Teleponto podcast
Fotografia: Divulgação

Teleponto. Um podcast de ‘millenials’ a discutir a televisão gerida por ‘boomers’

Abdicam da imagem, ficam só com o som, mas neste podcast a televisão está em primeiro lugar. Mário Almeida e Cristiana Guerra são licenciados em Comunicação Social e juntaram-se para fazer o Teleponto, o único podcast dedicado em exclusivo à televisão portuguesa.

A dupla, que partilha casa, juntou-se para este projeto durante o verão de 2019. Admitem que são entusiastas da televisão, embora tenham experiências em vários ramos dos media. Ambos sentiram, nessas experiências, que há “uma resistência no meio audiovisual em absorver jovem talento e mais importante que isso, absorver jovem talento e evoluir com ele”. Por isso,o Teleponto nasceu desta ideia de partilharmos a nossa opinião enquanto espectadores, jovens e millenials, de uma televisão maioritariamente gerida por boomers, e que muitas vezes é entendida como uma audiência que não consome TV generalista e que portanto, não tem uma opinião crítica sobre o meio“.

De manhã começa… o Teleponto

Lançaram o primeiro episódio a 21 de novembro, no Dia Mundial da Televisão, e foi dedicado ao Daytime, mais especificamente aos Programas da Manhã. Uma escolha que certamente não terá sido alheia às marcas deixadas, também nesse ano, pela chegada do Furacão Cristina ao horário matinal da SIC.

De lá para cá já falaram de reality-shows, telenovelas, serviço público, das famosas linhas 760, da programação infantil, dos noticiários ou mesmo dos figurantes na televisão. Em vários episódios com convidados e sempre, também, com a opinião do público e o bom humor dos anfitriões, que não resistem a juntar muita da sua personalidade àquela que consideram ser também a personalidade do podcast.

Estão 26 episódios online, mas o Teleponto vive também nas redes sociais. “Apesar de não sabermos qual a fórmula de sucesso para um podcast, acreditamos que as redes sociais são talvez o único meio que nos permite ter uma interação direta com os ouvintes e dessa forma, balizarmos a os níveis de satisfação de quem nos ouve“, considera Mário Almeida, em declarações ao Espalha-Factos.

Da mesma forma que as televisões só fazem sentido se existir uma audiência que as consuma, os podcasts assentam também nessa premissa e seis meses depois acreditamos que tem sido uma boa estratégia, uma vez que grande parte dos nossos ouvintes nos tem encontrado através do FacebookYoutube e Instagram“, considera o host. O grafismo, leve e colorido, criado pelo designer Carlos Ferreira, é visto também como um reflexo da “leveza e boa disposição” inerente ao formato.

“Não nos podemos envolver em programas que não são feitos para nos envolver”

O olhar de millenial está sempre presente na conversa com Mário, que é crítico do atual percurso das televisões portuguesas e regista apenas uma exceção positiva nesse contexto, a RTP.

Acredito que esta ligação direta entre receita publicitária e grandes audiências está a diminuir a diversidade de programas que nos oferecem e que de certa forma pode também ser uma das razões que está a afastar as gerações mais novas das televisões. Não nos podemos envolver em programas que não são feitos para nos envolver. É como se as televisões privadas estivessem, apenas e só, focadas em agradar à maior fatia de espectadores e não tanto em captar aqueles que não a veem ou que a veem apesar de não se sentirem identificados com ela, algo que a RTP enquanto estação de serviço público tão bem executa“, considera, relembrando que fala desta forma também por se ver como um criador de conteúdo.

E contrapõe o mau exemplo dos privados com aquela que considera ser uma boa prática do operador estatal  “É verdade que a RTP não é líder de audiências e que não se guia por objetivos comerciais, mas também é verdade que muitos conteúdos da estação pública estão a trazer cada vez mais notoriedade à Rádio e Televisão de Portugal entre as camadas mais jovens, sendo o melhor exemplo a plataforma RTP Play“.

Uma realidade que, acredita, é muito portuguesa. “Lá fora, existe um saudável envolvimento de jovens criativos na formatação de programas e no desenvolvimento dos canais de televisão, algo que o mercado português há muito que resiste em deixar entrar. O meio não é só pequeno. Uma Televisão que embora pequena, não inclua as gerações mais novas no seu processo criativo é uma televisão que se esgota em si mesma“, aponta.

E essa diferença torna-se ainda mais visível quando Mário nos convida a olhar para um estudo recente do Observatório Europeu do Audiovisual, que dá conta que Portugal é o terceiro país da União Europeia que mais horas de ficção produziu, mas fica fora do top10 quando se fala de séries e filmes. Algo que se deve à monocultura da telenovela.

Apesar de este estudo nos colocar no pódio da Europa e de Portugal já contar com oito nomeações e três Emmys Internacionais de Melhor Telenovela, que comprovam que as novelas portuguesas são de facto as melhores da Europa, este estudo, é também um bom reflexo da programação que a televisão portuguesa tem oferecido aos espectadores“, conclui.

O autor do Teleponto afirma que existe uma “falta de diversidade de formatos de televisão em horário nobre, do qual a RTP1 e a RTP2 são a únicas excepções“, considerando que “devemos melhorar” e que o excesso de telenovelas “está a reduzir a nossa escolha“.

Algo que deve servir de alerta para quem programa. “Com exceção dos canais públicos, não existe, de segunda a sexta feira, entre as 21h e as 23h, outra opção que não seja uma telenovela, e acredito que seja também uma das razões por ter transformado muitos espectadores de televisão em subscritores de plataformas de streaming“, relembra.

O Teleponto vai continuar por aí, às vezes sem muito guião pré-definido, a discutir grelhas de programação, a convidar protagonistas da área e sem desistir de uma televisão que também é para jovens. Para ouvir nas várias plataformas online.

Espreita também: Fita Isoladora, o podcast do Espalha-Factos
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