Clint Eastwood Gran Torino
Fotografia: Divulgação

Clint Eastwood: 90 anos ao sabor de uma boa cerveja

Um homem velho, com quase tão poucos cabelos quantos anos de vida, senta-se no seu alpendre americano. Ninguém ouve, mas com a força angariada por uma rebelião digna, daquelas com as quais nos cruzamos uma, duas vezes na vida, abre uma lata de cerveja igualmente americana. Sem o velho dar conta, um dos seus 91 fios de cabelo grisalhos cai, aterrando no famoso alpendre que mais ninguém pode pisar. É neste momento que os números se encontram. Sim, é o seu aniversário, e a conta é redonda.

Um estudante aborrecido, embora brilhante, caminha para a escola num dia cinzento. São os seus dias favoritos. Pelo caminho, cruza a rua onde o velho bebe a tal cerveja, retirada de um pack com cinco outras latas ansiosas por serem abertas. O medo de olhar para o homem sentado no seu alpendre assome ao corpo do jovem rapaz, que pelo mesmo medo vai acabar por não concluir aquele ano de escolaridade.

No entanto, o velho, com o olhar digno de um Sniper Americano (2014), mira o rapaz enquanto ele atravessa a estrada, mergulhando num passado facilmente ilustrado pelo que os seus olhos contemplam. Também ele cruzava aquelas ruas de São Francisco, Califórnia, até à escola. Também ele reprovara um ano, quando se interessou por música e mecânica. Também ele teria os seus medos. Também ele gostava dos dias cinzentos.

A lembrança do quão lhe custara a ida para o estado de Washington com os pais, aos 19 anos, o eventual regresso à Califórnia, cerca de três anos depois, a fugaz passagem pelo Exército e pela universidade, em Los Angeles, era o que o mantinha de pé durante a filmagem dos primeiros grandes filmes que figurou. “O mais difícil já passou”, pensava Clint.

O cenário não seria o habitual, mas passaria a ser a pintura na qual ainda hoje o vemos.

Clint Eastwood em O Bom O Mau e o Vilão
Clint Eastwood é Blondie em O Bom, O Mau e o Vilão (1966) (Fotografia: IMDb)

De poncho castanho aos ombros, que o iria proteger ao longo de três obras cinematográficas filmadas de forma inovadora, é com o pano do deserto europeu que chega à ribalta. Por Um Punhado de Dólares (1964), Por Mais Alguns Dólares (1965) e O Bom, o Mau e o Vilão (1966) são as partes da famosa trilogia de Sergio Leone. Mesmo que apenas levemente ligados em termos narrativos, estes filmes compõem uma das mais brilhantes antologias em cinema até hoje. Para além disso, conceberam um estilo demarcado, que levou ao estabelecimento da categoria Spaghetti Western, apesar de tudo um pouco esquecida nos dias que correm. Planos americanos roubados ao criador David W. Griffith, close-ups a olhares carregados de ódio e vontade de matar e uma deliciosa mistura de várias línguas e egos excêntricos são algumas das marcas vincadas nestes clássicos sobre o faroeste.

Se a primeira cerveja soube à recordação dos tremeliques por pisar os palcos da sétima arte pela primeira vez, a próxima teria de trazer memórias mais firmes. “O mais difícil já lá vai”, insistia o velho. Aberta a segunda lata, ido o jovem rapaz, é tempo de dar um salto para trás das câmaras. Mas a firmeza é sempre difícil de encontrar.

O Pistoleiro do Diabo (1973), O Rebelde do Kansas (1976) ou, mais tarde, Justiceiro Solitário (1985) perfazem boa parte dos westerns que realizou. Porém longe das premiações mais importantes do mundo do cinema, é pela terceira cerveja que se recorda de que a insistência leva ao sucesso. E é com Imperdoável (1992), protagonizado por si junto de lendas como Gene Hackman, Richard Harris e Morgan Freeman, que alcança as suas primeiras estatuetas douradas: o Óscar de Melhor Realizador e, enquanto produtor, o de Melhor Filme do ano.

Esta obra retrata a última missão de um pistoleiro que já tinha caído na reforma, e é a prova de que o seu realizador estaria errado face à posição da indústria acerca de si: “Primeiro, não sou judeu. Segundo, faço demasiado dinheiro. Terceiro, e mais importante, porque me estou a foder.” Foi deste modo que, por muito tempo, se viu reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Por falar em reconhecimento, é a Sergio Leone e a Don Siegel, realizador que também o inspirou, e que o colocou nos seus mais famosos filmes [A Fúria da Razão (1971) e Os Fugitivos de Alcatraz (1979)], que dedica aquela que é a sua primeira obra a cair no reconhecimento do público em geral.

Morgan Freeman e Clint Eastwood em Imperdoável (1992) (Fotografia: IMDb)

A partir daqui, começam a ficar reconhecíveis ao frame os seus filmes. Um tom sempre acinzentado mostra-nos personagens introvertidas, em recorrente autoavaliação, mas nunca com dúvidas sobre si; a autoavaliação, essa talvez a façamos nós, já que não haverá obra sua que nos deixará indiferentes a nós próprios. Seguiu-se o romance As Pontes de Madison County (1995), onde, junto da icónica Meryl Streep, deu vida a uma das alegadas maiores histórias de amor já filmadas.

A quarta cerveja leva-nos a virar o milénio, e chegamos a 2003 com um sentimento de revolta, mas também de identificação. Mystic River ter-nos-á presenteado com a melhor prestação do extraordinário ator Sean Penn, mas serviu ainda como molde para muitas séries de investigação criminal e filmes policiais que hoje correm na televisão.

Apenas um ano e uma cerveja depois, o velho volta a ver-se a receber a premiação máxima da Academia, desta feita pelo filme de desporto Million Dollar Baby – Sonhos Vencidos (2004). Morgan Freeman voltava aos planos do realizador, e a ser reconhecido pela sua qualidade na representação, mas era também a figura feminina de Hilary Swank, já conhecida pelo drama Os Rapazes Não Choram (1999), que o trazia novamente às bocas do mundo, com um filme sobre boxe multivencedor de estatuetas douradas e pelo qual foi também nomeado enquanto ator – feito em comum com o anterior Imperdoável.

Talvez não seja sobretudo para a representação que Clint tenha nascido; talvez não. E talvez tenha sido essa crença que o levou a continuar a realizar. A Troca (2008), com Angelina Jolie e com uma história de sequestro inacreditável, J. Edgar (2011), protagonizado por Leonardo DiCaprio, um dos maiores atores da indústria, acerca da vida do famoso primeiro diretor do Departamento Federal de Investigação (mais conhecido como FBI), J. Edgar Hoover, ou Jersey Boys (2014), uma digna cinebiografia à banda Frankie Valli and the Four Seasons, eternizados pela canção Can’t Take My Eyes Off You, são só alguns dos bons exemplos de filmes que se seguiram e seguiram o sucesso alcançado pelo já imponente realizador.

Frame do filme Jersey Boys (2014) (Fotografia: IMDb)
Frame do filme Jersey Boys (2014) (Fotografia: IMDB)

A sexta cerveja reservou-nos um ou dois lugares imaginários especiais. Traz consigo alguma frustração, é verdade, e o aumentar do bombardeamento de sangue nas veias do velho do alpendre só contribui para essa verdade. Pois é; falamos de um velho que nem sempre corre nas estradas alcatroadas pela compreensão alheia, apesar do reconhecimento incontestável que o público e os críticos lhe foram conferindo.

O facto de este se apresentar como republicano tem levado a uma injusta negligência por parte ora da indústria, ora dos meios de comunicação focados no mundo do entretenimento. Mas isso não o impede de continuar: Correio de Droga (2018) é a mais brilhante prova de que, por amor à camisola, e apesar do cansaço, tudo se faz, e se pode fazer roçando a perfeição. Ele mesmo protagoniza a história, baseada num artigo do jornal The New York Times que tem como personagem principal o mais velho e competente traficante de droga do Cartel de Sinaloa, com quase noventa anos. A idade foi mais do que suficiente, talvez até fulcral, para esta ser uma das mais fortes lições acerca dos valores da família filmada nos últimos anos.

O culminar de uma carreira impossível de ignorar e prazerosa de se revisitar chega-nos uns anos antes, com Gran Torino (2008). Não só é este filme um reinventar de alguém que estaria catalogado da forma quase inversa à pregada (salvo seja) pelo filme, como ficou para a posterioridade como uma das mais marcantes histórias sobre a aceitação. Tudo se passa em volta de um dos famosos Ford Torino, um carro que pode representar a estabilidade, mas também o arriscar por algo diferente, algo melhor. Um veterano da Guerra da Coreia, que recentemente perdeu a mulher, encontra-se à espera da finitude, mas é antes encontrado pelo questionamento sobre a forma como tem visto o mundo e como o tem deixado chegar até si e ao seu carro, simbolicamente. É natural que seja com uma resistência quase militar que recebe os novos vizinhos asiáticos hmong, mas é certamente com mais surpresa que encaramos o resto de um dos poucos filmes que conseguiu realmente mudar o panorama ideológico dos Estados Unidos da América no último par de décadas.

Gran Torino Clint Eastwood, Bee Vang, Brooke Chia Thao, Chee Thao e Ahney Her
Clint Eastwood, Bee Vang, Brooke Chia Thao, Chee Thao e Ahney Her em Gran Torino (2008) (Fotografia: IMDB)

A cerveja acabou, mas a hora ainda não será a final. A câmara continuará com os seus filmes. A campainha da escola já fez soar o sinónimo de liberdade, e levou o jovem rapaz a voltar a passar pela rua onde figura aquele alpendre de entrada proibida. A bandeira americana, pendurada em frente à casa do velho, nunca cessou de abanar ao vento. Afinal, o verão ainda não chegou.

Por exceção, e após um olhar que enfrenta todos os medos, o rapaz respira fundo e entra jardim fora e sobe aquelas escadas muito americanas. O velho levanta-se. “O mais difícil vai passar”, garante ele a um jovem Clint Eastwood. Os medos adquirem então uma pequenez invisível ao olho das lentes. Pese embora a cerveja, o abraço é dirigido a uma pessoa muito especial: a si mesmo. E leva o bafejar da celebração por mais um ano de vida.

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