Deftones

20 anos de White Pony, o álbum que marca o legado dos Deftones

No dia 20 de junho do ano 2000, era lançado White Pony, o terceiro álbum de estúdio dos Deftones. De forma a celebrar o 20.º aniversário do lançamento do disco, o Espalha-Factos conta como é que o mesmo se distingue dos seus contemporâneos e o impacto que teve na indústria musical.

Antes de White Pony

Formados em 1988, em Sacramento, na Califórnia, os Deftones são um dos mais importantes grupos do movimento musical alternative metal. Este género é caracterizado pela fusão de características do heavy metal com influências de rock alternativo e outros géneros que , geralmente, não associamos ao metal.

Capas de White Pony
Lado a lado, a capa original de ‘White Pony’ e a capa da reedição de 2001. A última encontra-se disponível para audição nas habituais plataformas de streaming.

Ao longo do seu período de atividade, a banda sofreu algumas alterações na sua constituição. O alinhamento mais celebrado acaba por ser o que está presente em White Pony. Chino Moreno é o vocalista, Stephen Carpenter na guitarra, Abe Cunningham na bateria, Frank Delgado na turntable e teclas, e Chi Cheng como o dono do baixo.

Para percebermos porque é que White Pony é um álbum tão diferente dos seus contemporâneos, é preciso apresentarmos a paisagem musical em que este surge. A meio da década de 90, o panorama musical sofreu uma alteração. O grunge, género que havia dominado o início da década, estava em declínio. A morte de Kurt Cobain, em abril de 1994, havia sido o último prego no caixão.

Sendo assim, abria-se uma porta para um novo género musical chegar-se à frente dentro do espectro do rock. E assim foi. Ao mesmo tempo que o grunge entrava em declínio, um novo género musical começava a crescer em número de fãs: o nu metal. Amado por muitos, odiado por outros tantos, o nu metal acaba por ser um bebé do alternative metal. Ambos partilham características como o uso alternado de vocais melódicos e gritos ensurdecedores ou um foco elevado no uso de guitarras afinadas uns quantos tons abaixo do normal como o principal motor da secção rítmica das músicas.

No entanto, as bandas de nu metal, como Korn, Linkin Park ou Limp Bizkit, retiravam bastantes influências ao hip hop e a sua música era caracterizada por ser bastante angustiada. As bandas que são associadas ao movimento de alternative metal, como Tool, System of a Down ou Faith No More possuem uma veia mais experimental que as bandas mencionadas acima, e retiravam influências de outros estilos que não o hip hop.

Adrenaline, o álbum de estreia dos Deftones, enquadra-se muito no estilo de nu metal. Lançado em 1995, o disco é bastante cru e agressivo na sua sonoridade e revela uma banda com potencial, mas ainda com um longo caminho a percorrer.

E esse caminho começa a ser percorrido com o lançamento do segundo disco da banda, Around the Fur, em 1997. É um álbum marcante no desenvolvimento da banda em termos musicais. Passam a existir espaços para mais momentos de experimentação, que se traduzem especialmente na dinâmica entre os momentos melancólicos e melódicos do álbum e os momentos agressivos, agora mais controlados.

Acabou por ser esta dinâmica que iria passar a estar associada aos Deftones. White Pony seria, até então, o pico deste casamento entre melodia e agressividade.

O nascimento de White Pony

Entre 1997 e 2000, o nu metal continuou a crescer em popularidade. Isto fez com que, no verão de 1999, os dois primeiros discos dos Deftones fossem certificados com ouro nos Estados Unidos, indicando que mais de meio milhão de unidades tinham sido vendidas.

Deftones
A energia dos concertos dos Deftones e a associção ao movimento de nu-metal permitiram que o seu número de fãs crescesse de forma regular. Fotografia: Rick Cosick

Depois de terminada a tour em volta da promoção de Around the Fur, a banda começou a cozinhar em estúdio o que seria White Pony.  Tal como nos dois primeiros álbuns, a produção do álbum ficou a cargo de Terry Date. No entanto, existe uma diferença crucial na abordagem à gravação do disco. O baixista da banda na altura, Chi Cheng, que infelizmente nos deixou em 2013, falava sobre o processo. “Não tínhamos nada a perder, e fizemos o disco que queríamos fazer”. O período em estúdio para a criação de White Pony foi, até à altura, o mais longo da banda para um álbum.

Isto reflete-se no produto final. Comparativamente com Around the Fur, White Pony soa mais refinado na sua produção e no produto final. Isto torna-se evidente na forma como as transições entre os momentos mais melancólicos e os mais agressivos do álbum funcionam de forma tão subtil e natural.

A 20 de maio de 2000, a banda lançava ‘Change (In The House of Flies)’, single que precedia o álbum. Esse sairia um mês mais tarde, a 20 de junho.

Este é então o single com mais sucesso da banda, atingindo a nona posição no Mainstream Rock Charts da Billboard. A faixa resume muito bem o que acaba por ser a sonoridade de White Pony. Sem esquecer o seu passado, a banda implementa um som mais maduro, melódico e com múltiplas texturas que se misturam num épico fantasioso e sonhador. E esta surge através da incorporação de influências que, se em Around the Fur tinham sido pouco exploradas apesar de se fazer notar a sua presença, em White Pony são totalmente incorporadas no som da banda.

E que influências são estas? As guitarras gravadas por Stephen Carpenter e Chino Moreno, que pela primeira vez adicionava contribuições no instrumento em disco, faz lembrar bastante bandas do estilo shoegaze, como My Bloody Valentine. Este estilo é caracterizado pelo uso elevado de efeitos e feedback no instrumento. A dinâmica criada entre a agressividade e melancolia provém das bandas de post-hardcore dos anos 90, e as texturas que criam um ambiente de fantasia mas escuro ao mesmo tempo, lembra bandas como os The Cure ou Massive Attack, apontando para os territórios de new wave, post-punktrip hop.

O legado de White Pony marca o legado dos Deftones

Mas porquê mencionar todos estes elementos? Porque é deste casamento bastante bem sucedido entre todos que surge não só a sonoridade de White Pony, mas também a sonoridade que se tornou a marca dos Deftones.

Em 2000, pouco depois do lançamento do álbum, Chino Moreno falava sobre o crescimento musical da banda e sobre o nu metal. “Quando fizemos o nosso primeiro disco, as pessoas diziam que nunca nenhuma rádio iria tocar aquilo, que eram só gritos. Perguntavam porque não cantava mais. E eu respondia que me apetecia gritar. Muitas das músicas [dos dois primeiros álbuns] foram escritas quando eu tinha 16 anos de idade, e eu era só mais um adolescente zangado que sentia que o mundo estava todo contra ele. E agora que a rádio toca todo o tipo de coisas pesadas, a nossa editora quer que façamos parte de tudo isto [nu metal], mas sentimos que já ultrapássamos essa fase.”, explicou.

É uma citação algo longa, mas resume praticamente tudo o que há para dizer sobre a forma como White Pony leva a que os Deftones se distingam dos seus contemporâneos.

Crescendo lado a lado com o movimento de nu metal, os Deftones podiam ter-se deixado cair nos clichês do estilo. Mas não só o evitaram, como evoluíram para algo muito maior que este, criando uma das discografias mais consistentes, inovadoras e influentes do metal das últimas duas décadas. Mostraram que era possível que a experimentação e o sucesso coexistissem no mesmo espaço no século XXI, abrindo as portas para que inúmeras bandas crescessem sem medo de explorarem sons além da sua zona de conforto e para que outras tantas tivessem sucesso apesar da quebra de múltiplas barreiras musicais e preconceitos existentes dentro do seu género musical.

White Pony foi lançado a 20 de junho de 2000, e seria o primeiro álbum da banda a entrar no top 200 de vendas da Billboard, alcançando a terceira posição como melhor registo. Tornou-se no primeiro grande sucesso da banda, e num dos favoritos dos fãs (vendeu mais de um milhão de cópias) e dos críticos. Um ano mais tarde, a música ‘Elite’ venceria um Grammy para a Melhor Performance de Metal, confirmando a posição da indústria como extremamente favorável face ao trabalho da banda.

A audição do álbum pode ser feita nas plataformas de streaming habituais. No entanto, a versão disponível não é a versão original de White Pony.

Contrariamente à versão que foi disponibilizada ao público em junho de 2000, a versão das plataformas de streaming abre com ‘Back to School (Mini Maggit)’ em vez de ‘Feiticeira’. Esta versão corresponde à reedição lançada em 2001, que surge por parte de pressão da editora da banda para obter um segundo single. A banda nunca ficou satisfeita com esta reedição.

Os Deftones atuam no segundo dia (21 de maio) da edição de 2021 do North Music Festival. O novo álbum da banda terá data de lançamento no final deste ano. Para celebrar os 20 anos do lançamento de White Pony, a banda também irá lançar uma versão deluxe do disco que incluirá um conjunto de remixes das faixas do álbum, denominado de Black Stallion.

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