Annalise Keating LGBTQ+

As mais importantes personagens LGBTQ+ no cinema e na televisão

A ficção tem contribuído decisivamente para a representatividade

O mês de junho é o Pride Month, altura do ano dedicada à celebração dos direitos da comunidade LGBTQ+. A luta pelos direitos é travada em várias frentes, mas a televisão e o cinema são igualmente responsáveis por quebrarem barreiras e exporem o preconceito.

Numa altura em que os movimentos anti-racistas se fazem sentir um pouco por todo o mundo, no mês dedicado ao Orgulho Gay torna-se importante relembrar as lutas que a comunidade ainda enfrenta. São mais de 70 os países em que as “práticas homossexuais” são consideradas crime punível por lei, enquanto em países como o Afeganistão, Paquistão ou o Qatar, podem mesmo resultar numa pena de morte. Existem ainda outros vários estados onde o casamento ainda não é permitido, alguns deles como Itália, Croácia, República Checa, Grécia, entre muitos outros.

Portugal é dos poucos países no mundo em que a união matrimonial entre pessoas do mesmo sexo – assim como a adoção homoparental – é permitida por lei, desde a década passada. Podemos pensar que a representação em filmes ou em programas de televisão não tem nada a ver ou que terá até pouca influência, mas a verdade é que várias personagens permitiram que o grande público olhasse para a comunidade LBGTQ+ com outros olhos, quebrando estereótipos e preconceitos.

Os media têm um importante papel na educação da sociedade e a ficção, mesmo que por vezes sirva como uma escapatória ao mundo real, acaba por nos mergulhar em temas sociais que necessitavam a nossa atenção. As seguintes personagens marcaram o paradigma televisivo e cinematográfico, levando a luta pelos direitos LBGTQ+ a ganhar um novo impulso.

Televisão

Ellen Morgan – Ellen

O que tinha tudo para ser um episódio normal, acabou por fazer história e deixar o nome de Ellen DeGeneres registado para todo o sempre. Atualmente à frente do seu talk-show diário, o The Ellen DeGeneres Show, a apresentadora viveu a protagonista de Ellen, uma série de comédia no final da década de 90. No episódio em questão – The Puppy EpisodeEllen Morgan, a personagem vivida pela apresentadora – confessou ao seu interesse amoroso, uma personagem vivida por Laura Dern, que era homossexual. A revelação feita pela personagem tornou-a uma pioneira, sendo a primeira personagem a assumir a sua homossexualidade na televisão norte-americana. Recentemente, Laura Dern confessou que após a emissão do episódio enfrentou muitas dificuldades em conseguir arranjar novos papéis que pudesse desempenhar, por ter ficado ligada à polémica revelação de Ellen DeGeneres. Hoje, Laura Dern é uma atriz vencedora de um Óscar, pela sua atuação em Marriage Story.

A cena foi ao ar cerca de uma semana depois de Ellen DeGeneres ter assumido publicamente a sua homossexualidade, com a inesquecível capa da revista TIME Yep, I’m Gay!. O episódio da série registou uma audiência de cerca 42 milhões, só nos Estados Unidos. Imediatamente a seguir à exibição do capítulo, a polémica explodiu. A sociedade não estava pronta para a coragem de Ellen DeGeneres, fazendo a audiência do programa cair brutalmente no episódio seguinte e ainda mais na temporada que se seguiu – que acabou por ser a última. Ainda assim, o momento foi celebrado e é recordado como um dos mais importantes momentos da representatividade da homossexualidade em TV. Ellen DeGeneres acabou por vencer um Emmy no ano seguinte.

Will Truman e Jack McFarland – Will & Grace

Apenas um ano após o coming out de Ellen DeGeneres, Will & Grace chegou aos ecrãs. A série de comédia sobre um grupo de amigos, em especial os dois protagonistas homossexuais, foi um grande sucesso durante e ficou no ar durante dez anos na NBC. Vinte anos após a estreia – em 2018 – Will & Grace regressou aos ecrãs americanos para uma temporada de celebração, voltando a conseguir bons índices de audiência, que acabaram por garantir uma renovação por mais duas temporadas.

Ambos os atores responsáveis por Will Truman e Jack McFarland, Eric McCormack e Sean Hayes receberam Emmys devido às suas atuações na série, que contribuiu para a rutura de alguns estereótipos presentes da sociedade, especialmente ao longo dos dez anos de exibição. 

Brian Kinney – Queer as Folk 

Adaptado do original britânico do Channel 4, Queer as Folk é das mais disruptivas produções televisivas deste século. A história centrada num grupo de amigos homossexuais que se vêem debatidos não só com a homofobia, mas também com as relações amorosas e as suas crises, Queer as Folk foca-se essencialmente em duas personagens: Justin (Randy Harrison) e Brian (Gale Harold), um casal com uma considerável diferença de idades.

A personagem vivida por Gale Harold, no entanto, é capaz de ser a mais memorável de todo o enredo. Ao vestir a pele de um homem gay que não o aparenta ser, Brian Kinney mostrou ao mundo que nem todos os homossexuais são afeminados e que a comunidade é muito mais expansiva do que costumava ser representada pela televisão. Apesar de Queer as Folk nunca ter sido um grande sucesso, esteve cinco anos no ar e tornou-se uma série de culto, graças às suas personagens marcantes e as cenas sexuais explícitas de há vinte anos.

Callie Torres e Arizona Robbins – Grey’s Anatomy

Médicas de sucesso, Callie Torres e Arizona Robbins são das mais inesquecíveis personagens LGBTQ+ que a televisão já viu. A personagem vivida por Sara Ramírez, Callie Torres, revelou a sua bissexualidade após se envolver com Erica Hahn, uma médica do Hospital com quem teve um breve caso. Porém, foi só quando conheceu Arizona Robbins (Jessica Capshaw) que Callie assumiu uma relação duradora. A importância de Callie e Arizona é muito maior do que se pode pensar, pois foram das primeiras personagens abertamente bissexuais e homossexuais a marcarem presença numa série dramática de horário nobre nos Estados Unidos, algo que ganhou um foco acrescido por Anatomia de Grey ser um dos maiores sucessos da televisão.

As personagens acabaram por casar e até ter uma filha, durante a sua estadia em Seattle, a cidade onde decorre a narrativa de Grey’s Anatomy. No entanto, na 12.ª temporada, Callie Torres abandonou a cidade, deixando o hospital e a sua parceira. Dois anos depois, foi a vez de Arizona deixar o seu lugar. Porém, Grey’s Anatomy continua a dar voz à comunidade LGBTQ+, tendo na atual temporada um novo romance gay: Nico (Alex Landi) e Levi (Jake Borelli).

Mitchell e Cameron – Modern Family

Apesar de não fugirem ao típico casal gay das séries de comédia, Mitchell e Cam são das mais carismáticas personagens LGBTQ+. Modern Family, finalizada este ano, juntou várias personagens-tipo e nunca foi vista como uma série que combatesse o preconceito, fosse com homossexuais ou com hispânicos na América, mas a verdade é que a representação de Mitchell e Cameron na série foi além da sua sexualidade, ao representarem um casal que adota um bebé vietnamita – mostrando que um casal gay pode ser tão bom a construir uma família como um casal heterossexual.

Entre peripécias com a vida de recém-papás e com a própria relação e resto da família, Mitchell e Cam fizeram a delícia de vários fãs da série, permanecendo anos e anos no topo de séries mais vistas nos Estados Unidos e no mundo.

Sophia Burset – Orange is the New Black 

Para a comunidade LGBTQ+, Sophia Burset é das mais importantes personagens dos últimos anos. Laverne Cox viveu a presidiária de Orange is the New Black, uma das primeiras séries originais da Netflix a roubar a atenção para as plataformas de streaming. Extremamente focada nas personagens, no seu passado e no seu desenvolvimento, Orange abordou a transexualidade de Sophia Burset. O processo de transição, na série, foi representado pelo irmão gémeo da atriz – M. Lamar – que vestiu a pele de Sophia antes desta se transformar na bonita e poderosa mulher que encheu os ecrãs da série norte-americana.

Porém, não foi só a personagem que foi importante para a representação da transexualidade nos ecrãs. Laverne Cox, à semelhança da sua personagem, também é transexual. O papel vivido em Orange is the New Black rendeu-lhe uma nomeação aos Emmy Awards, tornando-a a primeira transexual a ser nomeada nessa categoria.

Hoje, mesmo após o fim da série, Sophia Burset continua a ser relembrada pela sua força e carisma na luta contra o preconceito com transexuais, ao lado da atriz que continua a dar a cara pela comunidade.

Annalise Keating – How to Get Away With Murder

Entre crimes e julgamentos, Annalise Keating é das mais ferozes e brutais personagens da televisão da última década. How to Get Away With Murder chegou ao fim há cerca de um mês na ABC, a sua estação de origem, mas o legado da personagem vivida por Viola Davis continua.

Kerry Washington penetrou o mundo da televisão norte-americana em 2012 com a sua Olivia Pope, de Scandal, tornando-se na primeira atriz negra a protagonizar uma série dramática num canal aberto. Apenas dois anos depois, as portas abriram-se para Viola Davis e a sua Annalise Keating, que não só continuou com o processo de dar voz às comunidades negras – um trabalho de Shonda Rhimes, a produtora – mas também aos bissexuais. A poderosa advogada revelou a sua bissexualidade na segunda temporada, quando o público ficou a conhecer o seu romance com Eve Rothlo (Fiona Pruitt). O modo como a bissexualidade da personagem foi retratada na série foi feito com honestidade e normalidade, demonstrando que Annalise Keating continuava a ser a mulher forte e independente que sempre fora até então.

Cinema

Andrew Beckett – Philadelphia

Vivido por Tom Hanks, Andrew Beckett é o grande protagonista de Philadelphia. A história de um prestigiado advogado homossexual que descobre ser portador de HIV. Com medo que os colegas descobrissem a sua situação, Andrew decidiu permanecer no trabalho, até os sinais começarem a ser visíveis e acabar por ser demitido. Injustiçado, Andrew contacta Joe Miller (Denzel Washington) um advogado até então homofóbico que Andrew contrata para defender o seu caso.

Philadelphia foi dos primeiros filmes comerciais de Hollywood a colocar uma luz sobre a homossexualidade, a homofobia e a SIDA / HIV, no início da década de 1990. O filme retrata com muita sensibilidade o efeito da SIDA, seja no corpo do seu portador, como nas suas relações e até na sociedade. Numa altura em que a América ainda se encontrava mergulhada nos seus próprios preconceitos (anos antes de sequer aparecer uma personagem homossexual na televisão), Philadelphia foi considerado provocador e desrespeitoso com a “família tradicional americana“. Ainda assim, o filme acabou por vencer dois Óscares: um pela atuação de Tom Hanks e outro pela música original de Bruce Springsteen.

Jack Twist e Ennis del Mar – Brokeback Mountain 

O símbolo da masculinidade americana, os cowboys, tornaram-se o centro das atenções em 2005 quando Jake Gyllenhaal e Heath Ledger vestiram a pele de Jack Twist e Ennis del Mar, dois homens que se envolveram romanticamente nos anos 60 e que esconderam o segredo das suas respetivas famílias.

O filme foi realizado por Ang Lee, que confessou na altura que o seu principal objetivo foi desconstruir a imagem que os americanos tinham dos cowboys – que eram vistos como o auge da masculinidade e virilidade. A obra de Lee levantou muita contestação na altura, por ser vista como uma provocação à história da América, levando até os próprios atores a serem vítimas de insultos e a terem a sua credibilidade artística afetada por encabeçarem um filme com uma temática homossexual.

Numa conferência de imprensa, Heath Ledger chegou a ser confrontado com a ideia do filme ser “repugnante“, algo que levou o ator a manifestar a sua contestação para com pessoas que “são rápidas a rotular as coisas com que não se sentem confortáveis“, afirmando que o amor entre dois homens eram tão puro e honesto quanto o amor entre um homem e uma mulher.

Adèle e Emma – La Vie d’Adèle

É o único filme não falado em inglês da lista, mas não é o menos importante. Blue is the Warmest Color – ou La vie d’Adèle no seu título original – é um coming of age francês centrado na exploração sexual e na identidade de Adèle, uma jovem que se descobre homossexual quando se apaixona por Emma, uma pintora que a leva a aceitar-se tal como é.

A obra segue a relação das duas jovens ao longo dos anos, desde o ensino à vida adulta e profissional de Adèle, espelhando vários contratempos que as relações homoafetivas podem encontrar à medida que os anos avançam. O filme gerou uma elevada controvérsia após a sua estreia, em especial devido às cenas sexuais que alegadamente deixaram o público “desconfortável“. Não obstante, La vie d’Adèle acabou por se consagrar vencedora da Palm D’Or em Cannes, entregando o prémio não só ao realizador Abdellatif Kechiche, mas também às atrizes principais Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, que se tornou a mais jovem vencedora de um prémio em Cannes, com apenas dezanove anos.

Chiron – Moonlight

Dividido em três fases da vida da personagem principal, Chiron, Moonlight reproduz as adversidades que o protagonista no seu processo de reconhecimento da sua própria sexualidade, enquanto lida com o abuso físico e emocional durante o seu crescimento. Moonlight evidencia ainda a dificuldade que um homem negro homossexual enfrenta na sua vida quando cresce junto de comunidades extremamente preconceituosas ou mergulhado no mundo do crime. Estreado em 2016, o filme de Barry Jenkins recebeu várias nomeações aos Óscares e venceu o prémio máximo de Melhor Filme, consagrando-se a primeira longa-metragem com um elenco composto apenas por atores negros e com uma temática LGBTQ+ a vencer o prémio em questão.

Lê também: ‘Love, Victor’: uma única e encantadora história de revelação homossexual

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
festival de cannes
Cannes 2021. Festival em risco de ser adiado para o verão