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Análise. Relatório da Reuters mostra jornalismo numa encruzilhada perante o futuro

Foram divulgados esta semana os resultados do Reuters Digital News Report 2020 em Portugal, um país em que sete em cada 10 pessoas consideram o jornalismo como tendo um papel importante no bom funcionamento das estruturas sociais contemporâneas. Os dados são essenciais para compreender como está o mercado de consumo informativo atualmente e principalmente para analisar os desafios futuros ao jornalismo.

Este inquérito é o sexto realizado em Portugal e nesta edição conta com duas novidades, especialmente atenta à situação sem precedentes vivida no mundo. A primeira delas é um capítulo especial sobre a pandemia de Covid-19. A outra é uma atenção maior ao jornalismo de proximidade.

Jornalismo local mantém relevância

Os assuntos não deixam de estar relacionados, uma vez que ao mesmo tempo em que aumentou o consumo de notícias de proximidade, os media responsáveis por tais publicações estão “sob forte ameaça” financeira, conforme sublinha o relatório. Quase metade dos portugueses (47,9%) são interessados em notícias de proximidade, avança a publicação. O jornal local, impresso ou online, é o mais utilizado para saber dos factos locais, com 43,3% de preferência do público.

Podemos pensar, por exemplo, no interesse em saber como está a situação de casos da doença em várias localidades espalhadas pelo país, onde residem familiares e amigos – uma vez que as viagens estavam desaconselhadas. Por mais que a imprensa se esforce para fazer uma cobertura noticiosa ampla pelo país, é natural que as informações sejam concentradas nas principais cidades. Para saber com mais profundidade, recorre-se ao jornalismo local, que tem a possibilidade explorar a fundo os contextos e informações, algo que as redes nacionais não conseguem fazer – e tendem a fazer cada vez menos, por questões financeiras.

Os dados do relatório reforçam a importância deste jornalismo. “Não só a sociabilidade física e digital é relevante, como os inquiridos valorizam os órgãos de comunicação locais, dizendo que sentiriam muito a sua falta, caso deixassem de operar”, destaca a pesquisa. São várias as razões para o encontro de mecanismos que viabilizem os media locais e regionais e tornem um modelo de negócio que consiga sobreviver, algo que ainda não ocorreu nem mesmo com a grande imprensa.

O documento avança que Portugal ainda é um país que está entre aqueles em que as pessoas estão menos disponíveis para pagar notícias online, apenas 10,1% da população. Se para as marcas já conhecidas e de grande alcance é difícil, o cenário é ainda pior para os sites que se dedicam à informação local.

Papel dos media no combate à desinformação

É um facto que o setor da comunicação, como um todo, sofre consequências deste novo contexto económico trazido pela pandemia. Isso significa que o jornalismo, enquanto serviço essencial à população, é seriamente prejudicado.

Em um contexto em que nunca foi tão importante estar bem informado e em que há imensa disseminação de conteúdo desinformativo e de fácil acesso ao público, é um desafio manter a qualidade do trabalho prestado à sociedade. “As situações de precariedade no jornalismo tenderão a agudizar-se, comprometendo a subsistência da informação de qualidade, sendo de salientar o forte impacto que a crise pandémica está a ter ao nível dos novos projetos informativos, muitos ainda a tentar atingir uma situação de breakeven”, destaca o texto.

Os cortes de profissionais nas redações para diminuir custo financeiro podem ter outro custo, que é mais alto ao público. Com menos jornalistas a trabalhar, menor é a produção de conteúdo de qualidade e confiável. “A perda de bons profissionais, por outro lado, torna-se particularmente aguda num contexto em que a desinformação é de mais fácil (e barata)”, destacam.

Uma secção do relatório chamada “Jornalismo e plataformas, Poder e Sociedade”, avalia o papel do jornalismo no funcionamento da sociedade. “A ascensão dos novos populismos iniciada em anos recentes, nos Estados Unidos, Brasil e Itália, colocou em causa não só as estruturas formais de organização política e social como, também a esfera do jornalismo quanto ao que deve ser o seu papel na sociedade”, explica.

A maioria dos portugueses atribui ao jornalista a responsabilidade de filtrar os factos e sua veracidade. Já os portugueses que se consideram de direita e que responderam a este inquérito entendem que não são os media os responsáveis por este trabalho. Se não forem os jornalistas, quem poderá ser? O primeiro artigo do Código Deontológico dos Jornalistas é claro. “1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade”.

O relatório apresenta ainda dados que vêm ao encontro de uma discussão contemporânea do jornalismo e nas redes sociais, especialmente no contexto de avanço de partidos e governos populistas em todo o mundo e que utilizam as redes sociais como o Twitter. O jornalismo deve ou não dar espaço a declarações de políticos potencialmente falsas? 44,3 % da população portuguesa entende que publicar a declaração é importante que o público saiba o que o político disse. Outros 43,3% entendem que a informação deve ser ignorada, porque a mediatização da declaração daria ao político mais atenção.

Se o dado foi analisado por espectro político, há diferenças. Dos que acreditam ser importante a divulgação, mesmo que potencialmente falsa, 51,5% são de direita, enquanto 44,3% são do centro e logo atrás, 43,3% dos que se consideram de esquerda. Já os que defendem ignorar as informações potencialmente falsas, 48,9% são de esquerda, 45,4% do centro e uma percentagem menor, 39,8%, são de direita. Os que não sabem responder à questão são 10,3% do centro, 8,7% de direita e 7,8% de esquerda.

Para pensar apenas no contexto dos assuntos discutidos durante o estado de emergência, podemos citar o caso do perdão parcial de penas a presos que não cometeram crimes graves. O assunto foi cercado de polémicas e inverdades, como, por exemplo, que homicidas e violadores seriam colocados nas ruas novamente e outras insinuações do género. A desinformação levou o presidente Marcelo Rebelo de Sousa fazer uma declaração oficial para desmentir o que estava a ser divulgado por parte da imprensa e nas redes sociais.

Uma das inverdades foi publicada pelo deputado André Ventura, do partido de extrema direita Chega e único a votar contra o perdão de penas na Assembleia da República. Foram seis tweets sobre o tema – um prato cheio ao populismo – no período de 30 de março a 22 de abril. Em um deles, escreveu uma informação falsa, de que Armando Vara – o antigo governante socialista preso seria libertado.

O projeto de factchecking Polígrafo, emitido pela SIC, confirmou de que o deputado estava a mentir no Twitter. O programa agiu corretamente em contextualizar a informação e provar que era falsa, mas quando o jornalismo apenas divulga a publicação polémica, sem fazer uma contextualização, corre-se o risco de tratar de temas complexos de maneira simplista e errónea.

A poucos meses de novas eleições no país e ainda sob uma pandemia, um jornalismo fortalecido e atento à possível desinformação que pode circular é essencial à democracia. Não há outra maneira de combater as mentiras, a não ser com o jornalismo sério e de qualidade – e que não é aquele que agrada um a outro espectro políticos, mas sim, aquele em que há verdade e contextualização acessível ao público.

Afinal, se existe uma lição a ser tirada da batalha contra as notícias falsas, é a maneira como conseguem chegar tão facilmente às pessoas. A investigação aponta que hoje o WhatsApp é o principal meio de desinformação. “Uma investigação desenvolvida pelo MediaLab do ISCTE-IUL indica que a desinformação se tem propagado para o universo das redes de mensagens privadas, nomeadamente através da rede WhatsApp, depois de numa primeira fase ter encontrado na rede nuclear Facebook uma plataforma de distribuição e disseminação muito bem estabelecida”.

Portanto, a análise do relatório da Reuters é importante para decidir quais rumos, mas principalmente como será o futuro do jornalismo em Portugal.

** O Reuters Digital News Report 2020 (ReutersDNR 2020) é o nono relatório anual do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ). Em Portugal a parceria é com o OberCom – Observatório da Comunicação e o ISCTE-IUL Media Lab. A coordenação e autoria é de Gustavo Cardoso, Miguel Paisana e Ana Pinto-Martinho. A coordenação científica é realizada pela Reuters Institute for the Study of Journalism.

 

 

 

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