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João Tordo: ser escritor “implica imenso amor e imensa fé naquilo que se faz”

O Dia do Autor Português celebra-se esta sexta-feira (22). Para assinalar a data, conversámos com João Tordo sobre esta “profissão de risco”

O Dia do Autor Português celebra-se esta sexta-feira, dia 22 de maio, em homenagem a todos os escritores portugueses do passado e do presente que contribuíram para o desenvolvimento da cultura. Para assinalar a data, João Tordo conversou com o Espalha-Factos sobre esta “profissão de risco”, bem como a sua relação com a tecnologia, e sobre a diferença entre “escritores” e “pessoas que escrevem”.

Os autores ajudam o leitor a sonhar, a sentir, a viajar e a conhecer outros mundos e realidades que, de outra forma, provavelmente não iria conhecer. Contudo, ser autor “não é para toda a gente”, de acordo com João Tordo. O escritor confessou que esta é uma profissão difícil e arriscada, que requer “paciência”, “tolerância”, “compaixão”, “temosia” e, mesmo depois de décadas, uma vontade enorme de acordar todos os dias a querer continuar a escrever.

Dia do Autor Português_João Tordo
Foto: Pixabay

Ser escritor em Portugal

“Eu todos os dias volto à escrita e sinto-me muitas vezes como se estivesse a aprender tudo outra vez”, afirmou João Tordo. Para o autor de Ensina-me a Voar sobre os Telhados (2018) e do mais recente Manual de sobrevivência de um escritor (disponível a partir de dia 26 de maio), escrever é “um ofício” que implica “uma manutenção diária da aprendizagem”, mas que, ao mesmo tempo, “não se deixa ensinar”.

Por outro lado, o escritor português destacou a escrita como “uma profissão de risco em que as recompensas financeiras são poucas” e “em que as probabilidades de se ter sucesso também são muito poucas”. Deste modo, João Tordo assegurou que escrever não é o trabalho ideal para quem procura ter uma vida financeira confortável. “É um ofício que implica imenso amor e implica imensa fé naquilo que se faz e a consciência de que somos tão bons como o último livro ou como o próximo livro”, refletiu.

Apesar disto, o autor admitiu que o escritor também recebe, a longo prazo, uma “grande recompensa emocional”. “Ao fim de 15 ou 20 anos a fazer isto, vai-se construindo uma rede de leitores que gostam muito dos nossos livros e nós também gostamos muito que eles leiam e isso é muito recompensador”, explicou. Para conquistar esse público “fiel e muito dedicado aos livros”, João Tordo referiu a importância de escrever bons livros, mesmo que existam nuances relativamente aos vários géneros.

A diferença entre Escritores e Pessoas que escrevem

De acordo com João Tordo, nem toda a gente que escreve pode ser considerada um escritor. Por um lado, o autor assinalou que “há pessoas que escrevem por prazer, ou porque querem deixar alguma coisa, ou porque é importante para elas”, não descurando o seu mérito. Porém, o escritor português declarou que “os escritores são aqueles que permanecem nisto [na escrita] ao fim de 20 anos, 30 anos, 40 anos, e no fim dessas décadas continuam a acordar de manhã e a querer fazer isto”.

Para além disto, o autor revelou algumas características que considera comuns a todos os escritores. Em primeiro lugar, destacou a necessidade de uma “paciência enorme” e de uma “tolerância bastante grande à contrariedade e à dificuldade deste ofício”. Devido também a esta contrariedade e às grandes probabilidades de fracasso, mesmo em autores já com alguma experiência, João Tordo afirmou que estes precisam também de “uma enorme compaixão por si próprios”.

O escritor acrescentou a estas características “uma teimosia enorme e um lado obsessivo-compulsivo”, dado o facto de a escrita ser “um ofício muito repetitivo”. Por fim, o autor sublinhou ainda a capacidade de comunicação. “Nos nossos dias aquela ideia do escritor fechado, do escritor ausente já não existe. O escritor está em contacto quase permanente com o público, seja em entrevistas, seja em festivais, literários, seja em feiras do livro”, assegurou.

A escrita no contexto digital

Dia do Autor Português_João Tordo

Para João Tordo, a tecnologia e as redes sociais não têm qualquer sentido lúdico, mas sim um “lado muito bom de partilha”. “Através das redes sociais, consegues ir mantendo os teus leitores alerta para o que tu estás a fazer, para o que vai sair a seguir, para o que já saiu”, declarou. Para além disso, o escritor português admitiu que a tecnologia foi também uma ferramenta importante no contexto de isolamento social devido à Covid-19. “Muitas coisas que antes do confinamento eu fazia ao vivo, agora faço nas redes sociais”, relatou.

Apesar de assegurar que não lê livros digitais, o autor estabeleceu comparações com a experiência de ler um livro físico. “As palavras são as mesmas, mas a experiência de portabilidade é outra, obviamente”, frisou. Contudo, João Tordo afirmou que, em Portugal, a maioria dos leitores, cerca de 90 a 95%, optam pelos livros em papel e que também partilha dessa preferência. “O livro para mim não é só aquilo que está dentro, é a capa, são as páginas, é o facto de ser teu”.

Por fim, o escritor excluiu a hipótese de o contexto tecnológico e o crescimento das plataformas de streaming poder levar à redução da leitura. “Nunca houve tanta gente a ler. E isso são os números. Nunca se venderam tantos livros. Nunca houve um público leitor tão amplo, tão vasto e tão diversificado”, assegurou.

Da mesma forma, o crescimento das plataformas de streaming também não constitui, para João Tordo, uma ameaça à literatura. O autor destacou um “erro de perceção” de que “as pessoas pararam de ler e passaram a ver Netflix” e assinalou essa visão como errada. E defendeu: “As pessoas que não gostavam de ler passaram da TV para a Netflix. Agora, as pessoas que gostam de ler continuam a ler”.

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