação de sangue por parte de pessoas da comunidade LGBTQ+, ao que o estudante Pedro Serrasqueiro acrescentou uma maior aceitação do casamento homossexualidade e a adoção de crianças por parte desses mesmo casais.

Gonçalo assegurou que “Portugal está longe de ser um país onde a homofobia não existe”. O jovem admitiu que as coisas já melhoraram, com questões como a conquista do casamento gay e da adoção, mas que “ainda há muito para caminhar”. Um dos pontos principais é, para o bailarino, o que se incute desde cedo nas crianças. “Infelizmente, na nossa sociedade, ainda é expectável que todos sejamos heterossexuais. Enquanto os pais esperarem que os filhos sejam heterossexuais algo não está bem. Ainda não podemos parar de lutar. Os pais devem sempre esperar que os filhos sejam o que quiserem”, afirmou.

O papel das personagens LGBTQ+ na luta pela consciencialização

Para Mário Rui Vieira, as representações LGBTQ+ no cinema e televisão “não são suficientes ainda, mas felizmente estamos a caminhar nesse sentido”. Tanto o jornalista como Gonçalo definiram a inclusão destas personagens como uma ajuda muito importante. O bailarino, que admitiu sentir “representatividade” declarou que “por vezes, sem ser algo explícito, essas personagens, ao estarem presentes, vão fazendo uma consciencialização ao espectador de que a comunidade LGBTQ+ existe e deve ser respeitada”.

LGBTQ+
Fotografia: Mercedes Mehling/Unsplash

Pelo contrário, Pedro Serrasqueiro confessou que “ainda que a inclusão de personagens LGBTQ+ seja um enorme progresso na aceitação e normalização, as personagens necessitam de ser mais verdadeiras”. O estudante relatou que a maioria destas personagens são, no geral, estereótipos, que acabam por perpetuar preconceitos que deveriam estar a ser desconstruídos. Para Pedro, mais do que um estereótipo e independentemente da sua sexualidade, as personagens LGBTQ+ “continuam a ser peças essenciais das narrativas que incluem e merecem ser melhor desenvolvidas e cedido mais dimensões psicológicas”.

Quanto à situação portuguesa, Gonçalo criticou o facto de ainda se utilizarem muito os estereótipos e as “figuras-tipo”“Ainda há muito o melhor amigo gay, ou o gay agressivo por não se aceitar… As pessoas da nossa comunidade são muito mais que isso”, explicou.

Por sua vez, Pedro Serrasqueiro elogiou o crescimento da inclusão destas personagens na ficção portuguesa e, ao contrário do que defendia o bailarino, não tão estereotipadas. “Obviamente que muitas se tornam “figuras-tipo”, passando uma imagem errada. Contudo, impressionantemente as personagens têm ganho dimensões e personalidades não exageradas”. Contudo, o estudante voltou a sublinhar a necessidade de estas personagens ganharem visibilidade pela sua personalidade e importância na história, mais do que pela sua orientação sexual.

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