José Saramago

José Saramago: uma viagem pela sua obra intemporal em 10 livros

O vencedor do Prémio Nobel da Literatura e um dos nomes mais célebres da Literatura Portuguesa faleceu há 10 anos

O escritor português José Saramago faleceu há dez anos, no dia 18 de junho de 2010. A sua obra conta com mais de 50 títulos e perdura na posteridade, tornando-o um dos mais célebres e intemporais autores da língua portuguesa. Traduzido em 48 línguas e editado em 64 países, o Espalha-Factos traz-te uma selecção de dez das obras mais importantes do autor.

José de Sousa Saramago nasceu a 16 de novembro de 1922 – apesar de o seu registo mencionar o dia 18 de novembro como a sua data de nascimento oficial – na Azinhaga, “uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa”, como descreve na sua autobiografia. Mudou-se com os pais para Lisboa quando tinha apenas dois anos e foi na capital que passou a maior parte da sua vida. No entanto, não deixou de passar muito tempo na sua terra natal durante a idade adulta.

José Saramago

O primeiro contacto de José Saramago com a literatura aconteceu na escola e rapidamente se apaixonou por livros. No entanto, quando teve de abandonar os estudos cedo e trabalhar como serralheiro mecânico – profissão à qual se seguiu a de desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor e jornalista – devido a dificuldades financeiras, passou a frequentar a biblioteca municipal de forma assídua.

Publicou a sua primeira obra em 1947, o romance Terra do Pecado. Só voltou a publicar passados 19 anos, e desta vez um livro de poesia: Poemas Possíveis (1966). No entanto, após se dedicar durante alguns anos a este e a outros géneros distintos, regressou ao romance, ao qual passou a dedicar-se quase exclusivamente.

Algo polémica em território nacional, a obra de Saramago percorreu o mundo e foi alvo das mais diversificadas críticas. Editados em 64 países, os seus livros foram traduzidos em 48 línguas distintas, o que o torna num dos autores portugueses mais lidos em todo o mundo e explica a notoriedade da sua obra mesmo após a sua morte. Harold Bloom, autoridade no mundo literário e crítico norte-americano, no seu livro Genious, A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds, de 2003, disse que Saramago era “o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje”.

Romances

O romance foi  o género literário ao qual José Saramago dedicou mais tempo de escrita, e aquele pelo qual é aclamado tanto por críticos como pelos leitores. A sua primeira obra publicada, Terra do Pecado, insere-se exatamente neste género, ao qual não retornou durante 30 anos para se dedicar a outros. A ele regressou, mais tarde, com Manual de Pintura e Caligrafia (1977). Mesmo assim, não são estes as obras mais marcantes do autor dentro deste género.

Memorial do Convento (1984)

memorial do convento de josé saramago
Fonte: Porto Editora

O quarto romance de José Saramago, editado dois anos depois de Levantado do Chão, foi o verdadeiro afirmar do estilo do escritor português. Para além da rutura estilística, Saramago inovou na temática da obra ao tomar o Convento de Mafra como protagonista da narrativa. A este juntam-se Baltasar (“Sete Sóis”) e Blimunda (“Sete Luas”) que formam, em conjunto, o uno da relação Sol-Lua. Através da relação dos dois personagens, o autor satiriza as políticas do poder de Portugal da época, com a exploração dos pobres pelos ricos e a corrupção que marca a natureza humana.

Com uma recepção morna em Portugal aquando do lançamento, o romance foi adorado lá fora, tendo até sido adaptado para uma ópera para o Teatro alla Scala de Milão pelo compositor italiano Azio Corghi. Hoje, consta no Programa Nacional de Leitura e integra a lista de obras lidas no 12.º ano. Para além disso, a obra conta com mais de 50 edições e já foi traduzida para 20 línguas diferentes.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

ano da morte de ricardo reis de josé saramago
Fonte: Porto Editora

Ano da Morte de Ricardo Reis inovou na literatura pela perspetiva diferente que apresenta do Estado Novo. Dá-se conta do estilo crítico e irónico com que aborda a história, típico do autor, logo no início, quando o verso épico de Camões é virado ao contrário: “Aqui, onde o mar se acaba e a terra principia”, substituindo o momento glorioso da partida para o mar pela chegada derrotada a terra.

No entanto, José Saramago alia a crítica histórica a um estilo mais filosófico, ao escolher Ricardo Reis, o heterónimo de Fernando Pessoa, como protagonista. Entre várias deambulações pela cidade de Lisboa, o escritor reflete sobre a vida, a morte, os prazeres terrenos e o contexto europeu regido por ideais fascistas, sempre com recurso à crítica.

A obra foi adaptada para teatro por Hélder Costa, passou a constar do Programa para o 12.º ano a partir do ano letivo 2015/2016 e substituiu a obra Memorial do Convento a partir do ano letivo de 2017/2018, durante dois anos. Foi ainda distinguida com o Prémio da Crítica, o Prémio Dom Diniz, o prémio do jornal The Independent e com o prémio do Pen Clube Português.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)

Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago
Fonte: Porto Editora

Evangelho Segundo Jesus Cristo foi provavelmente a obra de Saramago que gerou mais polémica – tal foi que esta o levou a abandonar Lisboa permanentemente para se refugiar em Espanha, na ilha de Lanzarote. Na origem da polémica esteve um desentendimento do autor com o então subsecretário de estado da Cultura, Sousa Lara, que o considerou “ofensivo para a tradição católica portuguesa” ao adotar uma perspetiva de humanização de Cristo e por aludir a uma eventual relação com Maria Madalena. Devido à discussão, a obra foi removida da lista de livros a concurso para o Prémio Europeu de Literatura pelo governo que, à altura, era liderado por Aníbal Cavaco Silva.

“É um livro que não projetei, porque jamais me havia passado pela cabeça escrever uma vida de Jesus, havendo tantas e sendo tão diferentes as interpretações que dessa vida se fizeram, destrutivas por vezes, ou, pelo contrário, obedecendo às imposições restritivas do dogma e da tradição. Enfim, sobre o filho de José e Maria disse-se de tudo, logo não seria necessário um livro mais, e ainda menos o que viria a escrever um ateu como eu”, escreveu o autor, na obra A Estátua e a Pedra.

De facto, a maior crítica que foi feita ao livro era relativa à forma liberal com que adaptou e interpretou os Evangelhos, que muitos declararam ser “abusiva”. Ao descrever minuciosamente, e de um novo ponto de vista, as vidas e a forma como morreram os mártires do início do Cristianismo, José Saramago acaba por, após a publicação desta obra, se manter isolado nas ilhas de Lanzarote e não regressar a Portugal.

Ensaio sobre a Cegueira (1995)

Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago
Fonte: Porto Editora

Em Ensaio sobre a Cegueira, o escritor volta a debruçar-se sobre um estilo mais filosófico e refletivo. Numa “cegueira coletiva”, com personagens sem nome e sem situar a narrativa num tempo específico, José Saramago tenta mostrar ao leitor que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

A obra tornou-se uma das mais famosas e aclamadas do autor, ao lado de Memorial do Convento Evangelho Segundo Jesus Cristo, e foi também um dos principais motivos que o levou a ganhar o Prémio Nobel da Literatura em 1998. “Portugal nunca tinha tido um Prémio Nobel da literatura e uma parte da nossa missão consistia em mudar essa situação”, revelou na altura Jerry Bergström AB, diretor da empresa publicitária sueca que tratou da visita de promoção de Saramago a Estocolmo em antecipação do anúncio do vencedor do desejado galardão em 1998.

Num prefácio da obra, Zeferino Coelho afirmou que “O Ensaio sobre a Cegueira é um livro único na nossa história literária e também, é preciso dizê-lo, um dos grandes romances que se escreveram no século XX”. O livro foi também adaptado para o grande ecrã por Fernando Meirelles, num filme com Mark Ruffalo e Julianne Moore em 2008,  o que ajudou ao reconhecimento do autor no mundo anglófono.

O Homem Duplicado (2002)

Homem Duplicado de José Saramago
Fonte: Porto Editora

O Homem Duplicado alia o estilo de escrita habitual de Saramago com uma pitada de suspense. Na obra, Tertuliano Máximo Afonso é um professor de História no ensino secundário que “vive só e aborrece-se” e “esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou”. Ao ver um filme que lhe foi recomendado, descobre que um dos atores é um sósia seu.

A demanda do protagonista em busca do seu semelhante é o foco principal da narrativa, numa história que preza pela densidade psicológica das personagens. Durante a viagem de Tertuliano Máximo Afonso, o autor reflete sobre a busca do sentido da vida e do “eu”, o senso comum, a valorização do próprio, o bom e o mau, entre outros temas. Como seria de esperar, Saramago junta também alguma ironia e sentido de intervenção à sua reflexão.

As Intermitências da Morte (2005)

As Intermitências da Morte, José Saramago
Fonte: Porto Editora

“No dia seguinte ninguém morreu”. Assim inicia a obra de José Saramago. A partir deste pressuposto, o autor inicia uma ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor e o sentido da nossa existência, ou a falta dele, com o estilo filosófico a que muitas vezes habituou os leitores.

No entanto, como seria de esperar do escritor, mesmo ao refletir sobre estes assuntos, não perde a típica ironia e sarcasmo, pelo que as suas reflexões se tornam repletas de críticas à sociedade moderna. Mais uma vez, Saramago rompe com a típica tendência de criar uma hierarquia e um certo protocolo entre as palavras na narrativa e interrompe-a muitas vezes para falar diretamente com o leitor.

Poesia

Os Poemas Possíveis (1966)

poemas possíveis de josé saramago
Fonte: Porto Editora

Os Poemas Possíveis foi a primeira obra poética do autor. Em jeito de luta disfarçada através de palavras, José Saramago escreveu os poemas “possíveis” numa altura de alta censura. Mesmo assim, as convicções do escritor são visíveis em vários poemas, e é isso que torna a obra emblemática. Destaca-se, como exemplo, “Criação”:

“Deus não existe ainda, nem sei quando
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.

Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.”

A obra é composta por 148 poemas, organizados em cinco cadernos, e surgiu após um período de paragem de 19 anos depois da publicação de Terra do Pecado em 1947. O livro foi traduzido e editado na Alemanha, Argentina, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Itália e México.

Dramaturgia

In Nomine Dei (1993)

In Nomine Dei, José Saramago
Fonte: Porto Editora

Em In Nomine Dei, José Saramago apresenta também o seu talento para a escrita teatral. Baseada em factos reais, a ação decorre em Münster, Alemanha, entre 1532 e 1535, através da qual o autor reflete sobre as lutas entre Protestantes e Católicos. O autor defendeu-se das críticas, dizendo que “Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome de Deus – “In Nomine Dei” – para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso.”

Para além do seu potencial como romancista já reconhecido, o escritor explora ao limite as falas das personagens. In Nomine Dei foi traduzido e publicado em Espanha, Cuba e Itália.

Contos

O Conto da Ilha Desconhecida (1997)

O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago
Fonte: Porto Editora

No meio de tanta crítica social e reflexões sobre o sentido da vida, não seria de esperar que Saramago se pudesse virar para o público mais jovem. No entanto, com O Conto da Ilha Desconhecida, é exatamente isso que o autor faz.

Em poucas páginas, o escritor descreve o mundo de forma metafórica aos pequenos leitores. Apresenta aspectos do ser humano, as suas ambições e as suas frustrações e, mesmo a escrever para crianças, o autor não abandona a crítica social, refletindo sobre as burocracias. A narrativa foca-se num homem que pede a um rei um barco. No entanto, apenas depois de petições ignoradas e muita insistência é que o protagonista consegue resposta positiva do rei.

Apesar de curta, O Conto da Ilha Desconhecida foi também publicado noutros países, com um total de 29 traduções. Destacam-se a Alemanha, a Sérvia, o Japão, a Grécia, a Turquia, a Tailândia, o Irão, o Bangladesh, a Índia e Israel.

Diários

Cadernos de Lanzarote (1994-2018)

Isolado na ilha de Lanzarote, em Espanha, após deixar Portugal devido à polémica causada pela publicação da obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago dedicou-se a descrever episódios do seu dia-a-dia doméstico, acompanhados de críticas literárias e reflexões filosóficas. Esses escritos estão reunidos em seis volumes, publicados entre 1994 e 2018, e intitulados de Cadernos de Lanzarote.

Estas publicações estão recheadas de críticas, com destaque na polémica da sua obra e do Prémio Europeu da Literatura (I); a literatura e a política (II); os bastidores dos prémios literários internacionais e o obscurantismo político e religioso que condena as suas obras (III); e os eventos, as paisagens, as pessoas e as políticas (IV).

No Último Caderno de Lanzarote, publicado já postumamente em 2018, o autor revelou a razão porque escreveu estes diários cheios de críticas:

Duas razões me levaram, mais ou menos conscientemente, a escrever um diário: em primeiro lugar, a circunstância de ter saído do meu país para viver nesta ilha distante; em segundo lugar, a necessidade, que nunca experimentara antes, de “reter” o tempo, de o obrigar, por assim dizer, a deixar o maior número possível de sinais da sua passagem.”

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