Capicua

Entrevista. Capicua: “Eu não sou escrava da inovação”

Capicua é um nome incontornável no panorama do hip hop nacional. Ao longo da última década, a artista tem conquistado um vasto público com a convicção inerente aos seus variados projetos, dentro e fora da música. Com uma marca bastante própria, a rapper afirma-se como uma voz sempre ativa nas várias causas sociais que defende.

Foi com a chegada do novo ano que Capicua entregou Madrepérola ao mundo. Com este novo álbum, surgem também novas intenções. Em conversa com o Espalha-Factos, a artista falou sobre as motivações por trás daquele que é “o mais festivo” dos seus trabalhos, refletindo sobre a maternidade e reforçando ainda o seu desejo em “consumar este disco no palco”.

Capicua
Imagem: Capicua / Instagram

Madrepérola é o teu mais recente álbum de estúdio. Como é que o descreverias?

Eu acho que é o meu disco mais solar e mais partilhado, porque tem muitos convidados. E mais aberto a outras músicas, no sentido em que tem muita mistura com outras linguagens, muito por causa destas participações. Mas é um disco muito aberto ao mundo, muito aberto às misturas, muito dançável e muito solar. Apesar de, ainda assim, ser muito autoral, ter a minha marca bastante vincada, de facto, é o mais festivo dos meus discos.

Neste novo trabalho, é possível denotar uma atmosfera mais serena e alegre. O que motivou esta mudança?

Primeiro, acho que é o retrato da época que eu estava a viver. Estar grávida, depois também com um bebé pequeno, foi um momento feliz da minha vida e acho que os discos são sempre um retrato da fase da vida em que são escritos. Mas foi sobretudo uma escolha consciente de explorar coisas que ainda não tinha explorado tanto nos discos anteriores. Senti que já tinha experimentado várias vezes abordagens mais político-sociais, temas mais sérios e, para mim, ainda era um bocadinho mais difícil explorar músicas mais dançáveis. Era um exercício que queria impor a mim própria no sentido de experimentar a minha escrita noutros ambientes, outras emoções, outras intenções. E então decidi que queria fazer um disco mais otimista, até muito influenciada pela música que tenho ouvido nos últimos anos, também pela parceria que tenho feito com músicos brasileiros, nomeadamente o Emicida e o Rael no projeto Língua Franca. Eu queria soltar as amarras e divertir-me mais, também inspirada pelo Brasil que existe na música que eu ouço e na própria colaboração com músicos brasileiros.

Como referiste, o álbum foi gravado enquanto estavas grávida. É correto afirmar que a maternidade impactou o processo de criação?

Completamente, claro. Nem que seja por razões logísticas, no sentido em que o álbum foi lançado um ano depois do que deveria ter sido porque nasceu um bebé no meio. Depois por uma questão quase fisiológica, no sentido em que eu gravei o disco muito grávida e a minha voz estava diferente. Ou até porque tinha as emoções mais à flor da pele e o disco foi escrito durante esse processo em que as hormonas também estavam ao comando. É um disco menos filtrado, mais in your face. Mas também porque, lá está, o disco é o retrato daquela fase da minha vida e, portanto, é um disco cheio de esperança, um disco com os olhos no futuro, um disco feliz.

No single que dá título ao disco, Madrepérola, existem referências a inúmeras figuras da História e da atualidade. Alguma delas, em específico, que tenha tido um impacto significativo em ti enquanto artista?

Sim, muitas delas. Eu destacaria três mulheres do hip hop que me inspiraram muito no início da minha ligação à cultura.  A Lady Pink, que é uma das primeiras [mulheres] do graffiti de Nova Iorque, e a minha primeira ligação ao hip hop foi a cultura do graffiti. A Lauryn Hill, como a minha rapper favorita e depois também como a referência de que uma mulher podia fazer rap com aquela atitude, e a Erykah Badu, pelas mesmas razões. Apesar de ela fazer mais soul, teve sempre uma atitude muito hip hop e é um espírito livre, uma mulher feminista e com uma personalidade muito forte. A Lady Pink, a Lauryn Hill e a Erykah Badu seriam as mais importantes, mas há muitas que me inspiram: A Amália, a Elis Regina, tantas pessoas que eu mencionei na letra e que são inspiradoras.

Em Gaudí, cantas sobre transformar coisas negativas em algo positivo. Para ti, faz sentido afirmar que a melhor forma de fazer arte é transformando a dor em algo belo?

Eu acho que sim, eu acho que esse é um dos propósitos mais importantes no trabalho artístico. Aliás, esse é o conceito deste disco. Ele chama-se Madrepérola por causa da ideia de que as ostras só fazem pérola quando têm um grão de areia a incomodar, vão cobrindo o grão de areia para deixar de ser tão incómodo e acabam por criar uma pérola. Eu acho que criar música ou outra forma de arte é um bocadinho isso, é fazermos da dor algo positivo, pegar naquilo que nos incomoda tentar fazer pérolas a partir daí ou colar novos caquinhos e fazer arte. Acho que essa ideia é muito forte, no sentido em que resume bem a minha forma de estar na música e também acho que tem muito a ver com maternidade, porque não é á toa que criação de filhos e criação artística partilham a mesma palavra: para a criação, é preciso a sublimação das dificuldades, é preciso superar alguns desconfortos e perseverar.

Agora, focando na tua carreira. A tua música oscila entre um som moderno e influências mais tradicionais. Como é que se atinge esse equilíbrio? 

Eu não sou escrava da inovação, nunca estive à procura de corresponder à moda do momento. Prefiro fazer música intemporal e a inovação não me diz tanto como a intemporalidade. Eu gosto do processo de criação típico do hip hop de pegar em beats, criar uma letra e depois juntar instrumentos mais orgânicos e procurar uma estrutura de canção. Estou confortável com esse formato, que eu diria que é bastante conservador dentro daquilo que é o processo de composição do hip hop, mas depois tento inovar de outras formas, no sentido em que tento superar permanentemente aquilo que são as minhas limitações enquanto artista, experimentar coisas diferentes e ser o mais versátil possível. E, nesse sentido, evoluir artisticamente sem virar escrava do que está a bater em 2020 ou sem tentar prever o que vai bater em 2021. E isso é o equilíbrio entre aquilo que é o meu estilo próprio e aquilo que eu exijo em mim própria em termos de evolução, para não estar sempre estagnada.

Capicua
Imagem: Capicua / Facebook

No teu trabalho, a escrita assume um papel tão importante quanto a sonoridade. O que surge primeiro, os versos ou a melodia que os acompanha?

Primeiro, vem a ideia do que quero fazer e depois vou procurar um instrumental, com os produtores com quem costumo trabalhar, que tenha um ambiente propício aquilo que eu quero explorar. Depois quando encontro o instrumental, escrevo a letra.

Como é que nasceu e foi desenvolvida a tua paixão por contar histórias?

Eu por acaso não tenho a certeza se sou uma boa contadora de histórias. Aquilo que eu tento fazer é passar emoções e imagens, por vezes muito gráficas e muito pictóricas, através das metáforas, através da minha escrita, que eu acho que é bastante poética. Então mais do que contadora de histórias, eu acho que sou mais poética do que narrativa. Agora, acho que mesmo quando não se contam histórias naquele formato “Era uma vez” com princípio, meio e fim, acabamos sempre por falar sobre a vida, a nossa e a dos que nos rodeiam, e de imprimir essas histórias coletivas naquilo que escrevo. E nesse sentido estou sempre a contar histórias.

Sentes que o teu forte engajamento político alguma vez foi prejudicial à tua carreira?

Acho que o facto de eu me situar na música alternativa e tantas vezes me comprometer, tomando uma posição, faz com que não ascenda a um estatuto mais mainstream, mas eu não tenho problema nenhum com isso porque é uma decisão consciente. Eu faço música para cumprir a minha visão. Para mim, é impossível fazer música sem liberdade e se eu estiver a pensar que não vou dizer isto porque depois não me chamam para tocar naquele sítio, vou começar a perder aquela liberdade que para mim é tão fundamental, vou deixar de ser uma artista e vou estar ao serviço daquilo que eu acho que são as expectativas das pessoas. Eu prefiro não pensar naquilo que perdi e prefiro pensar naquilo que ganho todos os dias em termos de liberdade, em termos de realização artística, de dormir bem à noite de consciência tranquila na minha almofada. Agora, se depois tenho um público mais pequeno, se estou num circuito mais alternativo, se não passo nas rádios mainstream ou se não vou tocar a determinados palcos, é uma coisa inevitável porque eu situei-me nesse ponto. É uma escolha consciente.

Já lançaste um disco-livro para crianças, desenvolves projetos sociais, como o OUPA, e escreves crónicas. O que se segue no percurso de Capicua?

Gostava de tentar compilar letras, crónicas e poemas que tenho soltos e pensar numa edição em livro. Gostava de experimentar escrever guião para ficção, para teatro ou para humor. Quero continuar a escrever letras para outras pessoas, que me dá muito prazer. E aquilo que eu queria mesmo num futuro muito mais próximo era tocar ao vivo o meu disco novo, porque, dadas as circunstâncias, dei um concerto de apresentação e depois fomos todos para casa. Quero retomar a estrada que me faz feliz e consumar este disco no palco, que é o mais importante.

 

 

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