Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga – Com carinho e sem jeito

Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga é uma comédia protagonizada por Will FerrellRachel McAdams. O filme mostra a aventura dos Fire Saga, uma dupla musical fictícia que alcança o sonho de representar a Islândia na Eurovisão.

Originalmente planeado para ser lançado no dia da final deste ano, o cancelamento da Eurovisão 2020 fez com que o filme fosse adiado para 26 de junho. A produção da Netflix é norte-americana, mas será que faz justiça ao certame europeu?

O humor é o principal obstáculo às boas intenções do filme. Mesmo assim, A História dos Fire Saga consegue, em certos momentos, homenagear a magia da Eurovisão.

Fórmula desafinada

O principal problema de A História dos Fire Saga é o género em que se insere: comédia. O humor do argumento é muito fraco, com algumas exceções demasiado surreais para não puxar uma gargalhada. É o típico tratamento cómico norte-americano, fácil e sem nenhuma criatividade.

Will Ferrell é um ator com uma carreira respeitosa, mas o seu papel no filme é o típico adulto com atitude de criança. Nada de novo para a carreira do ator, que podia explorar uma personagem mais complexa do que um quarentão que quer ir à Eurovisão. Pelo contrário, a personagem de Rachel McAdams é a que consegue conquistar o espetador pelo seu talento por despontar e a sua ambição de ter uma voz independente.

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A escolha de fazer A História dos Fire Saga uma comédia dá a sensação de uma oportunidade perdida. Há momentos em que o filme consegue ser genuinamente envolvente, mas a atenção do espetador é rapidamente desperdiçada com humor desnecessário e mal-executado. Raramente se deve julgar uma obra pelo o que podia ter sido em vez do que é, contudo uma maior aposta no formato de comédia-romântica ou drama podia ter libertado A História dos Fire Saga dos empecilhos cómicos.

Os custos de produção são outro problema, mas neste caso compreensível. A Eurovisão é um conceito incompreendido pelo mercado norte-americano. Seria quase impossível um estúdio aceitar fornecer um orçamento elevado a este filme. Infelizmente, isso incapacita A História dos Fire Saga de recriar o glamour da produção bombástica eurovisiva.

The Story of Fire Saga

Eurovisão trocada por miúdos

Se nenhum estúdio norte-americano ia prestar muita atenção ao certame, como é que o filme surgiu? Trata-se de um projeto que vem da paixão de Will Ferrell. O ator quis criar o filme desde que há mais de 20 anos viu a Eurovisão 1999,

O carinho pelo evento redime parcialmente A História dos Fire Saga. Apesar de a comédia ser frequente e má, nunca é a gozar diretamente com a Eurovisão. Curiosamente, até se fazem mais piadas à custa dos norte-americanos.

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Claramente feito por pessoas que respeitam o espírito eurovisivo, o filme é, na sua essência, uma celebração do certame. As personagens vêm a Eurovisão como um palco de sonhos, onde podem expressar-se livremente. Nenhum dos concorrentes rivais é um antagonista, mas sim artistas com ambições próprias e um sentido de família. E claro, há várias aparições especiais de várias caras conhecidas dos fãs. A cena de Salvador Sobral é, particularmente, bonita. Se pensarmos bem, a moral do filme inspira-se um pouco no sucesso português de 2017.

Mesmo que o espírito esteja lá, o evento em si é representado superficialmente. Não há nada que vá contra noções básicas da Eurovisão, mas a falta de orçamento e a escrita desinspirada produzem um espetáculo trocado por miúdos. O espetador nem sequer percebe bem como o concurso funciona se for só pelas informações do filme, que tem inclusivamente alguns pormenores errados.

The Story of Fire Saga

Music is feeling

A citação de Salvador Sobral já é uma parte da mitologia eurovisiva. A História dos Fire Saga acaba por seguir um pouco a ideia do cantor português. A banda sonora original é surpreendentemente boa, sendo metade paródia metade tributo ao que esperamos do espetáculo europeu.

O grande destaque vai para Husavik, o nome da cidade natal dos protagonistas e da canção utilizada no clímax do filme. É uma balada com um arranjo em crescendo e letras bem pensadas que culmina numa proporção exageradamente épica. Não seria descabido ser uma verdadeira concorrente da Eurovisão.

O poder da música para unir além fronteiras e culturas é valorizado pelo filme. A História dos Fire Saga quer transmitir apoio à criatividade, à realização de sonhos e à celebração da nossa identidade individual. Uma intenção semelhante à da própria Eurovisão.

Festival Eurovisão da Canção: A História dos Fire Saga é feito com carinho e sem jeito. A mensagem é bem-intencionada, os fãs do evento são respeitados e tudo tenta ser uma grande festa eurovisiva. Infelizmente, o argumento é pobre e condicionado pela comédia desgastada, as personagens são maioritariamente superficiais e a produção não faz jus à grandiosidade do certame.

Terá talvez sido um erro adiar o filme. A História dos Fire Saga redime-se nos momentos em que se foca nos valores do espírito eurovisivo e porque é que é tão importante para milhões de pessoas. Se tivesse sido lançado na data da Eurovisão 2020 seria um tributo bonito, mesmo que profundamente defeituoso.

As fraquezas do filme são abundantes e tornam-o medíocre. Mesmo assim, os fãs vão poder divertir-se em certos momentos e matar algumas saudades da Eurovisão. Podia ter sido pior.

The Story of Fire Saga
5.5

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