UHF
Fotografia: Tiago Filipe / EF

Entrevista. António Manuel Ribeiro dos UHF: “Fizemos canções importantes no tempo certo”

António Manuel Ribeiro, vocalista dos UHF, esteve à conversa com o Espalha-Factos sobre o que podemos esperar num futuro próximo da banda. Perguntámos ao músico sobre como tem superado as adversidades causadas pela Covid-19 e houve tempo também para falar de certos episódios marcantes.

65 anos de vida e mais de 40 de carreira, António Manuel Ribeiro é uma figura incontornável do rock português. Devido às circunstâncias atuais provocadas pela Covid-19, a banda almadense foi forçada a cancelar ou adiar muitos dos seus concertos. Um deles seria o primeiro concerto em nome próprio em Paris no Bataclan, que foi remarcado para novembro deste ano.

O Espalha-Factos quis saber como o músico tem vivido estes tempos, como tem gerido os UHF e houve tempo também para recordar tempos de colaboração num conhecido jornal desportivo.

Creio que seja impossível começar esta conversa sem falar da pandemia da Covid-19 que o mundo vive neste momento. Dito isto, pergunto: como é que se tem adaptado o seu dia-a-dia, tanto a nível pessoal como profissional?

Enquanto criativo, ou seja, como escritor e compositor, não tem sido complicado trabalhar em casa, porque [antes da pandemia acontecer] já o fazia bastante. Desde o dia 6 de março que nós [UHF] não nos encontramos para tocar, nem sequer para ensaiar. No entanto, estamos a preparar-nos para isso. Estávamos a gravar um disco que ficou, mais ou menos, a meio. Nunca estive na minha vida, e já lá vão 41 anos e meio de carreira, tanto tempo sem tocar. No próximo dia 6 de junho faz três meses que estou “parado” e devo dizer que é estranho.

Portugal Somos Nós, uma canção dos UHF editada em 2010, foi utilizada, este ano, para uma campanha de sensibilização da RTP devido à pandemia. Alguma vez pensou que esse tema voltaria a ter pertinência agora adaptado a uma nova realidade?

Quando a canção saiu há 10 anos, ela foi “abafada” por outros temas que foram um sucesso desse disco [intitulado Porquê?]. Eu costumo dizer que é uma espécie de chapéu de sol que tapa tudo o resto. Na altura, tinhámos canções como O Vento Mudou e Viver para te ver que “esconderam” o resto do disco ao grande público. Em todo o caso, nós íamos tocando essa música  sobretudo em auditórios numa versão mais acústica. Quando o filme [da campanha] foi feito e vi o resultado final, senti-me emocionado. Alías, não me custa dizer: saíram lágrimas dos olhos. A intenção era aquela. Há 10 anos encontravámo-nos numa crise financeira brutal e agora estamos noutra, para a qual nunca estivemos preparados em que um país fecha-se e os todos países à volta também. [Senti] que era preciso tocar no ânimo das pessoas e dizer que isto não é um estado de derrota, mas sim temos de ter a capacidade de nos reconstruirmos, partindo do princípio que a alma e a força estão dentro de nós.

Disse há bocado que os UHF não têm ensaiado, mas tem protagonizado atuações nas redes sociais que foram apelidadas como Momentos Musicais Caseiros. Que balanço faz desta iniciativa?

Eu comecei a escrever alguns textos no Facebook em março e reparei que as pessoas estavam muito vulneráveis e que precisavam de pontes para a “normalidade”. No mês seguinte, eu decidi começar a fazer essas atuações na minha casa, com toda a segurança e com pouca gente. Só eu, o meu baterista [Ivan Cristiano] que também canta e uma pessoa para ajudar nas emissões para o Facebook e Instagram. Foi aí que se estabeleceu a ligação, a ponte que referi há pouco, melhor dizendo, restabeleceu-se. São nestes momentos que percebemos que nós, enquanto banda, somos importantes nas vidas das pessoas. Não é apenas um momento de moda, é mais do que isso. Fazemos parte do imaginário de várias gerações que residem em Portugal e não só. No última emissão, que foi a décima que fizemos, chegámos a portugueses que estão ainda mais afastados dessa “normalidade”, porque não estão no seu país de origem. Os nossos “momentos musicais caseiros” têm servido para isso mesmo: para juntar pessoas.

Como músico experiente e veterano do rock, sente alguma confusão em atuar para uma câmera sem público à sua frente? Sei que já gravou vários concertos para a televisão, mas acredito que isto seja um pouco diferente…

Quando estamos em televisão, estamos a comunicar para a câmera mas é óbvio que são experiências diferentes. Há uma grande secura, [isto é] não há comunicação, não há palmas. No mês de abril, nós [UHF] e outros artistas fomos convidados pela Câmara Municipal do Seixal para atuar numa carrinha que andava pelas ruas de forma incógnita. Isto foi feito para as pessoas não saírem de casa com o intuito de acompanhar os concertos. Confesso que duvidei um pouco do conceito mas lá me convenci. Chamou-se “Abril pela Rua” e aconteceu uma coisa fantástica: começámos a ouvir as palmas das pessoas vindas das janelas e das varandas. Parecia que estávamos a regressar à vida.

Os UHF tinham marcado um concerto no Bataclan para abril, mas acabou por ser adiado para dia 29 de novembro. Seria a primeira vez que iriam atuar nessa sala?

Sim, será a primeira vez que vamos atuar no Bataclan. Tocámos em Paris, a maior parte das vezes, ao ar livre. Lembro-me também que atuámos numa sala muito bonita e mágica chamada Bobino. O Bataclan tem aquele simbolismo de tudo o que aconteceu de negativo… [pequena pausa] Aliás, nós estávamos a gravar uma nova canção chamada Au Bataclan porque é o tributo que nós vamos levar a Paris. Será também a primeira vez que iremos atuar em nome próprio nessa cidade.

Se não se importar, quero falar de outros assuntos. Quando estava a preparar a entrevista encontrei um vídeo promocional num jornal desportivo e referiu que chegou a trabalhar nesse mesmo jornal. Era jornalista ou tinha uma outra função? Que memórias é que guarda desses tempos?

Comecei como colaborador e depois já escrevia páginas inteiras. Estive lá quatro anos, foi um tempo de aprendizagem muito bom. Nessa altura, já estudava [na faculdade de] Letras [de Lisboa] mas é diferente da prática. Gosto sempre de contar a primeira reportagem que fiz e foi um pesadelo. Um dia fui finalmente chamado e disseram-me “vais fazer uma reportagem sobre um festival de Halterofilismo em Almagra”. Respondi “Eu não sei nada disso” e o chefe de redação afirmou “Não faz mal. Quando chegares lá, perguntas” [risos]. Depois aconteceu algo de curioso. Quando voltei para o jornal para escrever a peça para depois entregar ao chefe de redação, ele pegou no lápis, começou a correr [pelo texto]… não escapou nada [risos]. Quando somos universitários, pensamos que sabemos umas coisas, mas na prática [pequena pausa] o contacto direto foi enternecedor e foi assim que aprendi a escrever. Acho que o poder da síntese num poema pode relacionar-se com o jornalismo. Quando fazemos umas headlines temos que contar uma história e por isso acho que há semelhanças entre ambos. Aprendi bastante, muito mesmo!

Disse que trabalhou quatro anos. Foi até quando mesmo?

Até 1980, porque depois os UHF passaram a ocupar mais tempo.

Recorda-se de alguma entrevista que tenha feito a algum atleta que lhe tenha marcado?

Foram alguns mas entretanto perdem-se com o tempo. Lembro-me de ter entrevistado o Hilário [da Conceição], antigo capitão do Sporting e um grande jogador. Anos mais tarde viria a conhecê-lo pessoalmente [sem estar em contexto de entrevistas]. Curiosamente não entrevistei ninguém do Benfica.

Voltando aos UHF e como referiu o clube de futebol, quero perguntar um acontecimento que, por vezes, é esquecido pelo grande público e tenho curiosidade em saber. Atuaram num festival, que creio que só teve uma edição, chamado Festival Rock Benfica no antigo estádio da Luz. Tem alguma história de bastidores que queira partilhar?

Nesse primeiro festival que aconteceu em 1988, posso contar que entrámos “a correr” e saímos “a correr”. Vou explicar: nessa noite tinhámos um outro concerto no norte do país no concelho de Vila Nova de Gaia e ainda não havia auto-estradas como há agora. Na altura tinhámos acabado de editar um disco muito forte que era o Noites Negras de Azul. Aceitámos tocar com uma condição: tinhámos de ser os primeiros a atuar. Penso que fomos a segunda banda a entrar em palco e o estádio estava a começar a encher. Os bastidores da música é isto mesmo: para cumprir e fazer com que as coisas resultem, há grandes sacrifícios que uma pessoa tem que fazer.

Quais são os planos futuros dos UHF?

Neste momento que estamos mais parados, tenho andado a trabalhar na reedição de um disco emblemático dos UHF. Gosto muito de ter essa função de editor, de pesquisa, de alinhamento, resmasterizar as canções, de trabalhar na capa. São coisas que me agradam porque é o meu mundo.

Pode dizer qual é o disco que está a remasterizar?

[risos] Não posso dizer por uma razão muito simples. As redes sociais mostram tudo e, hoje em dia, temos de guardar a surpresa e manter o mistério. Já vi umas apostas nas nossas redes sociais que estão muito próximas da verdade.

Para terminar: como é que explica a longevidade de uma banda como os UHF?

Fizemos canções importantes no tempo certo. À nossa volta, juntou-se um grupo muito forte de fãs e essas canções também não têm época. Às vezes espanto-me como as pessoas conseguem manter esses temas atuais porque nos pedem para tocarmos em concertos. Vivemos num tempo em que a música é de consumo rápido, tal como a canção ‘Chiclete’ dos Táxi retrata. Hoje em dia, há muitos artistas que nascem dentro de uma casa, que gravam discos dentro de um quarto e quando saem, duram muito pouco tempo e desaparece. Quando há densidade dentro das canções, elas são importantes para mais que uma geração, como tem sido o nosso caso.

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