Citizen Kane é considerado o melhor filme de sempre da história do Cinema.
© Courtesy Everett Collection

‘Citizen Kane’: O filme que mudou a história do Cinema

A obra-prima de Orson Welles foi considerada, em 2008, o melhor filme de todos os tempos.

Quase 80 anos depois do seu lançamento no longínquo ano de 1941, Citizen Kane: O Mundo a Seus Pés, a obra-prima de Orson Welles, continua a ser um triunfo supremo, merecedor de todas atenções, até aos dias de hoje. Foi, aliás, em 2008, neste mês de junho, considerado pelo Instituto Americano do Cinema (AFI) como o melhor filme de todos os tempos, título que já tinha conquistado em 1998.

O filme, adorado por críticos e fãs, consta dos lugares cimeiros de inúmeras listas dos melhores filmes de sempre, espalhadas por toda a internet. Mas, mais importante que isso, assume o primeiro lugar da lista online mais conceituada de todas as que existem, aquela que é organizada pela AFI, chamada 100 anos… 100 filmes. Esta é uma lista que consagra os 100 melhores filmes de sempre, tendo sido organizada pela primeira vez em 1998, e a última a ser compilada data de 2007 e, em ambas, o primeiro lugar é assumido por Citizen Kane.

Mesmo que exista gente que não concorde com esta eleição, uma coisa é certa: é mesmo uma das mais importantes e criativas histórias do grande ecrã alguma vez feitas e produzidas até aos dias de hoje. Ao destruir por completo a forma como os grandes filmes de estúdio eram produzidos na altura, o realizador, co-argumentista e também ator principal, Orson Welles, a par do diretor de fotografia, Gregg Toland, reinventou o processo de realização e produção de um filme. Para além disso, Welles demonstrou como é que um autor podia deixar a sua marca pessoal num projecto cinematográfico.

Orson disse, numa declaração incluída no catálogo da AFI, que “queria fazer um filme que não fosse uma narrativa de ação, mas um exame de carácter”. “Existiram muitos filmes e livros que, de forma rigorosa, obedeceram à formula da ‘história de sucesso'”, disse referindo-se aos movimentos culturais da época. “Eu quis fazer algo bem diferente. Queria fazer um filme que pudesse ser chamado de ‘história de fracasso'”. 

O realizador conseguiu fazer aquilo a que se propôs, na medida em que o protagonista do filme vive mesmo uma história de fracasso. O argumento gira em torno da sua ascensão e queda, tendo como pano de fundo a sua infame última palavra proferida antes de morrer, rosebud. Citizen Kane é, porém, em si mesmo, o oposto do fracasso. 

Um lançamento conturbado

Citizen Kane é uma enciclopédia de técnicas: uma escola de cinema de 114 minutos, que fornece várias lições sobre a profundidade de campo, close-ups extremos, diálogos sobrepostos, a estrutura de flashbacks e alguns ângulos de câmara surpreendentes. A razão pela qual é um filme tão vibrante prende-se com o facto de o seu próprio realizador também ter estado a aprender essas mesmas lições durante a fase de produção, dado que Orson não tinha, até à data, qualquer tipo de experiência profissional atrás de uma câmara. 

O filme narra a história de um magnata da imprensa envelhecido cuja arrogância o alienou de todos os que o amavam, fazendo com que morresse sozinho dentro do seu grande e solitário castelo, na Flórida. A personagem principal, Charles Foster Kane, tinha sérias semelhanças com Willian Randolph Hearst, o líder da imprensa americana, que morava em San Simeon, o seu famoso castelo na Califórnia. Mankiewicz, o co-argumentista do filme, criou os diálogos de Kane usando, de forma quase integral, frases dos próprios discursos e escritos de Hearst.

Um dado interessante é que os trabalhadores de Hearst, vendo que o filme tratava de forma pouco simpática o seu chefe, proibiram qualquer referência a Citizen Kane nos jornais de Hearst e nas suas estações de rádio, nem saiu nenhuma crítica escrita aquando da sua estreia. Proibiram também qualquer tipo de menção a todos os outros filmes provenientes do mesmo estúdio que produziu Citizen Kane, a RKO Radio Pictures.

O próprio Herst, irritado pelo filme, e tentando evitar que este saísse para o grande ecrã, veio dizer para a imprensa que Welles era comunista, uma acusação que, naquela altura, seria capaz de destruir a reputação de Orson em Hollywood e de provocar uma investigação de iniciativa governamental.

Apesar de ser hoje considerado por muitos como o melhor filme de sempre, Citizen Kane não teve, inicialmente, grandes possibilidades de ter um lançamento digno da fama eterna que obteve posteriormente. Em 1941, não pôde ser exibido nos principais cinemas de muitas cidades, porque eram ocupados pelos grandes estúdios, que boicotaram o filme.

O facto de não ter podido ser anunciado nos influentes jornais de Hearst (os anúncios referiam-se apenas a uma misteriosa “Atração de Novo Ecrã”) também contribuiu para o fracasso de bilheteiras. Para além disso, embora o filme tenha sido instantaneamente aclamado por muitos críticos, apenas ganhou o Óscar de Melhor Roteiro, que Welles partilhou com o co-argumentista Herman J. Mankiewicz, apesar de ter estado nomeado para nove Óscares.

A lenda em volta da produção e realização de Citizen Kane é um dos mitos centrais de Hollywood: como é que um rapaz genial, Orson Welles, de apenas 25 anos, teve toda a liberdade ao seu dispor para fazer exatamente o filme que queria fazer e, em resposta a essa dádiva da RKO, fez mesmo o melhor filme de todos os tempos? Só para, no final, ver a sua magna obra, e a própria carreira, mitigadas pelo statuos quo que estava instalado em Hollywood.

As razões por detrás do sucesso monumental

Em resposta à pergunta colocada no parágrafo anterior, a verdade é que Welles se tornou no herói outsider do cinema, predilecto entre os críticos de autor franceses. Passou também a ser idolatrado pelos cineastas independentes e por qualquer pessoa que argumentasse uma maior valorização da arte no Cinema sobrepondo-se ao seu possível lucro comercial.

As origens do filme são interessantes de se detalhar: Orson Welles, o rapaz maravilha do mundo do teatro e da rádio, viu, aos 25 anos — ênfase na sua idade — ser-lhe dado total espaço de manobra para fazer qualquer filme que quisesse. Foi uma liberdade sem precedentes na altura, dado que este seria o seu primeiro filme como realizador. Para concretizar a sua visão, recrutou Mankiewicz, um argumentista experiente, para colaborar com ele num argumento que originalmente se chamou Os Americanos.

A inspiração, já situada, veio do percurso de vida de William Hearst, que edificou um verdadeiro império, juntando vários jornais, estações de rádio, revistas e serviços de notícias. Aproveitou ainda para construir um monumento exuberante em San Simeon, um castelo, que se tornou na sua casa, à semelhança da personagem de Kane.

Orson Welles e Gregg Toland enquanto preparavam a produção de Citizen Kane.
Fotografia: IMDB

Ao chegar a Hollywood, Welles trouxe um conhecimento subtil em termos de som e diálogo consigo. Muito devido à sua experiência no Mercury Theater of the Air, o teatro fundado pelo próprio aos 21 anos, o ator brincou com estilos de som mais ágeis e sugestivos do que aqueles que geralmente eram usados nos filmes da época. Para diretor de fotografia, contratou Gregg Toland, pioneiro naquilo que se tornou num dos pontos fortes de Citizen Kane: a técnica da profundidade de campo, que mantém todos os objetos, tanto os da frente como os de trás do plano de foco, com o mesmo foco simultâneo. Isto deu uma maior sensação de profundidade ao mundo de duas dimensões dos filmes.

Uma das cenas em que mais isto se evidencia está logo no início do filme. Charles Kane, um rapaz pequeno na cena em questão, brinca na neve com o seu trenó, até que os pais lhe dizem que será levado por um estranho, para estudar e ter melhores oportunidades de vida. No plano da cena, o acordo é negociado dentro de casa, mas há uma janela ao centro onde se pode ver o pequeno Charles a brincar, com o mesmo foco que vemos as cenas que se desenrolam na perspectiva mais próxima do espectador.

Outra técnica inovadora foi a filmagem de cenas em interiores, conseguindo igualmente demonstrar os seus tectos, ou a desconstrução de um enredo partilhado por múltiplos pontos de vista. O sucesso estrondoso de Welles na estreia no papel de realizador serviu igualmente de lição para a indústria do cinema, ao mostrar que a preparação não é assim tão necessária para a feitura de um filme. É incrível perceber que este foi o primeiro filme de todos, tanto para Orson Welles, como para a maior parte das pessoas que estiveram envolvidas na sua produção. Nunca tinham feito um filme antes.

Welles aprendeu também a técnica de fazer o espectador olhar para cima quando personagens influentes estão no ecrã, e o inverso, quando se tratam de personagens secundárias, fazendo com que estas parecessem mais fracas. Foi, aliás, bastante influenciado por Stagecoach, de 1939, realizado por John Ford e, segundo as próprias palavras de Orson, este viu o filme de Ford cerca de quarenta vezes durante a produção de Citizen Kane

Como se sabe, o primeiro dia em que meti os pés num set foi o meu primeiro dia como realizador,” contou Orson Welles a Peter Bogdanovich, para o livro This is Orson Welles. “Eu aprendia tudo o que sabia na própria sala de projeção — a partir de John Ford. Depois de jantar, todas as noites, durante um mês, eu via o Stagecoach… e fazia perguntas. ‘Como é que isto foi feito? Porque é que isto foi feito?’ Parecia que estava a ir para a escola.”

Para o elenco, Welles reuniu vários colegas de Nova Iorque, que colaboravam no seu teatro, incluindo Joseph Cotten para interpretar o papel de Jed Leland, o melhor amigo de Kane; Dorothy Comingore, que deu vida a Susan Alexander, a jovem que Kane pensou poder transformar numa estrela de ópera, quando esta não tinha talento nenhum, e que ditou a queda do magnata; Everrett Sloane deu corpo a Sr. Bernstein, o assistente de negócios de Kane, entre outros. À semelhança de Welles, o elenco também não tinha qualquer tipo de experiência cinematográfica, o que só torna o sucesso em volta de Citizen Kane ainda mais espantoso e, acima de tudo, único.

Orson Welles, igualmente estreante no papel de ator de cinema, interpretou Kane desde os seus 25 anos até ao leito da sua morte, utilizando para isso maquilhagem e linguagem corporal que serviram para o público compreender o declínio de um homem cada vez mais órfão dadas as suas necessidades. Orson trabalhou diariamente cerca de 16 a 18 horas na produção e realização do filme, começando logo às quatro da manhã, dado que a dita maquilhagem, usada para o envelhecer para certas cenas, demorava quatro horas a ser aplicada. Welles usava este tempo para discutir o dia de gravações com Toland e outros membros da equipa.

E o que dizer da estrutura icónica do filme? Não nos podemos esquecer que Citizen Kane estreou em 1941, quando o que estava em voga era a estrutura tradicional das narrativas de Hollywood. Somos introduzidos ao filme logo a começar pelo fim da história, em que vemos o idoso Kane a morrer, proferindo a palavra considerada por muitos como a mais famosa da história do cinema. A partir daqui, começa a aventura dos flashbacks, e o filme ganha uma estrutura circular, que se torna cada vez mais profunda à medida que se analisa a vida de Kane.

Depois da morte de Charles Kane, Welles e Mankiewickz decidem brincar com o espectador e somos mergulhados nas imagens do obituário de um noticiário que narra os principais eventos do filme que estamos prestes a ver, mostrando os altos e baixos da vida de Kane. Esta decisão narrativa serve de mapa da trajectória da personagem principal, mantendo-nos orientados à medida que o argumento avança no tempo, reunindo também as memórias das personagens que o conheceram em vida. Uma narrativa não-linear sublime, inovadora para a época. 

Inevitavelmente, inúmeros filmes subsequentes foram massivamente influenciados por Citizen Kane. Um dos casos mais recentes é O Lobo de Wall Street, o filme de 2013 realizado pelo conceituado Martin Scorsese. No filme mais recente, há uma cena que recria aquela em que Kane dá uma festa para o seu staff do jornal, e o seu escritório é invadido por uma banda de marcha. Mas o dinamismo que Scorsese emprega à cena do filme, protagonizado por Leonardo Di Caprio, não é o mesmo que Welles tinha quando estava a fazer Citizen Kane. Ninguém consegue fazer algo semelhante.

Tudo isto porque, hoje em dia, a nenhuma pessoa que vá realizar um filme pela primeira vez, aos vinte e poucos anos, lhe é dado o mesmo tipo de controlo total sobre um grande projecto a que Orson teve direito. E ninguém entra, atualmente, no mundo de Hollywood com a inocente ignorância, misturada com uma dose de arrogância, que Welles trazia consigo acerca daquilo que poderia ser alcançado.

Em 1941, Orson Welles era ao mesmo tempo iniciante e experiente, aluno e professor. E se ele nunca tivesse tido a liberdade e energia ilimitadas para fazer um filme como Citizen Kane, também nunca ninguém conseguiria tê-lo feito. O filme foi um marco extraordinário e é incrível em todas as suas proporções.

Rosebud, o enigma mais famoso da história do cinema

Rosebud. Nenhuma outra palavra celebrizada no cinema carrega tanta fama nas suas costas. Rosebud é pronunciada logo na primeira cena do filme, por Kane no leito da sua morte, induzindo no espectador a ideia de que encerra um mistério dentro de si. Nenhuma das pessoas intimamente ligadas ao magnata tem a mais remota ideia do que é que esta significa.

Supostamente, ninguém a ouviu a sair da boca do magnata da imprensa. Raymond, o mordomo, ouviu, uma única vez. Foi no dia em que Susan abandonou o castelo, e Kane, irritado com a sua saída, destruiu toda a decoração do quarto da amada e andou a vaguear, cabisbaixo, pelos corredores da sua residência, perdido na mágoa que agora carregava consigo.

Uma das hipóteses levantadas é que Rosebud significava algo que Kane tinha perdido, e tudo apontava para que tivesse sido Susan. Mas parece-me estar errada. Susan, ouviu, aliás, parte do segredo. No primeiro encontro que teve com Susan, Kane confessa-lhe ter ido “em busca da juventude”. Tinha acabado de fazer uma viagem nostálgica aos objetos da sua infância que pertenciam à mãe,  e deve lá ter encontrado o trenó de menino, que simboliza um tempo de pureza da sua vida, talvez o único, que já não tem retorno.

O globo de neve que imortaliza o mistério por detrás do significado de Rosebud.
Fotografia: IMDB / Divulgação
Aliás, nas duas únicas vezes em que pronuncia esta palavra, Kane está a segurar um globo, com neve falsa suspensa em água, que reproduz uma paisagem que lhe recorda os Invernos da sua infância, no Colorado. A visão da neve a cair, dentro do globo, remete-o para as tardes em que usava o trenó dos seus tempos de menino. Rosebud marca a inocência perdida de Kane, toldada pelo excesso de dinheiro, fama e poder, nas palavras do próprio protagonista.

De acordo com Leland, “tudo o que Kane sempre quis da vida foi amor. Esta é a história de Charles. Como ele o perdeu”. No final do filme, o espectador fica sem saber quem era, de facto, aquele homem. Alguém cheio de rancor ou, por outro lado, sem escrúpulos, capaz de tudo para alcançar o maior poder possível? Rosebud é apenas uma parte do quebra-cabeças, e também ajuda a explicar o facto de o filme ser tão bom. Para além do seu portento técnico, apesar da sua história relativamente simples, a narrativa não-linear faz com que quem veja o filme chegue ao fim sem certezas absolutas acerca do carácter de Kane. Todo o filme é um mistério, mascarado pela sua simplicidade no argumento e dinamismo estético.

Uma das coisas que ajuda mais a cimentar o papel de Citizen Kane como um dos melhores filmes de todos os tempos, é a forma como este apela, de forma natural, a múltiplas visualizações. De facto, há muitos poucos filmes que geram esta necessidade tão brilhantemente no espectador, dado que, sempre que o revisitamos, a obra-prima de Welles é uma caixinha de surpresas, revelando sempre novos detalhes, outrora escondidos. Citizen Kane é um filme de proporções quase inimagináveis, que repousa, acertadamente, no panteão das melhores histórias de todo o sempre, imune à passagem do tempo. 

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Festival Glastonbury
Reino Unido aprova dispositivo de testes rápidos à Covid-19 para festivais