Destemidas

‘Destemidas’. RTP2 volta a disponibilizar episódio que gerou polémica

Depois de ter retirado da RTP Play o episódio da série infantil Destemidas dedicado à vida de Thérèse Clerc, a RTP republicou esta quinta-feira (25) a série no seu portal, mas retirou-a da área dedicada ao público infantil. O episódio, que aborda temas como o aborto, homossexualidade, feminismo, divórcio e religião, foi inicialmente retirado por recomendação do provedor do telespectador, depois de várias queixas terem chegado à estação pública.

Ouve ainda: Fita Isoladora. A RTP2 devia ser mais Destemida?

Destemidas é uma produção francesa que conta a história de mulheres pioneiras que venceram preconceitos e barreiras e se destacaram em diferentes áreas de atividade. A série, dobrada pela atriz Joana Ribeiro, é uma adaptação da obra literária Culottées (“Atrevidas”, em português), assinada por Pénélope Bagieu. A animação é transmitida no espaço Zig Zag e estreou no canal público em março, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, estando a ser repetida nas últimas semanas.

Cada episódio da série de animação conta, em três a cinco minutos, a história de uma mulher, e o episódio em questão é dedicado à feminista francesa Thérèse Clerc (1927 – 2016), ativista pelos direitos das mulheres e galardoada com a Legião de Honra francesa em 2008. O episódio, o 19.º da série, foi reexibido na manhã da passada sexta-feira (19) e, entre críticas e elogios, tornou-se tema de discussão nas redes sociais.

Um fragmento do episódio em que Thérèse Clerc descobre o marxismo junto dos padres operários foi partilhado nas redes por várias páginas, que nele viram uma tentativa de doutrinação do público infantil. O episódio aborda também a luta de Clerc pela legalização da interrupção voluntária da gravidez e a sua prática de abortos clandestinos, além da sua relação homossexual, que é retratada com um beijo. As reações mais negativas vieram de movimentos ultraconservadores e de extrema-direita, tendo o Partido Nacional Renovador (PNR) anunciado mesmo uma queixa-crime contra a televisão pública.

Além do provedor da RTP, também a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) recebeu várias queixas relativas à série da RTP2, tendo adiantado ao Correio da Manhã que as participações se “encontram em apreciação pelos serviços da Entidade”.

Num primeiro momento, a RTP2 reagiu à polémica partilhando na sua conta no Twitter um elogio à série. Ao tweet, que agradecia ao canal por “Contar a história de mulheres que ultrapassaram preconceitos e foram mais além. Valentes, corajosas, fortes, DESTEMIDAS.”, a estação respondia “É para isso que cá estamos!”.

Em declarações ao Observador, a diretora da RTP2 Teresa Paixão admite que, “dada a a delicadeza do tema”, a série podia ter “suavizado e enquadrado melhor estes direitos, que são mais complexos”. No entanto, defende que não é intenção do canal “fazer apologia a nada, tanto ao catolicismo como a qualquer outra religião”. “Compete sim à televisão pública falar de todos os assuntos e de todas as formas de vida”, ressalva, lembrando que “nada do que a senhora defendeu é ilegal em Portugal”.

O episódio sobre Thérèse Clerc abordava também a sua homossexualidade. (Foto: Reprodução RTP2)

Afinal, a suspensão era “temporária

Numa nota publicada no Facebook do canal já ao final da noite desta quinta-feira, e após o episódio 19 ter sido apagado da RTP Play, a diretora da RTP2 esclareceu que a retirada do episódio não era definitiva. Teresa Paixão garantiu que Destemidasnão foi suspensa nem da RTP 2 – amanhã no seu horário normal, 11.30h, emitiremos o episódio dedicado a Hedy Lamarr – nem da RTP Play”.

Sobre o episódio em causa, foi “temporariamente suspenso” do espaço Zig Zag porque a estação entende que “a linguagem utilizada no que diz respeito ao aborto não era a mais adequada para o público alvo (10-13 anos)” e voltará a ir para o ar com uma nova dobragem. O esclarecimento da RTP2 surge depois de a estação ser acusada de censura nas redes sociais, tendo mesmo surgido uma petição pela reposição do episódio retirado do ar.

Sobre a serie Destemidas cumpre-me informar que não foi suspensa nem da RTP 2 – amanhã no seu horário normal, 11.30h,…

Publicado por RTP2 em Quinta-feira, 25 de junho de 2020

Assim, na noite desta quinta-feira foram retirados todos os episódios da série que estavam disponíveis no Zig Zag Play, a área dedicada à programação infantil, sendo transferidos para o RTP Play. O polémico episódio 19 foi reposto, e dos primeiros 23 episódios da série mantiveram-se de fora apenas os episódios 4 e 14, que não foram publicados por não terem sido exibidos nos dias em que estavam previstos, devido a ajustes de grelha. Com trinta capítulos, Destemidas vai manter-se na programação da RTP2, e o resto da série será exibido na próxima semana às 11h50 e às 19h15.

Provedor não acompanha críticas, mas recomendou retirada do episódio

O provedor do telespectador da RTP Jorge Wemans recomendou aos responsáveis pela programação infantojuvenil que o episódio em causa fosse retirado da RTP Play e futuras exibições da série fossem feitas em “horário mais apropriado para adolescentes” e sem a exibição do referido episódio, segundo se pode ler na resposta que foi enviada aos vários queixosos. Uma orientação que Teresa Paixão garantiu ao Observador que seria acatada, mas que viria a ser alterada ao fim de poucas horas.

No entanto, o provedor não acompanha a maior parte das críticas, argumentando que “difundir a história de uma mulher que alterou radicalmente a sua vida por ter tido contacto com os escritos de Karl Marx não torna um canal marxista. Nem em abortista por divulgar a história de quem lutou pela legalização do aborto”. Da mesma forma, Wemans defende que a RTP “não deve esconder ao seu público adolescente estas realidades”, pelo que deve tratar “de acordo com a Lei e as melhores práticas” as questões da educação sexual, do aborto ou da religião, mas não da forma como o episódio de Destemidas o fez.

Já em março, aquando da primeira exibição, o provedor tinha recebido queixas. Na altura, em resposta a um protesto relativo a um outro episódio, o provedor reconheceu que “a intenção do programa era a de tornar tranquila essa relação com o facto de muitos adolescentes se interrogarem sobre a sua identidade de género”, mas, mesmo assim, assume que “não se tenha munido do melhor percurso para lá chegar”, pode ler-se na página da Associação Família Conservadora.

Atualizado às 0h48, com comunicado da diretora da RTP2.

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