White Lines
Fotografia: Netflix / Divulgação

Crítica. ‘White Lines’ não aquece nem arrefece

A recente série da Netflix não surpreende, mas Nuno Lopes faz tudo valer a pena.

White Lines é uma das mais recentes séries da Netflix, uma produção que conta também com presença portuguesa. A série que estreou a 15 de maio passou rapidamente a fazer parte do top 10 de séries mais vistas da plataforma de streaming.

As expectativas estavam altas, ou não fosse o criador de White Lines, Alex Pina, o também responsável por La Casa de Papel. Em conjunto com Andy Harries, um dos produtores de The Crown, Pina tinha em mãos a pressão de anteriores sucessos. A série falada em dois idiomas encanta pouco, mas não desencanta o suficiente para desistirmos dela.

O primeiro episódio arranca com Zoe, uma mulher britânica que procura a verdade sobre o seu irmão, Axel, desaparecido há 20 anos depois de se ter mudado para Ibiza. Em conjunto com o marido, Zoe viaja até Ibiza após a polícia espanhola ter encontrado um corpo que poderá ser o do seu irmão. Após uma chuva intensa no deserto de Almería deixar a descoberto o cadáver, Zoe decide procurar o responsável pela sua morte. Nesta sua demanda pela verdade, Zoe irá também ela viver a sua própria aventura.

Axel era DJ, um rapaz bonito e carismático que viajou para Ibiza com os seus amigos, Marcus, Anna e David, à procura da realização de um sonho: ser o maior DJ de todos os tempos. Este vai conhecer uma das famílias mais influentes de Ibiza, os Calafat, donos de várias discotecas onde a droga é a rainha. O irmão de Zoe era admirado por muitos, mas odiado por outros tantos, dando a qualquer uma das personagens um motivo para ter cometido o crime.

A série falha pela banalidade

O mistério da morte de Axel e as belas paisagens de Ibiza são dois elementos positivos em White Lines. No entanto, a série falha pela banalidade da história. Não existe nada de novo nem de nunca antes visto. Tanto a base da história em si como os seus personagens revelam-se bastante óbvios à medida que a série se desenrola.

White Lines perde o fio à meada com as muitas reviravoltas que vão acontecendo ao longo da série. O próprio mistério da morte de Axel, que deveria ser o ponto principal da história, acaba por ficar muitas vezes para segundo plano. As aventuras de Zoe com drogas e o caso extraconjugal com Boxer (Nuno Lopes) acabam a maior parte das vezes por ser o foco principal.

Lê também Entrevista a Nuno Lopes: “White Lines é um caleidoscópio louco”

Ao longo da série e à medida que vamos conhecendo os personagens seria de esperar criarmos alguma empatia com eles. No entanto, essa ligação emocional entre o espectador e os personagens fica difícil de acontecer. A personagem de Zoe deveria ser a que mais ligação teria com o público, não só pelo desaparecimento e morte do seu irmão, mas também pela infância vazia que teve sem ele. No entanto, a prestação de Laura Haddock revela-se muitas vezes fria. Para além disso, as festas descontroladas de Ibiza, a família abastada e disfuncional e os exageros com drogas e sexo que vão sendo uma constante ao longo da série em nada surpreendem.

White Lines
Anna, uma das amigas de Axel, é agora organizadora de festas exclusivas com orgias na ilha.

A marca portuguesa faz valer a pena

Apesar das muitas falhas de White Lines, a série tem coisas boas a seu favor. Ao longo da narrativa, o espectador é transportado entre o passado e o presente. Este paralelismo temporal permite conhecer um pouco melhor o percurso de cada personagem. Também a escolha dos atores que interpretam a versão mais nova de cada personagens foi bastante bem conseguida pelas semelhanças físicas. Outro ponto positivo a favor da série é a sua banda sonora. Com tantas festas em Ibiza, música é algo que não falta.

A prestação de Nuno Lopes faz a série valer a pena. O ator português desempenha o papel de Boxer, um homem misterioso que trabalha para os Calafat como chefe de segurança. Forte e com a frieza necessária na hora de resolver um problema, Boxer acaba por ser, de maneira quase inesperada, uma das únicas personagens (senão a única) capaz de criar alguma empatia no telespectador. A sua lealdade e os sentimentos que nutre por Zoe fazem da sua prestação a mais genuína da série.

Mas Nuno Lopes não é o único português a marcar presença em White Lines. Também Paulo Pires e Rafael Morais fazem parte do elenco. Embora em papeis secundários, mas nem por isso de menos importância. Paulo Pires interpreta o papel de George, namorado de Anna. Um homem atraente e de espírito livre. Já Rafael Morais desempenha o papel do jovem Boxer, sendo este fundamental para perceber o lugar do segurança na morte de Axel.

Embora não surpreenda, White Lines acaba por entreter o suficiente para acompanhar toda a temporada.

White Lines
O grupo de amigos envolve-se em várias discussões na procura pela verdade.

Vale a pena uma segunda temporada?

Embora não haja ainda qualquer confirmação acerca da continuidade da série, é possível sempre especular qual o caminho que esta poderia seguir. Agora que o mistério da morte de Axel está resolvido, a única razão para Zoe continuar em Ibiza seria vingar a morte do seu irmão. Uma vez que o crime foi cometido há 20 anos atrás e tendo já prescrito segundo a lei espanhola, a única maneira de fazer o culpado pagar pelo crime cometido seria pelas suas próprias mão. No entanto, Zoe teve a oportunidade de o fazer no último episódio e não o fez. Poderia estar em choque? A verdade teria sido suficiente? Um melhor plano de vingança pode estar a ser pensado?

Outra das dúvidas que ficou no ar foi a relação entre Zoe e Boxer. Os dois envolveram-se em cenas de sexo escaldantes, e deram a Zoe experiências que nunca antes teve. No entanto, ela é casada e tem uma filha, o que torna tudo moralmente questionável e é também a razão pelo qual o namoro termina, embora contra a vontade de Boxer. Apesar do fim do seu caso com Boxer, Zoe termina a série com uma relação estragada com a filha e o marido, este que irá pedir a guarda total da filha. Fica assim a dúvida: como fica a vida de Zoe depois de toda a montanha russa de experiências que foi Ibiza?

Talvez houvesse espaço para mais uma temporada, mas muitas alterações teriam de ser feitas, tanto na história como nos próprios personagens. Caso contrário, uma segunda temporada seria ainda mais cheia de exageros e deficiente a nível emocional.

White Lines
6.5

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Dark
Crítica. ‘Dark’: A despedida agridoce de uma obra-prima irrepetível