13 Reasons Why

13 Reasons Why: Começou na infâmia e acabou no esquecimento

“No entanto, mesmo com pontos positivos, é nítido que a série [ 13 Reasons Why ] está a dar as últimas, pois restam poucas coisas para explorar. Quase todas as personagens chegaram a uma conclusão e a quarta temporada que ainda está por vir é desnecessária. Além disso, a importância inicial da história de Hannah Baker está quase esquecida.”

Este parágrafo faz parte da crítica do Espalha-Factos à terceira temporada de 13 Reasons Why. Um ano depois, ninguém esperava a terrível capacidade dos escritores da série de não só confirmarem a citação de cima, mas também conseguirem piorar todos os pontos.

A quarta temporada é a despedida oficial de Clay Jensen (Dylan Minnette) e companhia. Para muitos, uma despedida que peca por tardia e a verdade é que os últimos dez episódios confirmam essa ideia. Apesar de tentar inovar na fórmula da série, a saída do lugar de conforto dos criadores só realçou a mediocridade da narrativa.

13 Reasons Why termina sem deixar muitas saudades e com um final que não faz Justiça às melhores personagens da série.

AVISO: O texto que se segue contém spoilers da quarta temporada de 13 Reasons Why

Instabilidade

A narrativa da quarta temporada estabelece a instabilidade mental de Clay Jensen como o seu grande dilema. Clay alucina com Bryce Walker (Justin Prentice) e Monty (Timothy Granaderos), ambos mortos na temporada anterior. Winston (Deaken Bluman) sabe que Bryce não foi assassinado por Monty e que este morreu em vão. O adolescente entra em Liberty High para atormentar Clay e chegar à verdade.

A premissa desta temporada erra logo na sua génese. Apesar de ser compreensivo que alguém que guarde muitos segredos possa começar a ficar mentalmente instável, nada disso era indicado no final da temporada anterior. 13 Reasons Why inventa um problema mental a uma das personagens que menos envolvimento teve nos crimes que a atormentam.

As outras personagens são igualmente mal-tratadas pela escrita da série. Justin Foley (Brandon Flynn) atravessou um dos melhores desenvolvimentos de personagem e todos são rude para ele, em particular Jessica Davis (Alisha Boe). O resto do elenco limita-se a existir sem grande evolução ou efeito na narrativa. A única exceção é Tony (Christian Navarro), pois o seu percurso progride face a temporadas anteriores e tem uma conclusão satisfatória.

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A verdadeira instabilidade de 13 Reasons Why é a sua escrita. Winston tem o segredo que pode condenar todas as personagens, mas a sua presença nunca é muito importante. Não há nenhuma intriga, nenhuma sensação de perigo. Personagens desaparecem durante episódios seguidos, momentos como personagens a despenharem-se de carro de uma falésia não têm qualquer tipo de impacto a longo prazo – de recordar que na primeira temporada uma personagem morreu de um acidente de carro muito menos violento.

A fórmula de troca entre passado e presente é abandonada, na sua grande maioria, na quarta temporada. Uma mudança que por si é bem-vinda, porém só acaba por expor as fragilidades da escrita sem essa bengala. Episódios fora da caixa, como um campismo no bosque, acabam por depender em clichés e nunca refrescam a história estagnada.

Uma coisa que nunca faltou foram bons atores. O seu talento e as personagens que construíram mereciam muito mais do que esta quarta temporada. O elenco é o único aspeto que ainda torna a série tolerável, até ao ponto em que percebemos que são obrigados a atuar com uma escrita ingrata.

13 Reasons Why

Brincar com temas sérios

13 Reasons Why gerou polémica desde o início. Muitos argumentam com vários pontos válidos que a série glamoriza o suicídio e outros problemas sensíveis. Se na primeira temporada existe uma tentativa de passar uma boa mensagem e tentar ajudar de forma sincera quem lida com estes dramas, isso certamente já não se verifica nos últimos dez episódios.

Problemas mentais são distribuídos pelas personagens sem qualquer tipo de critério, o impacto da toxicodependência é quase irrelevante, as vítimas que recuperam de traumas são culpabilizadas e merecem a desconfiança dos seus amigos mais próximos. Uma personagem morre de uma Doença Sexualmente Transmissível que magicamente apareceu. A doença é usada como um Deus Ex Machina na narrativa. Surge do nada, baseado em algo que já aconteceu há duas temporadas. É uma forma tremendamente preguiçosa de matar uma personagem e é grave usar uma doença para esse efeito.

Há dois pontos que conseguem ser ainda piores. Primeiro, um episódio que começa com um aviso de violência retrata uma situação de tiroteio escolar. Só que, numa reviravolta altamente previsível, na verdade é apenas um exercício para testar os alunos. Adolescentes choram de medo e ligam para as suas famílias em desespero, de forma gratuita. Tanto dentro como fora da narrativa. É um massacre escolar sem o massacre, mas o aviso falso no início do episódio ainda nos tentou enganar, ao estilo de uma fake news maliciosa.

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Mais grave é a valorização dos criminosos em deterioramento das vítimas. Hannah Baker (Katherine Langford), que é o propósito de existência de 13 Reasons Why e de tudo o que sucedeu desde então, raramente é mencionada. O maior momento é no episódio final em que a série esforça-se para tentar criar um momento de finalidade. Fica uma sensação de vazio, pois a cena parece que foi colada por obrigação em vez do argumento trabalhar para merecer esse desfecho emocional.

Por oposição, Bryce Walker, violador em série e vilão que arruinou a vida de todos os protagonistas, é mencionado várias vezes de forma positiva. Num dos episódios finais, todos até concordam que ele merecia estar vivo e presente, sem sequer se lembrarem de Hannah Baker. Monty, que protagonizou o ato mais polémico de toda a série, tem direito a uma fantasia em que dança com o seu interesse romântico. Ignorando todas as questões morais deste tipo de escrita, é absolutamente irrealista que as personagens tenham uma memória seletiva favorável a que mais desprezam.

E vamos falar de questões morais. Sejamos claros: uma história ficcional não é obrigada a transmitir uma boa mensagem. A Arte está recheada de narrativas brutais que nem sempre nos fazem sentir bem. No entanto, 13 Reasons Why assume o papel de passar uma boa mensagem ao seu espetador, mas mentiu num aviso de sensibilidade. 13 Reasons Why assume que quer dar força às vítimas, mas os violadores mortos é que deixam saudades. 13 Reasons Why dá um final positivo ao elenco que acaba vivo, mas sem acontecer nenhum crescimento profundo, os escritores apenas decidiram desligar o sofrimento desnecessário. A primeira temporada de 13 Reasons Why no seu pior é romantização, a quarta temporada às vezes dá sensações de exploração.

13 Reasons Why

Um pedaço de História

13 Reasons Why marcou 2017. A forma como abordou certos temas com frontalidade impactou o grande público de diversas formas. Uns elogiaram a coragem da série, outros criticaram a abordagem romântica. Uma parte considerável do elenco conseguiu usar a série como plataforma para patamares mais elevados na carreira.

Para melhor e para pior, a primeira temporada faz parte da História da Netflix. A plataforma de streaming estava em fase de ascensão e, apesar de não ter sido bem recebida pela crítica, 13 Reasons Why foi mais um exemplo de como tudo o que a Netflix produzia tornava-se tópico global.

A segunda temporada gerou imediatamente discussão sobre a sua necessidade. Logo aí, a série perdeu a audiência mais crítica. Mesmo assim, marcou o diálogo na altura em que foi lançada e a cena de sodomização criou mais uma polémica. A queda de qualidade levou a que para muitos esta fosse a última temporada.

A terceira dose de episódios foi recebida com muito menos euforia e nem o homicídio do vilão principal conseguiu gerar sequer metade do interesse das temporadas anteriores. Apesar de ser razoável, neste momento já se pedia à Netflix para encerrar a narrativa.

Esta quarta temporada conseguiu colocar uma personagem nas trends do Twitter, mas não durou muito mais do que um dia. Parece que houve mais pessoas a perguntar se a série continuava do que, de facto, a ver os episódios. Se calhar, é para melhor, tendo em conta a qualidade da temporada final.

13 Reasons Why

13 Reasons Why começou na infâmia e acabou no esquecimento. A grande maioria vai recordar-se da primeira temporada e de Hannah Baker (ironicamente, aquilo que a quarta temporada menos se lembra). É um pedaço de História da Netflix que deixou a sua marca num momento específico. Depois tentaram espremer a série até ao limite e só magoaram o seu legado a cada novo episódio. Uma lição que a empresa de streaming ainda não aprendeu.

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13 Reasons Why: Temporada Quatro
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