Black Lives Matter racismo

Sobre as coisas que não existem

O meu nome é Shirley e este é um texto sobre as coisas que já não existem mas pesam. Que não existem, mas fazem sombra em todos os caminhos que traço e em tudo aquilo que sou – como se separa de nós a sombra daquilo que somos?

Escrevo não só porque os tempos assim me obrigam, mas porque existe uma urgência em dialogar comigo e com os ”comigo” que existem tanto em mim como para além de mim, talvez na esperança de resgatar um pouco de nós. Sou a intersecção de múltiplas pessoas negras e é para e por elas que hoje estou aqui.

Agora que já estão dispostos a ouvir, já não preciso que falem por mim. Na verdade, nunca precisei. Permitam-me antes que vos convide para um brinde: Brindemos aos dias em que fui desconforto e brindemos aos dias em que me encolhi para caber em sítios onde me fizeram acreditar que só assim lá encaixaria.

No fundo, brindemos aos dias em que me tornava mais quanto menos fosse eu para que estejam cientes de que, daqui para a frente, só brindaremos aos dias em que seremos todos a mudança.

Nasci negra, ao sê-lo não tardou até que surgissem alturas na minha vida em que, inúmeras vezes, me fundi com o preto, a cor, como se apresenta a sua definição no dicionário: Que recebe a luz e não a reflecte.

Assim, sem mais nem menos, foi-me logo ditado à nascença aquilo que para muitos é visto como uma sentença e que também eu demorei a ver como uma herança.

Aprendi cedo que não ver cor, na verdade, era não me ver a mim também. Era não me reconhecer enquanto mulher negra até que me visse forçada a tal: vi-me forçada a tal quando, em criança, me apontaram para a pele e estabeleceram logo a barreira que não me era permitida ultrapassar ao dizer ”desculpa, mas pessoas com este tom de pele não podem brincar connosco”. Vi-me obrigada a reconhecer-me enquanto negra quando, em visitas a casa de amigos brancos, um membro da família me questionou se eu era a ama do bebé ou, o meu preferido, quando num emprego em que tinha de fazer uma entrega à porta da pessoa, subi as escadas a correr e a chefe de equipa me diz: ”tendo em conta o teu tom de pele, não te aconselho a ires a correr” – mas, atenção, nada temam que Portugal não é um país racista.

Descansemos, por breves instantes, ao olhar para o nosso pequeno jardim plantado à beira-mar sabendo de antemão que isso só acontece lá nos Estados Unidos e Portugal não é os Estados Unidos, não é?

Em Portugal não tivemos um grupo de skinheads a espancar até à morte um homem negro, não temos forças policiais a abusar da autoridade que lhes foi confiada para maltratar pessoas negras enquanto proferem insultos racistas e muito menos se tem um deputado na Assembleia da República que defendeu o confinamento especifíco para a comunidade cigana ou sugeriu que uma deputada negra fosse ”devolvida” à sua terra.

Após o regresso à normalidade, não faltam exemplos dos fantasmas mal resolvidos do passado com o qual não fizemos as pazes enquanto sociedade, quer seja porque nos era confortável ou porque a sensação de impotência era avassaladora.

O assassinato de cidadãos negros pelas mãos de agentes policiais nos Estados Unidos da América não é uma novidade, os movimentos que se geraram em tom de solidariedade e revolta também não. Pasmem-se os desatentos que olham para os acontecimentos com surpresa: o que está a acontecer não é o resultado de um caso isolado, é o culminar de anos de opressão, é o limpar do pó que sempre se atirou para debaixo do tapete e agora que, finalmente, o decidimos levantar somos obrigados a lidar com a poeira e também nós não conseguimos respirar. Diz muito sobre a era conturbada em que vivemos, o facto de, surpresos, estranharmos toda a ação policial que não é violenta. Ao ponto de a aplaudir como se não fosse somente a sua função. Importa saber: afinal o que existe de normal no modo como o racismo se transformou em paisagem e se naturalizou nos discursos?

Pela primeira vez, as pessoas que não viam cor estão a sair da bolha de privilégio em que esse discurso se encontrava submerso e a observar o quanto vale um tom de pele na altura de salvar uma vida ou, por outro lado, de perdê-la.

Os acontecimentos recentes trouxeram à superfície a importância de ser a amiga preta. Este part-time que me foi designado, acarreta consigo muitas responsabilidades: se, por um lado, me sinto no dever de falar e de me posicionar para que fique claro de que também me dói a mim, por outro lado, é exaustivo estar aqui a lutar por direitos que tardam em chegar quando as palavras se vão esgotando em si. Veio relembrar de como é urgente falar e ocupar espaços sem abandonar a nossa negritude, junto dos nossos amigos, da nossa família, nas escolas, nas universidades, nos media e na política. Passámos de objeto de instrumentalização para sujeitos que finalmente se estão a fazer ouvir e, acima de tudo, estão a ser ouvidos.

O tempo pouco fez por nós e chegou a altura de fazermos nós algo com o tempo e assim será, criaremos outro: o tempo da rutura. Que se quebrem os velhos hábitos que em nada nos auxiliaram quando quisemos alcançar novos lugares.

Embora o assassinato de George Floyd possa ter chocado alguns, existe um conjunto de George Floyds que não foram esquecidos. Cada um desses nomes, desde o Eric Garner à Sandra Bland, são o veículo que conduz a força do movimento negro.

Se há quem se possa dar ao luxo de ficar perplexo com a prevalência de injustiças raciais na contemporaneidade, na outra face da moeda há quem tenha passado a vida toda a tê-la como companheira, a ser moldado por ela em todos os aspectos da sua formação enquanto pessoa. Para alguns de nós, toda a existência sempre foi não só política como um palco de resistência e o quotidiano apresenta-se como uma batalha diária.

Nestes últimos dias não sou mais que um coração apertado, embora falar sobre os últimos dias seja falar sobre a minha vida toda e sobre a de tantos outros. E já cansa suportar o peso do mundo aos ombros.

É relembrar as vezes em que fomos um estereótipo e pouco mais, as vezes em que fomos um fetiche, as vezes que não nos sentimos representados, as vezes em que nos tivemos de remeter ao silêncio e à invisibilidade para não causar constrangimentos mesmo que isso nos custasse a saúde mental. É o olhar solitário de quem sempre se viu como gente e se agarrou a essa convicção com garras e dentes para defender a sua existência, mesmo que com a voz a tremer e sujeito a ser abafado por um ”agora tudo é racismo” – quando o mal não é de agora, é de sempre.

Assume-se como imperativo que regressemos ao passado, não para lá permanecer, mas para apanhar os destroços por si deixados no presente com um olhar informado.

A palavra foi, finalmente, cedida a quem do silêncio foi feito refém: corpos a ocuparem, a relatarem, a definirem a sua própria narrativa, a serem os porta-vozes e não as marionetas da sua própria história.

Os escombros deixados pelo colonialismo, com os quais hoje ainda nos deparamos, inviabilizam a construção da casa que é – ou devia ser – a consciência coletiva negra. A luta anti-racista tem de começar em nós, passa pelo reconhecer de um passado incómodo até ao confronto e exposição do mesmo nos nossos círculos pessoais e atitudes do dia-a-dia. A nossa zona de conforto tem de ser passada para segundo plano. Não haverá nada de confortável em posicionarmo-nos contra injustiças, porém, nada de confortável existe em viver sendo vítima delas.

Ainda anseio pelo dia em que, tal como a Solange referia, nos seja reconhecido o nosso Seat At The Table. Contudo, tal como vos disse inicialmente, este é um texto sobre as coisas que não existem mas pesam e fazem sombra, vá-se lá saber como…

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