Da 5 Bloods é o novo épico de Spike Lee e é o filme mais relevante dos dias de hoje.
Fotografia: David Lee/Netflix

‘Da 5 Bloods’: O triunfo de Spike Lee é o filme mais urgente da atualidade

“Somos irmãos, temos uma ligação. Lutámos numa guerra imoral, que não era nossa, por direitos… Por direitos que não tivemos.”, diz Paul, a personagem mais central de Da 5 Bloods: Irmãos de Armas, o novo filme de Spike Lee, a certa altura da história. É uma frase marcante, dita pelo veterano negro, referindo-se tanto à Guerra do Vietname como à marginalização da comunidade negra, e encapsula de forma poderosa a história do filme e o que este pretende transmitir ao espectador.

Da 5 Bloods é demasiado relevante para o momento atual que estamos a viver. E digo isto porque Lee começa o filme com uma série de antigas noticias e depoimentos de arquivo, dos anos 60 e 70, que podiam abrir os telejornais de hoje, e ninguém iria, infelizmente, estranhar: podemos ver Muhammad Ali, em 1978, a recusar ordens para matar vietnamitas na Guerra do Vietname (“Eles nunca me chamaram negro. Eles nunca me humilharam. Eles nunca meteram cães atrás de mim.”); arrepiamos-nos a ouvir as palavras de Malcolm X, que expressam o que acontece quando “pegas em 20 milhões de negros e fazes com que lutem as tuas guerras, colham todo o teu algodão e nunca lhes dás nenhum tipo de recompensa.”; e as palavras de Kwame Toure, tristemente intemporais e que abrem ainda mais a ferida: “A América declarou guerra às pessoas negras.

É uma guerra que tem durado séculos, motivada pelo racismo e imperialismo, trazendo pobreza a toda a comunidade negra. Lee nem precisou sequer de ter conhecimento da morte de George Floyd antes de ter iniciado as gravações do filme para ter escolhido um conjunto de imagens marcantes que retratam, ainda hoje, tão bem a nossa realidade.

Da 5 Bloods narra a história de quatro veteranos afro-americanos do Vietname, que retornam a este país que os juntou até ao fim das suas vidas, para reclamarem um tesouro que enterraram décadas atrás, e para resgatarem os restos mortais do corpo do líder do seu esquadrão, Norman (Chadwick Boseman), que morreu durante a guerra. O grupo é constituído por Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock, Jr.), ao qual se junta o filho de Paul, David (Jonathan Majors), e embarcam todos juntos em viagem para o Vietname, um local que carrega ainda as marcas de uma guerra sangrenta e bastante mortal.

Depois de sermos introduzidos aos protagonistas da história no tempo atual, o filme volta atrás várias vezes no tempo, para mostrar os seus dias de combate no Vietname, e Spike faz aqui uma escolha curiosa na forma como conduz este processo. Se no tempo presente as cenas são-nos demonstradas num tamanho de 2:40, enchendo quase todo o ecrã, as cenas da guerra, no passado, foram filmadas em 16mm e aparecem-nos enquadradas numa tela mais estreita, assumindo quase um tom de documentário. Mas o mais relevante aqui é o facto de Lee ter escolhido manter os atores do presente, sem recurso a qualquer tecnologia que os torne mais novos de aparência, para protagonizarem as cenas do Vietname passadas há quase 50 anos atrás; nem utilizou a técnica clássica de recrutar atores mais novos.

É uma técnica que pode parecer estranha ao início, mas torna-se, ao longo do tempo, bastante efetiva. Ao vermos os atores com a mesma idade de agora, no Vietname, de armas na mão, podemos ver que, afinal, o fantasma da guerra não os largou durante toda a sua vida. Os homens de hoje, são os mesmos que estavam ali a lutar, naquele mesmo local, há cinquenta anos atrás. De facto, o quarteto nunca chegou a sair do Vietname, fazendo com que a opção narrativa de Lee para Da 5 Bloods faça todo o sentido. Esta técnica contrasta, por exemplo, com a que Martin Scorsese utilizou em O Irlandês, onde o realizador gastou uma quantia considerável de dinheiro numa tecnologia inovadora para rejuvenescer o elenco do filme para as cenas ambientadas no passado.

Em relação aos protagonistas que carregam o filme às costas, apesar de todos estarem bem desenvolvidos, uns mais que outros, podemos facilmente perceber que Paul é o ponto central da história. Lee não tem medo de tornar a personagem principal do seu filme cinzenta do ponto de vista moral e dramático. Os traumas provocados pela guerra do Vietname tornaram Paul numa pessoa paranóica, ressentida e, num detalhe curioso, apoiante de Donald Trump. Parece estranho que um negro, depois de se vergar durante uma vida inteira à supremacia branca, e sem qualquer tipo de reconhecimento, vote em Trump, que basicamente declarou guerra aos negros e a outras minorias.

Mas é aí que reside a mestria crítica e narrativa de Spike Lee. Ao colocar Paul a usar um chapéu MAGA (Make América Great Again), o slogan da campanha de Trump, e ao torná-lo anti-imigrante, está a demonstrar os efeitos que esta guerra teve nos negros. Numa mistura de raiva e mágoa que carrega na alma devido à opressão branca de que é alvo na América, e exacerbada por uma guerrilha no Vietname que não lhe pertence, Paul não sabe para onde concentrar a sua fúria, e arranjou em Trump um escape.

É um homem à deriva depois de ter voltado da guerra, sentindo-se insultado e esquecido pelo seu país, para além de ter sofrido uma trágica perda pessoal, que só o tornou numa pessoa ainda mais fechada do que já era, quase desfigurado. À noite é assombrado nos sonhos pelo fantasma de Norman, que o visita e não o faz esquecer o passado. Esta é a personagem mais complexa de Da 5 Bloods, e é encarnada de uma forma superior por Delroy Lindo, numa das melhores interpretações de sempre alguma vez vista num filme de Spike Lee. Quando a pandemia acalmar, Lindo é merecedor de receber toda a atenção por parte da Academia dos Óscares para uma nomeação.

Paul, Otis, Eddie, Melvin e David constroem uma química fácil e confortável desde o início do filme, sendo que as performances de todo o elenco nos faz acreditar de que este grupo tem uma ligação de uma vida inteira, mesmo que hoje em dia se vejam raramente. Há um espírito de aventura e companheirismo no ar e até com toques de humor, não fosse este um filme de Spike Lee. O filme é um épico, misturando uma série de géneros de forma fluída e harmoniosa.

As personagens de Paul e Otis entram várias vezes em confronto em Da 5 Bloods.
Fotografia: David Lee/Netflix

No prólogo somos atirados para uma crítica social devastadora, com imagens de tempos antigos que são o espelho dos nossos tempos. Há comédia inserida na viagem que o grupo de veteranos faz, quase toda produto das suas interações, e existem também muitas cenas de ação, tanto no passado, como no presente, a fazer lembrar o sangue derramado nos filmes de Quentin Tarantino. Aliás, as cenas do Vietname são bastante sangrentas e superiormente filmadas, mas, em termos de violência, as cenas do tempo atual não ficam nada atrás, quando um grupo de vietnamitas prepara uma emboscada ao grupo de veteranos. É um sinal de que talvez as coisas não tenham mudado assim tanto.

O tesouro misterioso que o grupo tinha enterrado durante a guerra revela-se ser um conjunto de barras de ouro, que eram para ser resgatadas pelas tropas americanas, mas que Norman decide esconder, em conjunto com os restantes veteranos, para depois as poder trazer de volta à América. Este ponto da narrativa envolve a ideia de reparação histórica, que está muito presente no movimento atual Black Lives Matter. Norman diz ao grupo que as barras de ouro serão entregues a toda a comunidade negra que vive nos Estados Unidos, como uma forma de reparação de todos os estragos sociais e culturais que a escravatura levada a cabo pelos brancos causou aos afro-americanos. “Os EUA devem-nos isto”, sintetiza Norman, num flashback, de forma poderosa. É uma frase que ecoa nas convulsões sociais e políticas das últimas semanas e é de facto arrepiante.

Esta é também a génese da luta diária que temos visto espelhada nos órgãos de comunicação social, nas capas dos jornais e pelos relatos que têm surgido pelas vozes de minorias, que antes estavam na periferia da história moderna. A necessidade de reparar tudo aquilo que foi feito, desde a violência policial que acabou, por exemplo, no assassinato recente de George Floyd, até à escravidão moderna que tem perseguido a comunidade negra até aos dias de hoje, tem incentivado a que os negros façam a sua voz ser, finalmente, ouvida. E o mundo precisa disto, para aprender com os erros que cometeu.

A história não nos larga, é uma ferida aberta que continua a derramar sangue até aos nossos dias, e Lee deixa isso bem vincado em Da 5 Bloods, que merecia um grande ecrã para a sua mensagem ecoar ainda mais alto. O Vietname ainda é uma memória viva, que ainda assombra a comunidade afro-americana.

Todo o filme é revestido de constantes comentários sociais e políticos subtis e outros não tão subtis, como a cena em que Lee corta para imagens de Trump num comício, em que é identificado por Spike como o “Presidente de Ossos e Dentes falsos”. Mas, no fim, é mais uma lição de história poderosa de Spike Lee. O realizador tem, ao longo da carreira, desmistificado vários mitos, confrontado a sociedade americana com o seu racismo estrutural, desde as cenas da brutalidade policial em Do The Right Thing, no longínquo ano de 1989 (onde não existiam ainda o tipo de imagens amadoras que comprovassem este fenómeno que assola agora a América e o mundo), até às imagens das manifestações de neo-nazis e supremacistas brancos, em Charlottesville, colocadas no final de BlacKkKlansman (um dos melhores do ano), o último filme lançado por Lee, em 2018.

Jonathan Majors (à esquerda), Isiah Whitlock Jr., Norm Lewis, Clarke Peters e Delroy Lindo interpretam o grupo que se aventura no Vietname em “Da 5 Bloods”.
Fotografia: David Lee/Netflix

O ponto mais fraco do filme talvez seja a previsibilidade que envolve o mistério em torno da morte de Norman, dado que Paul é a personagem que tinha maior afinidade com este. Podemos perceber que Paul é ainda um homem bastante amargurado com este evento, o que deixa espaço quase imediato para compreendermos mais ou menos o que se passou, fazendo com que a revelação, que surge quase no fim do filme, não surta um grande impacto no espectador. Mas leva-nos a questionar: porque é que a comunidade negra se envolveu neste banho de sangue, que lhe causou tanto sofrimento e dano psicológico de uma vida inteira, para depois não ter qualquer tipo de recompensa na hora de voltar a um país onde vêm os seus direitos mais básicos serem-lhes negados?

Com Da 5 Bloods, Lee vem novamente focar os olhares da América para as injustiças, que durante anos até aos dias de hoje são perpetuadas contra os afro-americanos, mantendo a sua tradição virada para uma acutilante correção histórica. Desta vez, traz um olhar inédito e profundo sobre a experiência de veteranos negros do Vietname, que deram o seu sangue, suor e lágrimas pelos brancos, sabendo que os seus irmãos e irmãs de cor estavam a combater outra guerra na América.

É este comentário sócio-político que Lee insere tão bem na mensagem do filme: mesmo servindo de carrasco numa guerra sem sentido ideológico, nada de fundamental mudou na vida destas pessoas negras depois de terem servido na Guerra do Vietname. Algo que é bastante sintomático de todo o racismo que ainda está intrínseco na sociedade americana, tanto a nível social, económico, mas também no mundo das artes. Só para situar, mais de 40 anos depois das tropas americanas terem saído do Vietname, Spike Lee pode orgulhar-se de ter feito o primeiro filme que retrata a experiência dos soldados afro-americanos na guerra.

No entanto, porquê só agora, quando em 1967, os soldados negros representavam 23% das forças combatentes no terreno? Mais uma vez Lee crítica directamente estes factos, ao colocar uma personagem do filme a dizer que odeia filmes como o Rambo, este com Sylvester Stallone, porque tentam passar a mensagem, coberta de fantasia, de que os brancos ganharam a guerra no grande ecrã, e mais importante que isso, apagam a existência dos negros do evento.

Em termos técnicos, a trilha sonora de Da 5 Bloods é bombástica e aterrorizante nuns momentos, e bonita de forma arrepiante noutros, sendo que Terence Blanchard faz um trabalho soberbo. Mas o que brilha mais é o uso que Lee dá às músicas de Marvin Gaye, maioritariamente retiradas do álbum What’s Going On, e há um momento específico que ficou comigo muito depois do filme terminar: quando De Lindo interpretou o tema God is Love. Um momento digno de nota. 

O novo épico de Spike Lee é um marco cultural importante. Leva-nos a questionar como é que poderá ser o racismo combatido, se os americanos celebram a vitória alcançada na segunda guerra mundial, esquecendo-se de que a América estava segregada, ou de que muitos dos veteranos negros, quando voltaram ao seu país, viu-se-lhes ser negado o direito a uma habitação, ou ao trabalho.

Faz-se um paralelo fantástico do tumulto social que se vivia nos anos 60 e aquele que estamos a experienciar nos dias de hoje, levando-nos a refletir durante muito tempo, após ver o filme, se o mundo está a ir pelo caminho certo. Portugal também pode retirar lições disto, pois Lee prova que os tempos de escravatura possuem uma influência direta na forma como, tristemente, tratamos atualmente a comunidade negra. O racismo sistémico existe mesmo. E Da 5 Bloods é um dos melhores filmes do ano. 

O filme, disponível na plataforma de streaming Netflix, estreou esta sexta-feira (12).

Da 5 Bloods é o novo épico de Spike Lee e é o filme mais relevante dos dias de hoje.
8.5
  1. Diego, gostei muito da crítica. Gostei muito do filme.
    A ideia de voltar ao passado sem se preocupar em mudar os atores é muito legal. Mas acho incrível algo que o roteiro insinua o tempo todo: existe um grande equívoco nos personagens. Do heroísmo, da riqueza, do amor, da paternidade, da masculinidade e até da irmandade, que é vilipendiada volta e meia…

    Adorei a cena que o pelotão está caminhando na selva e ouvimos a chegada dos vietconges conversando algo prosaico e poético e depois são alvejados… Como se Spike Lee perguntasse: Que guerra é essa, de que lado você estar, cara!?

    Muito bom o Delroy Lindo compor um personagem que é a própria incoerência do negro nos EUA, votou no Trump, é egoísta, paranóico, é manipulado pelo sistema e no final é também um grande ponto de resistência e auto descoberta. Quer vencer de alguma forma ou, ao menos, escolher como e quando vai morrer.

    Confesso que achei estranho o roteiro, a princípio, me pareceram meio preguiçosas as soluções: como encontraram o ouro, dos caras que procuram minas, dos bandidos, deles irem buscar um amigo e deixarem outro. Mas entendo que tudo é mesmo um pretexto para falar da ilusão e da incongruência, é como se Spike Lee dissesse isso. E no final das contas, não é só a ilusão criada pelo sistema, é um equívoco. Acho um dos melhores filmes de Lee e vai na vibe de fazer algo diferente, algo que ele fez em Faça a Coisa Certa.

    E é uma declaração de amor a causa, mas vai além disso, fala da vida e revela o lugar do explorado, que não é só o negro. Bonito significar o que vem a ser negro… Também vi uma reflexão sobre chegar a uma certa idade olhando para um mundo que mudou pouco… E as inserções religiosas são outro capítulo. O filme vale um discursão mais aprofundada. Abraços…

    1. Pedro, agradeço as palavras! Realmente, o novo filme do Spike levanta mesmo inúmeras questões, que merecem ser profundamente analisadas. Este é mesmo o padrão dos seus anteriores filmes, é sempre assim! A decisão em utilizar os mesmos atores para as cenas de guerra, para além de ter resultado na perfeição, também se deveu a motivos económicos, saiu mais barato, é um detalhe interessante.

      A critica vai pecar sempre por simples comparada à complexidade do argumento de Da 5 Bloods, pois este vale mesmo uma vasta discussão. Mas fico contente por teres gostado, e que te tenha motivado a expressar a tua opinião de forma tão aberta. Abraço e bons filmes!

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