How To Get Away With Murder
Fotografia: Divulgação

Crítica. ‘How To Get Away With Murder’ choca os fãs com um final marcante

Após 90 episódios, How to Get Away With Murder chegou ao fim. A série da ABC, que estreou em 2014, veio ensinar aos espectadores algumas noções de Direito; mas, mais que isso, tentou mostrar como é possível cometer um assassinato e sair impune.

Annalise Keating, extraordinariamente interpretada por Viola Davis, foi a nossa professora durante seis temporadas. Esta advogada de defesa criminal e professora de Direito na Universidade de Middleton, em Filadélfia, conquistou os corações dos fãs com a sua atitude badass desde o primeiro episódio — e cativou esse lugar até ao final.

Ainda que tremendamente boa naquilo que faz, não se livra dos julgamentos alheios. A sua maneira de agir não é a mais convencional, ou não teria envolvido cinco dos seus alunos numa trama de homicídios. Levando à letra o ditado “quanto mais me bates, mais gosto de ti“, estes jovens deixaram-se fascinar por Keating — tal como nós.

A última temporada explorou o último semestre na faculdade de Direito. Numa altura que deveria ser de celebração, os alunos viram-se incapazes de aproveitar o momento, pois o FBI, depois de juntar as peças do puzzle que levou seis temporadas a construir, estava mais perto do que nunca de encontrar os culpados por uma série de mortes.

A sexta temporada conseguiu, em 15 episódios, criar ainda mais fios soltos. Quando o 14.º episódio foi para o ar, a maioria dos fãs questionou-se acerca de como iria HTGAWM responder a todas as questões levantadas num último episódio. Torcemos por um especial de duas horas, mas tivemos pouco mais de 40 minutos. Céticos e com receio de ficarem desiludidos: foi assim que assistimos à series finale. Mas será que foi assim que nos sentimos quando rolaram os créditos?

O conteúdo que se segue contém spoilers relativos ao último episódio de How To Get Away With Murder

O flashback que nos enganou a todos

Flashbacks não são, de todo, novidade para HTGAWM. Recorrentes, sempre foram utilizados para mostrar parcialmente o desfecho das temporadas e muitas vezes revelaram a identidade de algum falecido. Assim, pudemos ver tudo o que levava ao clímax, com uns quantos elementos surpresa à mistura. No entanto, nesta última temporada, houve direito ao flashback dos flashbacks.

Foi através de um regresso ao passado que soubemos que o cadáver, desta vez, pertencia à personagem principal: Annalise. De queixo caído, aguardámos até aos últimos minutos para entender como se atreveriam a matar uma personagem icónica. Tornou-se complicado fugirmos ao assunto e tivemos de descartar possibilidades como uma morte orquestrada.

Como se não fosse suficiente vislumbrar o caixão de Annalise, os fãs são confrontados com uma visita bastante inesperada — Wes Gibbins (Alfie Enoch). Sim, o mesmo Wes que morreu na terceira temporada e cujo cadáver deteriorado testemunhámos. Ainda assim, e porque tudo é possível, ele estava diante dos olhos de todos. Estavam em causa, na realidade, dois plot twists particularmente inesperados, que evidenciaram ainda mais a inteligência dos produtores desta série. Em vez de causarem revolta, significaram um dos melhores finais de séries comseguidos até hoje. Não só por esperarmos algo totalmente diferente, mas também pelo peso que tiveram para a história em si.

How To Get Away With Murder
Fotografia: ABC/Divulgação

Ali jaz Annalise Keating. É um facto. Contudo, os espectadores foram coagidos a acreditar que tinha sido assassinada à saída do tribunal. O último episódio, inclusive, começa com o tiroteio caótico cujo desfecho achávamos conhecer. A verdade é que decidiram concretizar o melhor final de todos: uma vida longa e feliz para Annalise, que, à partida, morreu de causas naturais. Isto quer dizer que nunca mentiram: de facto, ela estava morta, mas tratava-se de um avanço temporal.

Havia muitas pontas soltas para atar, o que, num episódio de cerca de 40 minutos, dificultou a quantidade de cenas que se podiam mostrar. Os diálogos estavam mais apressados e não tinham as pausas do costume. As ações decorriam muito mais depressa, mas tal não lhes retirou qualidade. Assim, tivemos meros segundos para imaginar como foi a vida de Annalise dali para a frente, que nos permitiram ver que foi uma vida feliz, concretizada e, ao contrário do que havia sido até então, pacífica.

Conquistados pela simplicidade

Quem disser que HTGAWM não é uma série complexa está a mentir. Todas as reviravoltas conseguidas ao longo de seis temporadas têm mérito irrefutável. E, ainda assim, foi um final simples que agradou. Estávamos mais preparados para ver Annalise assassinada do que para somarmos 2+2 e percebermos que talvez se tratasse de outra pessoa ou do futuro.

Ainda sobre somarmos 2+2… que levante a mão quem percebeu que Wes não era Wes e sim Christopher — o seu filho com Laurel (Karla Souza). Seria mais expectável terem arranjado uma forma de o trazer de volta à vida (sim, mesmo depois de vermos a sua cara completamente desfigurada e o seu corpo sem vida). Não passou pela cabeça da maioria dos fãs que fosse o bebé Christopher, neste caso crescido, e fotocópia do pai. É um plot twist simples, mas bem fabricado.

How To Get Away With Murder
Fotografia: ABC/Divulgação

Como se não bastasse, os espectadores foram presenteados com um paralelo bem conseguido. Na cena final do episódio, descobrimos que Christopher se tornou professor na Universidade de Middleton, onde leciona a mesma cadeira de Annalise: Direito Penal ou… How To Get Away With Murder. Nos últimos anos de vida, Annalise foi sua mentora, o que significa que pôde acompanhar o crescimento do bebé, que seguiu as suas pisadas. Esta cena final é também um paralelo ao início do primeiro episódio, quando conhecemos Wes – aliás, a cena de abertura repete-se mesmo no fecho, agora com o seu filho. Um bonito fecho de ciclo.

Cada um tem aquilo que merece… ou não

Durante o funeral de Annalise, a despedida final à personagem mais marcante da série, o flashforward permitiu os espectadores ver trechos de como foi o futuro de algumas personagens, mesmo que grande parte tenha sido deixada à sua imaginação — fator que considero positivo.

Um dos pontos altos do episódio foi, sem dúvida, quando percebemos que Laurel está lá, também com uns anos em cima, e, ao olhar para trás, sorri para Connor (Jack Falahee), acompanhado por Oliver (Conrad Ricamora), numa cena impactante. Laurel refere-se a eles como “os meus antigos amigos“, o que sugere que todos se afastaram uns dos outros depois do julgamento. Uma decisão sensata, tendo em conta aquilo que aprontavam quando estavam juntos.

Por outro lado, Michaela (Aja Naomi King) parece ter faltado à cerimónia. Já era de esperar, tendo em conta a atitude solitária e egoísta que assumiu nesta última temporada, acabando por afastar os seus amigos e por ficar sozinha. Priorizou a carreira e, ao que parece, conseguiu tornar-se juíza, mas a que custo? Depois de confessar a Connor que não merecia ir para a prisão devido à infância complicada que teve, pois já tinha sofrido o suficiente, fica a sensação de que se tratou de uma tentativa de gerar empatia. O tema da sua infância conturbada não tinha, até aí, sido tão aprofundado, mas, mesmo assim, Michaela teve um final, ainda que triste, adequado.

How To Get Away With Murder
Os fãs tiveram aquilo que queriam: Coliver, apesar de todos os obstáculos, foi endgame | Fotografia: ABC/Divulgação

No que diz respeito a Coliver (nome dado ao casal pelos fãs), é injusto Connor ter passado cinco anos atrás das grades e os restantes — tão ou mais culpados — não terem sequer posto os pés numa prisão. Só se torna aceitável por Connor querer voluntariamente pagar pelos seus erros, evidência do seu caráter. Serve para mostrar que este final não foi só borboletas e arco-íris e o quão manipuláveis os acordos judiciais podem ser.

Depois do elemento choque, quando Connor pede o divórcio a Oliver, a cena final em que dão conta de que ficaram juntos é ainda mais gratificante. Connor acaba por levar a taça do altruísmo, pois fez de tudo para não prender Oliver e para tentar proporcionar-lhe uma vida melhor, mesmo que isso significasse abdicar da sua própria felicidade. É uma personagem que evoluiu bastante ao longo das temporadas, tornando-se mais empática e genuína. O facto de ter sido o único a cumprir pena é revoltante, mas rapidamente nos esquecemos disso ao testemunhar o final feliz do casal.

Vamos ter saudades, Bonnie & Clyde… Oops! Bonnie & Frank

E porque não seria How To Get Away With Murder sem mortes chocantes, o final não foi sorridente para Bonnie (Liza Weil) e Frank (Charlie Weber). Esta decisão arrojada serve para reforçar a congruência deste final, não deixando espaço para os fãs ficarem tristes com estas mortes.

Bonnie e Frank estavam ambos sem conserto. O nível de sofrimento que tiveram de aguentar ao longo das suas vidas, os crimes que cometeram e o seu passado dificilmente lhes permitiriam ser realmente felizes. Por isso, e porque provavelmente nenhum aguentava sem o outro, é justo e poético ambos terem falecido. Mesmo assim, seria preferível terem vivido uma vida longa e feliz, depois de tudo pelo que passaram.

Há algumas temporadas atrás, tudo indicava que Frank ficasse com Laurel, mas os espectadores deixaram de torcer por isso. Faz sentido, pelo que passaram juntos, ser Bonnie o amor da sua vida, mesmo não querendo dizer que fossem o par ideal. Depois de descobrir que é fruto de incesto, Frank fica ainda mais danificado por dentro, desamparado, um sentimento totalmente compreensível. Mesmo assim, não há justificação para a forma como descarregou em Bonnie, que foi quem lhe deu a notícia. Seria crucificada caso mantivesse em segredo, e acabou por ser crucificada na mesma por lho divulgar. É incompreensível como consegue colocar a culpa em Bonnie, algo que pode ter servido para mostrar que se tornariam incompatíveis e que não teriam futuro juntos.

A incongruência dos momentos finais destes personagens surge numa uma cena interessante de confronto entre Bonnie e Laurel, em que, como seria de esperar, o assunto principal foi Frank. No entanto, parece ter havido ali uma amizade forçada, quando Laurel afirma que, na verdade, foi Bonnie quem manteve os alunos unidos e salvos durante todos aqueles. Um pormenor que não corresponde ao que vemos ao longo da história.

Fotografia: ABC/Divulgação

Frank morre a ser o herói de Annalise, garantindo que mais ninguém lhe fará mal e atingindo o pico da devoção. estava claro que daria a sua vida por ela, algo que acabou mesmo por cumprir. Depois de atirar contra a Governadora, perde a vida no colo de Bonnie, que, ao tentar impedi-lo, é apanhada no meio do tiroteio e, por sua vez, morre nos braços de Annalise. Num desfecho chocante, nenhum dos dois teve de suportar a perda um do outro. Destaque também para o facto de não termos visto o luto de Annalise, personagem que vimos sofrer muito ao longo das várias temporadas. Foi um final trágico, mas romântico para duas personagens que não tinham outro final plausível.

Ao TVLine, o criador da série, Peter Nowalk, expressou a necessidade de haver tragédia no final: “Se todos seguissem em frente com as suas vidas, não pareceria, de todo, uma boa história, nem verídica. E começou com o Frank. Percebi que ele se sacrificaria por Annalise (…) pela culpa de ter sido responsável pela morte do seu filho. Acho que ele nunca se conseguiria perdoar e, tendo a oportunidade de salvar a Annalise ou de corrigir os seus erros, iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance, mesmo que tal significasse partir numa missão suicida”.

Quanto ao destino de Bonnie, Nowalk revelou que foi alvo de muito debate. “A maior parte das pessoas queria dar-lhe um final triunfante, algo que lhe proporcionasse alguma felicidade. Nenhuma personagem sofreu tanto quanto ela na série ou teve uma vida tão vazia. Mas senti que também não seria fidedigno. Nem toda a gente tem aquilo que merece na vida, e eu também não queria que isso acontecesse na série. Queria que houvesse alguma tragédia. A única coisa que me fez sentir bem com isto foi o facto de ela e o Frank se amarem de verdade, então terem morrido juntos foi meio Romeu e Julieta“, explica.

Um final inesperado, justo e completo

Torna-se impressionante a magia realizada em 40 minutos para condensar o desfecho de uma série com seis temporadas, que se tornaram únicas e inesquecíveis. Até porque, por uma questão de justiça, os maus da fita não escaparam ao assassinato. Jorge Castillo (Esai Morales) é esfaqueado na prisão (embora não se saiba a que mando) e a Governadora Birkhead (Laura Innes) é alvejada por Frank. Tendo em conta a sua influência e o seu poder, parece o único fim capaz de garantir que não magoam mais ninguém.

Depois de perder o seu pai e de se tornar uma personagem enfadonha, Nate (Billy Brown) consegue reconquistar o respeito dos fãs neste último episódio. Ao recusar o suborno de 2o milhões de dólares (mais de 18 milhões de euros) por parte do FBI, colocou-se do lado de Annalise, contribuindo para a sua vitória no julgamento. Assim, denunciou o FBI e ainda conseguiu a confissão de Wes, que ofereceu a Annalise. No futuro, abre o The Lahey Justice Center para ajudar reclusos, o que vai ao encontro daquilo que merecia.

How To Get Away With Murder
Fotografia: ABC/Divulgação

Os fãs puderam despedir-se mais uma vez de Ophelia (Cicely Tyson), a mãe amorosa que deixará saudades; no flashforward, vemos Annalise no seu funeral, em conjunto com a sua irmã. Viveu tempo suficiente para presenciar todas as vitórias da filha.

Outro aspeto que tornou o final ainda mais adequado foi a presença de Eve (Famke Janssen), que discursa no funeral de Annalise. Os fãs especulavam pelo seu regresso neste desfecho, que aconteceu da melhor maneira para rever a personagem, que proferiu palavras sentidas acerca da sua ex-amada. Quanto a amores atuais, Tegan (Amirah Vann) confessou finalmente a sua paixão por Annalise, que, embora não tenha tido a melhor reação, acabou por envelhecer com a parceira, pelo menos numa parte da sua vida, como pudemos ver no salto para o futuro.

Os detalhes deste final garantiram que nenhum fã ficaria desiludido. As reações são simultaneamente de tristeza e de felicidade, mas nenhum momento impactou como o final do julgamento de Annalise. Assistiu-se com arrepios ao último discurso de sempre da (maravilhosa) Viola Davis enquanto Annalise, que prova, mais uma vez, que o talento desta atriz é inegável.

Nota-se o carinho que Davis nutre pela personagem, o quanto prepara as suas cenas – a colocação da voz, as expressões faciais, a personalidade. Atrevo-me a dizer que é das personagens mais icónicas já criadas. Mesmo depois de tudo, Annalise Keating afirma perante o júri que não é uma vítima, e sim uma sobrevivente. Divulga o seu histórico enquanto vítima de abuso sexual, a perda do seu filho, a sua bissexualidade e tudo o resto que a fortaleceu até ao julgamento. Felizmente (e porque se trata de uma série), conseguiu o veredito que todos esperavam: foi declarada inocente de todos os crimes. O arrepio foi unânime, quer aos personagens, quer aos fãs mais dedicados, ao ouvir o juiz proferir as palavras “not guilty“.

Fotografia: ABC/Divulgação

Na mesma entrevista ao TVLine, Peter Nowalk esclareceu que, para si, “a viagem de Annalise Keating sempre teve um final definido”. O criador da série admite, no entanto, que nunca esteve nos seus planos matar Annalise: “Tinha sido plantado na minha cabeça, pela Viola, penso, que seria um grande mistério se a Annalise fosse assassinada e não soubéssemos por quem. E eu concordei. Sempre pensei se o assassinato da Annalise deveria compor a última temporada, mas também nunca quis matá-la“. Em vez disso, Nowalk acreditava que Annalise merecia um final triunfante — e foi exatamente isso que lhe proporcionou.

How To Get Away With Murder ficará para a história como a série que nos ensinou, entre a ficção, princípios do Direito e que nos mostrou o talento de Viola Davis. Mas, acima de tudo, marca-se como a série que, depois de seis temporadas, conseguiu a proeza de orquestrar um final que agradasse a todos. Sabemos bem o desafio que isso representa – maior do que escapar impune a um assassinato.

9.5

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