Dark
Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘Dark’: A despedida agridoce de uma obra-prima irrepetível

A terceira temporada do original alemão da Netflix estreia a 27 de junho

Em 2017 estreava o primeiro original alemão da NetflixDark apresenta-se, inicialmente, como uma história que parece ser simples, uma jornada que desafiava os conceitos de tempo de forma clara como água. No entanto, quem a comparava inicialmente a Stranger Things não estava ciente da jornada que se iria desenrolar, em contornos obscuros mas que, mesmo assim, não deixam de ser mais humanos do que sobrenaturais.

A criação de Baran bo Odar Jantje Friese começa com uma premissa familiar. A cidade de Winden, na Alemanha, vive em sobressalto com uma série de acontecimentos que deixam tragédia a pairar sobre a localidade. Depois do suicídio do seu pai, Jonas (Louis Hofmann) volta à escola e descobre que uma criança desapareceu. Os ânimos da população, já elevados, aumentam quando Mikkel, outra criança, desaparece.

Os desaparecimentos coincidem com fenómenos estranhos: caem pássaros do céu, luzes piscam incessantemente e de forma inexplicável. Os habitantes da cidade começam a perceber um padrão entre estes desaparecimentos e outros, que ocorreram há vários anos. A partir daqui, a questão altera-se – “onde está Mikkel?” passa a “quando está Mikkel?”.

Esta premissa inicial adivinha uma saga de aventura e mistério, ao estilo de outras séries internacionais. Aliás, é daí que surgem as comparações a outro original da NetflixStranger Things, por um desaparecimento e os acontecimentos estranhos que dele advêm; ou até com Twin Peaks, que envolve uma morte em contornos surreais. A diferença, no entanto, é marcadamente visível com o passar dos episódios logo nos primeiros instantes do capítulo inicial.

À medida que a premissa avança, o espectador é confrontado com momentos que inicialmente parecem desconexos, alguns deles até mesmo sem relação com o que estamos a ver. Só que, por mais que estes vislumbres pareçam não ser lógicos, rapidamente se percebe que o desaparecimento de um jovem é só uma pequena parte de uma trama que, desde cedo, se adivinha (quase literalmente) de proporções bíblicas. O drama e a tragédia condensam-se numa linha de enigmas confusos e revelam-se, ao mesmo tempo, peças de uma intriga muito maior que, aos poucos, se encaixa na perfeição.

Uma aventura espetacularmente complexa

A questão principal, no entanto, é que o puzzle gigantesco é-nos apresentado de forma peculiar. É como se as peças estivessem a ser encaixadas e só conseguíssemos ver uma parte da fotografia de cada vez, apenas com o vislumbre suficiente do resto para especular o que está realmente a acontecer.

A magia de Dark reside, principalmente, na sua complexidade. Um elemento que para muitos pode ser catalisador para abandonar uma corrente infinita de informações e contextos, é, para outros, o que os atrai a não parar de tentar ver a big picture. Convenhamos: nem sempre algo que é demasiado complicado cai na medida certa, podendo-se tornar algo bom numa mescla de conceitos sem ponta por onde se pegar. Este, claramente, não é o caso; o labirinto que se começa a formar desde o início da história é pensado ao pormenor, de tal forma que se revela brilhante e nunca deixa questionar se a história poderá seguir caminhos ilógicos.

Mesmo nos momentos em que tudo parece perdido, em que parece já não existir forma de seguir uma viagem sem fim à vista, a volta dá-se de forma inesperada. Surge, na verdade, extremamente bem calculada, para que essa grande imagem se forme. No final, não restam dúvidas sobre uma história que é tudo menos o que se imaginava em primeira instância – neste caso, em bem.

O culminar de uma história intensa

O enredo da terceira e última temporada de Dark começa logo a seguir ao final da sua antecessora. Se a primeira temporada apresentou o mistério e agarrou qualquer um ao ecrã, a segunda expandiu o conceito que parecia começar a fazer algum sentido para caminhos brutalmente inesperados, deixando, ao oitavo e último episódio, um enorme ponto de interrogação mental por cima de todos os pontos finais (ou pontos e vírgulas) que se pensava começarem a surgir.

AVISO: Os próximos parágrafos contêm spoilers das duas primeiras temporadas de Dark

Apesar de os próximos parágrafos conterem spoilers do final da segunda temporada, são os únicos que aqui serão discutidos. Até porque, numa série como Dark, revelar pormenores do enredo é quase criminoso. Para entrar nesta aventura, basta saber duas coisas: a premissa inicial e que aguarda quem a seguir uma intricada viagem. Até porque, em boa verdade, é quase impossível resumir esta história sem entrar em divagações inconstantes.

Nesta temporada, a trama, já de si complexa devido às viagens no tempo que nos apresentaram múltiplas linhas temporais, adensa-se. Conhecer várias versões dos mesmos personagens, tentando-se perceber quem é quem nos diferentes anos que nos são apresentados, deixa de ser o mais complicado. No final da segunda temporada, é revelado que existe, na realidade, um outro mundo, para onde Jonas é levado por Martha (Lisa Vicari).

Dark
Fotografia: Netflix/Divulgação

Este foi um fator de preocupação no final do anterior capítulo. Se muitos acharam a temporada de excelente execução, tantos outros consideraram que essa revelação nos momentos finais poderia abrir porta a um caminho desviado e alucinado perante a intriga relativamente sóbria anteriormente apresentada. No entanto, se a porta já estava entreaberta à fantasia com as viagens temporais, abre-se ainda mais com o conceito de múltiplos mundos.

Parece complicação a mais. Mas, na verdade, não é. Talvez porque o espectador já está tão familiarizado com a complexidade em compreender todas as instâncias temporais em que o enredo se desenrola, a transição para um conceito de mundos vários torna-se relativamente natural. Isto não faz com que tudo passe a ser fácil – não fosse assim Dark –, mas tudo passa a soar como um progresso natural numa narrativa sobrenatural.

É através desta assoberbante junção de informações que se começa a ver o puzzle finalmente montado. A aventura mitológica é expansiva e necessária para se perceber como tudo aconteceu até aos primeiros passos dados no início de tudo. Início esse que, na verdade, é só um ponto no círculo; tudo tem estado a acontecer vezes sem conta, com os personagens a conhecer as suas versões passadas e futuras infinitas vezes, fazendo com que o ciclo temporal nunca se quebre e tudo se passe, para sempre, exatamente da mesma forma. Afinal, o tempo é um conceito ilusório e Dark explora essa premissa de forma magistral.

Entram em cena uma junção de conceitos relacionados com a física quântica e outras ciências que permitem explicar esta ficção. A mescla de teorias demonstra mestria por parte dos criadores, que deixam claro que todos os acontecimentos têm vindo a ser pensados desde o início da história (aliás, a série já estava a ser escrita pelos alemães há vários anos, bem antes, por exemplo, da erroneamente comparada Stranger Things sequer ter sido anunciada). Isto é visível em cenas aparentemente sem significado ao longo dos episódios e que depois acabam por se explicar a si próprias.

A infinita causa-efeito, o paradoxo de Bootstrap, o “eterno retorno” de Nietzsche, o “buraco de minhoca” de Einstein e Rosen, entanglement quântico ou o teorema de Schrödinger – todos conceitos que vale a pena pesquisar, aliás – misturam-se para dar origem a uma história que vai muito para além do ‘simples’ conceito de viagem no tempo. Misturam-se com preceitos bíblicos, com referências à criação do Homem; AdãoEva juntos, porém separados.

Dark
Fotografia: Netflix/Divulgação

Uma série com o ‘coração’ no lugar certo

Toda a construção teórica é, no entanto, balançada com uma elevada carga emocional, que não surge forçada como noutras séries sci-fiDark tem o seu ‘coração’ no sítio certo, com personagens bem construídos e com uma densidade que resume o conceito de humanidade para lá de toda a saga temporal. As emoções e objetivos de cada um mudam e evoluem consoante as situações com que são apresentados, muito além de apenas querer saber o que se está a passar. E é essa procura por respostas – pessoais, não sobre o mistério – que trazem a esta série o fôlego que a alavanca.

Esta é, provavelmente, a maior qualidade de Dark. A mestria dos criadores vai muito para além de uma mescla de conceitos e de uma história elaborada. Prende-se, precisamente, no facto de, no fundo, Dark ser uma gigante e complexa metáfora de uma busca de sentido para a vida, de perceber qual o nosso papel no mundo (neste ou noutros paralelos) e até onde conseguimos ir para mudar algo, mesmo que o estejamos a fazer de forma errada e a ir contra aquilo que queremos defender.

Nada surge pelo simples valor de choque. Todas as ações dos personagens são fundamentadas nos próprios impulsos de cada um, mesmo quando tudo parece demasiado complicado de resolver; é por isso que tudo se mantém ressonante, independentemente do caminho seguido.

Estes conflitos são essenciais para que o rumo da história se altere e cheguemos à sua grande conclusão. É difícil de descrever o que acontece sem realmente revelar o que acontece, mas o final chega de forma lógica e a responder a todas as questões que tinham sido formadas ao longo dos três capítulos. A despedida a Winden é agridoce, porém (e por mais banal que a expressão possa soar) perfeita.

Dark
Fotografia: Netflix/Divulgação

O capítulo final de Dark revela-se, assim, um testamento fiel a tudo o que foi construído ao longo de 28 episódios. Na impossibilidade de resumir o que se cumpre, esta acaba por ser uma história de amor. Não só amor romântico, como o óbvio entre Jonas e Martha (que tem um papel mais importante do que se pensa), mas entre todos os que contribuíram para que a história assim se sucedesse – Ulrich, Katharina, Charlotte, Hannah, Claudia e a longa lista de personagens. E prova aquilo que, nas profundezas do que é ser-se alguém, se está disposto a percorrer pelo bem e pelo mal.

Genial na prática

Além de um enredo envolvente, Dark é sublime em todos os outros elementos que a embalam. A realização e a fotografia são extremamente adequados, características técnicas a complementar positivamente a construção temática já de si de elevada qualidade.

Algo que surpreende é a realidade de todos os cenários. São poucas as vezes em que vemos algo verdadeiramente fora deste mundo nos aspetos visuais, o que comprova a grande base humana no seu seio.

Da música às opções de edição, no entanto, a partícula de Deus é a escrita e, acima de tudo, as interpretações. Os atores principais entregam cargas emocionais singulares a cada um dos personagens, mas não são destaque único. Ao longo de toda a série, é espantoso o casting, que nos apresenta múltiplas versões da mesma personagem, interpretados por diferentes atores que na verdade parecem sempre o mesmo, mas em diferentes idades.

É ainda de referir outro dos pontos fortes, embora este seja apenas mero acaso. A série, criada e produzida na Alemanha, é obviamente falada em alemão. No entanto, o idioma, popularmente tido como misterioso e ríspido, assenta que nem uma luva à trama construída. É, provavelmente, a prova de que a ficção espelha a realidade e que reforça o melhor que este país tem para oferecer em termos de produções.

O paraíso

Mas as qualidades técnicas são só uma das vantagens. Dark vale por todo o conjunto, todo o puzzleDark é um puzzle. Grande, difícil, talvez não para todos. Tentar entendê-lo na íntegra é, em boa verdade, um exercício que desafia a sanidade. Mas é nesta mistura labiríntica de emoções que está a sua grande qualidade.

Sem dúvida, este é um dos melhores originais da Netflix; senão mesmo o melhor. Pelo menos, é um dos melhores produtos da atualidade, que prova diversos pontos: não só que as expectativas estão cada vez mais no alto para a televisão, mas também um reforço brilhante para as múltiplas provas que a ficção europeia tem dado, especialmente nos últimos anos.

Na possibilidade de uma crítica a algo tão completo se tornar redundante e cíclica, além de nunca poder estar verdadeiramente inteira, esta acaba por ser uma carta de amor à carta de amor que Dark já é por si só. Uma exceção a uma exceção, cujo espírito merece ser preservado num círculo infinito – tal como o próprio do tempo – para que nunca deixe de existir.

A terceira e última temporada de Dark tem oito episódios e estreia este sábado, 27 de junho, na Netflix.

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