Faleceu Maria Velho da Costa, uma das “Três Marias”

Uma das autoras das Novas Cartas Portuguesas, e vencedora do Prémio Camões em 2002, morre aos 81 anos

Maria Velho da Costa faleceu dia 24 de maio, sábado, anunciou a realizadora Margarida Gil à agência Lusa. Estaria fisicamente debilitada, mas lúcida, e morreu subitamente em Lisboa, aos 81 anos. Vencedora do Prémio Camões de 2002, ficou conhecida como uma das “Três Marias”, co-autora das Novas Cartas Portuguesas.

Maria Velho da Costa, nascida em 1938, licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A sua estreia na escrita ocorreu em 1963 com a publicação do seu livro de contos O Lugar Comum, inaugurando uma carreira que será, sobretudo, dedicada ao romance, mas que inclui também poesia e teatro. O seu primeiro romance é Maina Mendespublicado em 1969, um marco da literatura contemporânea portuguesa.

As Três Marias
As Três Marias. Em 1973, as escritoras Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa foram acusadas pelo Estado português de terem escrito um livro pornográfico e atentatório da moral pública e bons costumes, intitulado Novas Cartas Portuguesas. As Três Marias viriam a ficar conhecidas em todo o mundo pelas repercussões deste julgamento, classificado como a primeira causa feminista internacional.

Em 1972 publica, com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno (falecida em 2016), as Novas Cartas Portuguesas, uma obra revolucionária em forma e conteúdo. A obra expôs a opressão da mulher na sociedade machista e patriarcal portuguesa, da violência doméstica às violações, criticando também abertamente o Estado Novo, a censura, a guerra e a pobreza. O livro causou um escândalo – as três autoras sofreram um processo judicial e foram levadas a tribunal, que acabou suspenso, interrompido pelo 25 de abril de 1974. A censura da obra provocou comoção internacional, e apoio às autoras, pedindo pela sua ilibação, chegou de toda a Europa. A notícia alcançou, inclusive, Simone de Beauvoir.

Maria Velho da Costa é dona de uma vasta obra, da qual se celebra também Casas Pardas (1977) e Myra (2008), pelo qual ganhou o Prémio Correntes d’Escrita desse ano. Vencedora do Prémio Vergílio Ferreira, em 1997, e do Prémio Camões, em 2002, foi também condecorada com a Ordem do Infante D. Henrique em 2003, e com a Ordem da Liberdade a 25 de abril de 2011, que se destina “a distinguir serviços relevantes prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação da Pessoa Humana e à causa da Liberdade”. A sua obra, revolucionária em forma e conteúdo, deu revolucionárias novas vozes às personagens femininas assim como aos seus livros. A sua escrita era inovadora, quebrando com as regras, tornando-se um marco na literatura portuguesa.

Morre em Lisboa, a pouco mais de um mês de celebrar 82 anos.

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