Michael Cimino interpreta Victor com uma honestidade e insegurança marcantes.
Mitchell Haaseth/Hulu

‘Love, Victor’: uma única e encantadora história de revelação homossexual

A série está disponível na integra na plataforma de streaming da Hulu

Love, Victor, a nova série da Hulu, que estreou esta quarta-feira (17) na plataforma de streaming, funciona como uma expansão do universo de Love, Simonlançado em 2018. Para quem não viu o filme, a série abre o seu primeiro episódio com a personagem principal, Victor Salazar (Michael Cimino), a sintetizar o enredo de Love, Simon.

O filme retrata a história de um jovem, Simon (Nick Robinson), que embarca numa jornada de auto-descoberta, envolvendo a revelação da sua homossexualidade aos seus amigos e família. Mas há boas noticias: a série tem uma bonita e comovente história própria.

O filme original acaba com Simon a beijar Bram (Keiynan Lonsdale) numa roda gigante, no Carnaval. Esta sequência narrativa de abertura de Love, Victor é simples mas eficaz, pois permite que o público que não tenha assistido ao filme que serve de base à série, seja facilmente introduzido ao universo da história.

Victor, de 16 anos, descobre a história de Simon no Instagram, e decide enviar-lhe uma mensagem, pois mudou-se recentemente para Atlanta, e ficou contente ao ver que um rapaz que andou na mesma escola que ele teve uma história tão triunfante em torno da revelação da sua homossexualidade. Mas é então que a série nos mostra que este processo não será tão simples para Victor quando este conclui a mensagem, “E eu só quero dizer… vai-te lixar. Vai-te lixar por teres os pais mais perfeitos do mundo, pais que te aceitaram tão bem, e por teres tido os amigos mais solidários do mundo. Porque, para alguns de nós, este processo não é assim tão fácil.”

A forma como Victor acaba o texto é reveladora de que Love, Victor tem história original suficiente para se distanciar do filme que lhe deu origem. Em vez de ser um mero remake, é muito positivo ver que a série está a contar a sua própria narrativa, envolvendo as suas próprias personagens. A introdução serve quase como um correctivo em relação a algumas críticas que o filme sofreu, na medida que, em Love, Simon, a personagem principal não enfrenta quase nenhuma espécie de conflito no que toca ao assumir da sua orientação sexual, sendo munido por um escudo de privilégio de classe. Este privilégio não é um retrato realista das dificuldades que uma pessoa passa no processo de se assumir como homossexual.

Não me interpretem mal: no século XXI, essa facilidade que Simon teve em dizer que era gay, rodeado pela aceitação vinda da sua família, amigos e até conhecidos, devia estar presente na vida de todas as pessoas que ainda se sentem inseguras a revelarem-se na sua verdadeira essência. Mas a triste realidade não é assim, nem sempre a vida é um conto de fadas, e Love, Simon foi criticado por não ser uma exposição assim tão fiel do processo de coming out. E a nova série, criada pelos argumentistas do próprio filme, Isaac Aptaker e Elizabeth Berger, funciona como um reconhecimento de algumas falhas na base do argumento de Love, Simon.

Ao criar a personagem de Victor, nascido no seio de uma família latina modesta, que passa por dificuldades, e rodeado de pais e avós católicos e conservadores que veem na homossexualidade um tema tabu, há aqui uma mudança narrativa em relação a Love, Simon que é inovadora mas, acima de tudo, mais inclusiva para os espectadores. Principalmente para aqueles pertencentes a minorias, em que o processo de coming out ainda se torna mais difícil.

Recentemente mudado do Texas para os subúrbios de Atlanta, o local onde se passa a história do filme original, Victor pensa que este recomeçar da sua vida lhe vai dar uma oportunidade de ser honesto com quem o rodeia, acerca de uma conclusão sobre ele próprio a que chegou: ele é gay.

Victor irá desenvolver uma atração por Benji, que poderá ajudar na revelação de que Victor é gay.
Divulgação/Hulu

O primeiro episódio dá logo sinais de que esta jornada de revelação não vai ser fácil, girando a sua história muito em torno da ideia de que é muito mais fácil para as pessoas fingirem quem não são do que revelarem, logo à partida, o que é que elas são na verdade. A mãe de Victor, Isabel Salazar, interpretada por Ana Ortiz, confessa ao filho, por exemplo, que às vezes se sente cansada de ter de fingir constantemente que tudo corre bem no seu casamento, quando nenhum casamento é perfeito.

O próprio Victor, quando abordado por duas novas colegas se deixou ou não uma namorada no Texas, reflete internamente, narrando os seus pensamentos ao espectador, sobre o facto de esta ser a altura ideal para se apresentar desde logo à comunidade escolar como gay. Mas há um medo e nervosismo evidente em Victor e este retrai-se, respondendo que não deixou lá nenhuma namorada e, sobretudo, não clarificando a sua orientação sexual de forma explícita.

É um ponto sobre o qual todos nos debatemos, seja de que maneira for, nalgum ponto da nossa vida. Quantos de nós já não tivemos que criar uma capa que demonstrasse algo para o exterior e para quem nos rodeia, mas que, afinal, não correspondia aos nossos verdadeiros sentimentos?

Tudo porque temos medo das reações que podemos suscitar à nossa volta, não esquecendo que, por vezes, o que nos impede de sermos totalmente honestos são mesmo os nossos próprios demónios interiores. E Love, Victor, através da sua personagem principal, com uma performance encantadora de Michael Simino, que ganha força devido à insegurança natural que o ator transporta para o papel, coloca-nos esta questão: o que é que é preciso para nos assumirmos como somos para o mundo?

O inicio da série é prometedor, desenvolvendo de forma relativamente natural todas as personagens que ocuparão os restantes capítulos da série: temos os já referidos pais de Victor, católicos conservadores com os seus problemas naturais no matrimónio, Isabel e Armando Salazar, este último interpretado por James Martinez, e há ainda a irmã de Victor, Pilar Salazar (Isabella Ferreira), que se demonstra descontente com esta mudança de residência, pois deixou no Texas o seu namorado, não se adaptando bem à nova escola nos primeiros dias dada a fúria que ainda sente. A completar a família é-nos apresentado o irmão mais pequeno dos três, Adrian (Mateo Fernandez).

Logo após a abertura do episódio, somos apresentados ao novo vizinho de Victor, Felix, a quem o ator Anthony Turpel dá corpo, e este promete ser uma das principais âncoras de Victor em termos de amizade. A história é, apesar de tudo, parecida em certos moldes a outras que assolam a televisão, e tem de existir uma personagem feminina que sirva de pretexto para que Victor se possa supostamente apaixonar, enquanto não tem ainda coragem de se revelar como gay. Essa personagem é Mia Brooks (Rachel Hilson) e a série gera um interesse em ver como é que tudo isto se vai desenrolar, e se Mia vai sair de coração partido do romance que parece ter, por enquanto, pernas para andar.

A última peça do xadrez é Benji (George Sear), um rapaz bonito, assumidamente homossexual, que atrai desde o início a atenção de Victor só com um simples olhar, e Love, Victor é eficaz na sua representação. É uma personagem que pode funcionar como o factor chave na revelação de Victor e talvez, quem sabe, possam acabar os dois aos beijos numa roda gigante, à semelhança do final de Love, Simon. Seria sinal de que Victor tinha conseguido realizar a sua jornada.

Love, Victor é, desde o seu primeiro episódio, uma série bem construída sobre uma história de coming-out, demasiado rara ainda na televisão, mas que se tornou cada vez mais familiar na última década, em séries como Vida, Sex Education e One Day at a Time, que incluem arcos narrativos sobre personagens jovens gays. Mas, para além disso, são séries sobre personagens cuja vida também é marcada por não serem brancos, o que torna ainda mais complicada a revelação da sua homossexualidade.

A variedade de histórias sobre minorias ligadas ao tema da orientação sexual não é vasta, mas Victor não está sozinho no pequeno ecrã e veio, acima de tudo, ocupar o seu próprio espaço, o que é bastante positivo. Para além disso, há que se reconhecer o facto de os criadores da série terem mesmo ouvido as críticas feitas ao filme original, tentando fazer mais e melhor, pela comunidade LGBTQ+ e a sua jornada de revelação, nesta segunda tentativa.

Numa era em que os remakes e spin-offs são, cada vez mais, uma simples cópia do material original do qual colhem influência, veja-se o caso da série Snowpiercer, Love, Victor faz mais do que lhe competia, apresentando-se como uma série leve, sem grandes pretensões, mas bastante honesta no tratamento que faz da história da sua personagem principal. É um retrato cuidadoso, sincero, cheio de emoção e fiel à jornada emocional de Victor. Bravo, Hulu.

Os dez episódios da primeira temporada, cada um deles com meia-hora de duração, estão todos disponíveis na plataforma de streaming da Hulu.

Michael Cimino interpreta Victor com uma honestidade e insegurança marcantes.
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