Fotografia: Lydie Barbara

Xinobi: “Temos de usar a criatividade como forma de superar a adversidade”

Xinobi lançou um novo tema para antecipar uma compilação que anda a preparar. Este foi o pretexto para que o Espalha-Factos pudesse conversar com o DJ e um dos fundadores da editora Discotexas. Para além disso, quisemos saber como tem sido o período de adaptação face à nova realidade imposta pela pandemia da Covid-19.

Bruno Cardoso é mais conhecido por Xinobi no mundo artístico — o nome veio de um videojogo da Sega dos anos 80. Antes da pandemia, o lisboeta andava a preparar um novo disco, mas as circunstâncias fizeram com que mudasse um pouco os planos.

No início de junho, edita A Collection of Xinobi Dance Songs, uma colectânea com vários temas soltos nunca antes disponibilizados ao público. Juntamente com Moulinex, Xinobi é um dos fundadores da discográfica Discotexas que alberga artistas como Da Chick, Best Youth, Mirror People entre outros.

‘The Moment’ é o nome do teu mais recente single. Quero perguntar isto em tom de provocação: Este tema é, de alguma forma, uma reflexão sobre os tempos que vivemos por causa da pandemia?

Não é necessariamente sobre a pandemia. A música está mais relacionado com o “aproveitar o momento”, seja qual ele for. A pandemia não é uma coisa boa mas podemos tentar, ao máximo, tirar proveito para nós enquanto pessoas.

Esta música contém a participação da Ivy do projeto Grandfather’s House. Podes explicar como surgiu o interesse em fazerem esta parceria?

A colaboração surgiu de forma inesperada. Creio que vi uma partilha de alguém no Facebook de uma canção dela [Ivy]. Fui ouvir, por curiosidade, porque gosto de ouvir coisas novas. Fiquei surpreendido. Pensei “Que voz é esta?”. Acho que não há nada parecido feito cá nem mesmo no estrangeiro. Depois conheci o álbum dela e fui ao concerto de apresentação em Lisboa.  Tornei-me “amigo” dela se assim se pode dizer. Identifiquei-me muito com a música [da Ivy] porque é um bocado obscura e isso deve-se, em parte, pela voz que tem. Tive aquele feeling de tentar fazer algo juntos. Começámos a fazer umas canções. Temos mais uma para ser feita para além desta. [‘The Moment’] tem um registo mais Spoken Word porque é muito teatral. Fizemos esta música antes da pandemia começar e até parece que estávamos a advinhar que um momento tão importante iria surgir [risos] É um tema em que quero que as pessoas consigam refletir um pouco sobre elas próprias.

Vais lançar agora uma compilação chamada A Collection of Xinobi Dance Songs. Depois disto vais lançar um novo álbum?

Essa coletânea será uma espécie de “fechar um capítulo”. Estava a fazer um álbum antes de toda esta situação [da Covid-19] surgir. Não desisti de o fazer mas confesso que ainda está tudo em aberto. Deixou de haver um calendário, a vida começou a ser experenciada de forma diferente. Um dia de cada vez. Não consigo, pelo menos nesta fase, projetar planos a longo prazo, ou seja, não estou a ter ideias do tipo: “este novembro, vou lançar o meu novo álbum”. É mais por aí. Vou fazendo as coisas que mais me fazem sentido e que, antes, não tinha tempo para pensar de forma objetiva…

É uma espécie de “arrumar a casa”. Concordas?

Sim. Consiste em repescá-los. Tinha muitos temas que estavam “soltos” e tinha de os juntar não como álbum mas como uma colectânea. Vão saindo como se fossem um “conta gotas”, mas a compilação sai, em princípio, no dia 12 de junho. [Voltando ao tema] ‘The Moment’ resultou também da necessidade que tenho de meditar para me acalmar, porque sofro um pouco de ansiedade. Por vezes, considero que é importante termos um tempo “só para nós próprios”. Estamos, neste momento, a viver uma situação que nós, enquanto pessoas, não conseguimos controlar isto com as nossas mãos. Tenho de proteger-me e também as pessoas que consigo proteger e não “stressar” com a situação a nível global.

Para além do teu projeto Xinobi, és também um dos fundadores da editora Discotexas. Tendo em conta a situação atual, como é que uma discográfica se adapta face a esta nova realidade?

No início de março, ficámos um pouco baralhados porque estava tudo indefinido. Ainda continua, mas nesse mês estava excessivamente incerto. De alguma forma, pensámos em parar de fazer lançamentos, porque não faz sentido. Idealmente, o lançamento de um artista implica sempre umas atuações. Deixámos de ter essa opção. Mas também pensámos que não podemos deixar de editar discos porque as pessoas precisam de música e nós, enquanto músicos, temos que estar ativos. Tivemos um mês de reflexão e tivemos um impulso para voltar. Estou a sentir-me muito na inocência de há 15 anos atrás que não sabia bem o que queria fazer mas ia fazendo à mesma. Ficar em casa não implica que estejas num regime de preguiça. Temos de usar a criatividade como forma de superar essa adversidade. Tenho andado mais ocupado do que antes [risos] Confesso que estive duas semanas a rever a série Seinfeld e a ler muito, mas depois voltei ao registo de fazer música nova, estar ocupado com a editora, organizar concertos online entre outras coisas.

Ia pegar nisso que acabaste referir. Qual é que é a tua postura em relação aos concertos online? Achas que o grande público terá que começar a pagar para assistir a essas atuações, a fazer doações aos artistas ou é algo que se deve manter gratuito?

É difícil responder a isso, porque ainda não tenho uma opinião 100% definida. Tenho sorte de não estar “mal”. Consegui, ao longo destes últimos anos, juntar algum dinheiro que consegue deixar-me confortável ao ponto de poder voltar a atuar, suponhamos, no próximo ano. Mais do que isso, começa a ser um pouco estranho [risos]. Sei que há pessoas [pequena pausa] usando uma expressão mais crua: que estão na merda. Para mim, fazer concertos virtuais com bilhetes ou doações, não vejo isso como possibilidade, pelo menos no meu caso em concreto, mas há pessoas que, se calhar, faz sentido fazerem isso e é bom terem contribuições. Há muita gente que manda mensagens para a Discotexas a perguntar: “como podemos contribuir?”. Temos entrado no raciocínio: “em vez de doares dinheiro, mais vale ires à nossa loja e compras merchandise, um cd ou outra coisa qualquer. Para além de nos ajudares, estás também a ganhar algo para ti”. Até agora está a resultar mas não sei se funcionará também a longo prazo [risos].

Pertencias ao grupo The Vicious Five sendo como guitarrista. Que memórias é que guardas desses tempos?

Guardo memórias incríveis. A banda foi uma escola: vínhamos do zero e conseguimos ir até um limite… e estivemos quase a passá-lo. Quando sentimos isso, foi o momento em que decidimos terminar com o projeto. Se tivéssemos continuado o nosso percurso se calhar não éramos tão honestos connosco próprios e com os Vicious Five. Estou a refletir um pouco, porque sempre que me perguntam isso, não tenho nenhuma resposta preparada. Fizemos boa música. Sei que influenciámos algumas pessoas. Olho para esse percurso que durou uns cinco anos com muito orgulho e ainda hoje somos todos amigos uns dos outros.

Existe algum plano de voltar novamente ao ativo? Ou é algo que descartas por completo?

Eu acho que não é completamente descartado mas também não me parece que vá acontecer. Nós fizemos uma atuação no festival Nos Alive em 2014 [a banda terminou em 2009]. Eu adorei, mas não é algo que equacione num futuro próximo. Se acontecer não será por dinheiro, mas sim porque nos apetece.

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