The Eddy

The Eddy: Um improviso de jazz que está fora de ritmo

The Eddy é uma série escrita por Jack Thorne que estreou a 8 de maio na Netflix. A série conta com André Holland no elenco e com Damien Chazelle a realizar os dois primeiros episódios. Os oito episódios contêm diálogo que mistura inglês, francês, árabe e polaco.

A narrativa foca-se em Elliot Udo (André Holand), um talentoso músico americano que abre um clube de jazz, em Paris. Depois de um homicídio trágico, o artista tem de conciliar dramas profissionais, uma visita da filha mais velha e a investigação criminal que pode colocar em risco o clube que gere.

O talento envolvido em todas as componentes promete mais uma grande oferta da empresa de streaming, mas será que The Eddy cumpre com a expectativa?

Ritmo lento

O principal problema de The Eddy é a escrita. Os oito episódios duram todos, aproximadamente, uma hora. Esta característica não é negativa por si, porém os argumentos desenvolvem a narrativa a um ritmo vagaroso, com desenvolvimentos substanciais raros e dispersos em cada episódio. A duração pouco usual para um episódio em streaming, junto a uma história que demora a evoluir, dificulta a prática de binge-watching. Mesmo se virmos apenas um episódio por dia, a experiência esgota a energia e atenção do espetador.

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Cada episódio foca-se numa personagem do elenco principal — membros da equipa do clube de jazz e respetivos familiares. Não obstante, há sempre uma fatia substancial de tempo dedicada à intriga criminal em que o protagonista está envolvido. A opção criativa é uma espada de dois gumes: se, por um lado, temos um episódio que nos permite conhecer melhor uma personagem específica, a verdade é que nos outros episódios essas personagens têm aparições muito superficiais — com exceção do protagonista.

Outro grande problema é a familiaridade de toda a narrativa. Há desenlaces que são demasiado previsíveis e, em geral, é tudo feito seguindo uma fórmula muito segura. Visualmente, a série opta por um estilo de filmagem realista, quase documental. Não é particularmente arriscado, mas é eficaz em inserir o espetador na ação.

The Eddy
Um dos pontos principais da série é a relação entre Elliot e filha mais velha, Jullie.

Um por todos e todos pelo jazz

Damien Chazelle e jazz. Muitos sonham ter uma relação tão inquebrável como a que o cineasta tem com este género musical. É um dos principais pontos chamativos de The Eddy, mas é preciso esclarecer alguns fãs. A série da Netflix não é um musical ao estilo de La La Land. Aliás, a grande porção de cada episódio não contém jazz.

Dito isto, a paixão pelo jazz é o elo de ligação de todas as personagens. São artistas com um sonho comum, uma família que tem de se unir em tempos difíceis para que anos de esforço e sacrifício não sejam perdidos. É um tema comum a todos os projetos de Damien Chazelle e The Eddy, apesar de só ter a colaboração do realizador em dois episódios, continua esta tendência: a luta pelo sonho.

A narrativa segura não deixa de transmitir este espírito de resistência. Ajuda ter um elenco de elevada qualidade. Atores que encarnam personagens realistas com as quais podemos simpatizar, ao mesmo tempo que fazem boas performances musicais. Pode existir aqui algum sentimentalismo a mais, contudo cada um de nós pode ceder alguma empatia a uma história de pessoas que só querem ser felizes a produzir a arte que adoram.

E por falar na componente sonora, a banda sonora de The Eddy é fantástica. Glen BallardRandy Kerber são os compositores responsáveis por faixas de jazz fantásticas que surgem no clímaxes emocionais de cada episódio. Fãs do género musical podem ir às plataformas digitais ouvir 1h08 de música que a série tem para oferecer. E para quem não é particularmente apreciador, fica o convite para dar pelo menos uma escuta num álbum deliciosamente construído.

The Eddy não está ao nível dos grandes êxitos da Netflix. O argumento não tem um desenvolvimento eficiente e não há riscos criativos que surpreendam o espetador. Por outro lado, o elenco sólido, a mensagem de base otimista e a banda sonora são trunfos suficientes para convencer alguns a ver os oito episódios até ao fim.

Há muito entretenimento desmiolado a ser feito por estes dias, mesmo que legítimo à sua maneira. No caso de The Eddy nota-se que é uma obra feita com cuidado artesanal. Só é pena que talvez seja melhor enquanto álbum em vez de série.

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